Três perspectivas sobre a Igreja Universal (S. Campos, 1997)

14 10 2007

O livro “Teatro, templo e mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal” de Leonildo Silveira Campos apresenta a Igreja Universal sob três perspectivas. A linguagem do livro não é tão acessível quanto se gostaria. É, em suma, um trabalho acadêmico, que pode ser difícil de digerir pra quem não está acostumado com esse tipo de texto. Mas a leitura é obrigatória pra entender o neopentecostalismo no Brasil porque o autor corrige muitas das distorções que – olha eles aí – os meios de comunicação trazem sobre a IURD. Ele não defende a instituição, mas é cuidadoso (talvez um pouco demais) em julgar a conduta dos seus líderes – eu suspeito que parte desta atitude possa ser atribuída ao fato de que ele mesmo tem formação teológica e experiência como pastor. O livro não é recente. Muita coisa mudou em dez anos – especialmente o poder de comunicação do grupo de Edir Macedo, o posicionamento político da instituição e o cenário político e econômico brasileiro.

Pontos principais (bem gerais):

Muitas características do culto iurdiano (da IURD) são típicas de uma prática teatral do sagrado, mas de uma teatralização na qual todos participam como atores, numa espécie de teatro de arena. Não é um espetáculo pra ser assistido, mas vivido.

Ele refuta a interpretação predominante de que a IURD é apenas uma forma de comercializar o sagrado. É um argumento interessante, mas infelizmente, apresentado de modo não muito claro. Vou ter que voltar a esse ponto. Ele destaca o marketing da igreja, que adota uma postura na qual o público religioso pode ser formado, moldado e orientado em seu “consumo”, por meio de técnicas mercadológicas apropriadas, semelhantes às empregadas pelas empresas comerciais que visam o lucro financeiro.

Essa igreja está centrada, diferentemente das igrejas cristãs tradicionais, nas necessidades e desejos das pessoas.
Como a IURD é uma instituição religiosa relativamente nova, ela tem a flexibilidade para mudar seus “produtos” e adequá-los da melhor maneira possível para satisfazer a demanda de “consumo” por este ou aquele “produto religioso”. O mercado é segmentado através de uma classificação das pessoas de acordo com suas necessidades físicas, espirituais, psicológicas e benefícios desejados.

A igreja é um sistema de comunicação, adaptada a uma sociedade de massa, mas ao mesmo tempo, sem deixar de ser uma forma de “religiosidade oral”. A retórica iurdiana emprega palavras de ordem e slogans, armas de guerra, numa linguagem usada pelos que anunciam produtos e serviços em sua imprensa. Ela usa marcas, signos e exposição institucional no processo de criação de seu próprio espaço social dentro do campo religioso, como cenário de luta entre instituições.

Exorcismo e libertação, cura e salvação, prosperidade e sucesso são três aspectos indissolúveis da visão teológica dos empreendedores da Igreja Universal, que, de uma maneira bem prática, procuram apresentar ao iurdiano mais do que uma visão de mundo, mas um guia para a ação.

Ele também toca em questões de gênero na estrutura da igreja (o machismo dos pastores iurdianos); o envolvimento da IURD com a política, criando condições para o aparecimento do “político de Cristo”.





Euclides contra o ponto final

14 10 2007

Estava procurando outra coisa hoje de manhã e dei com uns textos que Euclides da Cunha escrevia para o jornal. Olha o tamanho das frases:

Há poucos dias se expandiu lírica e dolorosamente a sentimentalidade geral; não criminosa e bárbara se erguera crispada sobre a fronte silente do Cristo; o telégrafo, vibrando eletricamente a comoção geral, transmitira aos mínimos recantos do mundo o espantoso crime; agitou-se no túmulo a carcaça desguarnecida de Torquemada; os réus confessos de ateísmo fizeram-se Madalenas soluçantes e trocaram, por momentos, os altos coturnos pretensiosos pelas sandálias humílimas dos penitentes; fez-se precisa a reparação, e a reparação se fez — amplamente — com as tochas, convictamente vibradas, nas costas de meia dúzia de infiéis rebeldes; e no meio de tudo isto, nós, ou tivemos uma ironia esfaceladora, farpeando, despiedada, aos crentes de última hora, capazes de pintar bigodes no rosto imaculado de Maria, ou a razão frigidíssima, condenando o fato em si e os seus inquietos exploradores.

Hein?!
Nem se estresse tentando entender o que ele diz; está tudo fora de contexto mesmo. Mas se você tiver uma curiosidade incontida de decifrar o texto, veja aqui.

Nessa próxima, nem ponto-e-vírgula ele usou.

De fato, nada pode perturbar com maior intensidade o mais seguro plano de campanha do que esse sistema de guerra que sem exagero de frase se pode denominar — a tática da fuga — na qual, adaptadas de um modo singular ao terreno e invisíveis como misteriosas falanges de duendes, as forças antagonistas irrompem inopinadamente de todas as quebradas, surgem de modo inesperado nas anfractuosidades das serras, nas orlas ou nas clareiras das matas e, fugindo sistematicamente à batalha decisiva, diferenciam e prolongam a luta, numa sucessão ininterrupta de combates rápidos e indecisos.

Onde é que se respira for God’s sake? Meu fôlego só chegou até “quebradas” (teria acabado de qualquer jeito assim que eu topasse com “anfractuosidades”). Outra:

Falamos desapaixonadamente; embora em nosso tirocínio acadêmico nos subordinássemos ao método filosófico do eminente instituidor da Síntese subjetiva, o mais admirável livro do século XIX, e o veneremos como o maior dos mestres; embora reconheçamos na doutrina positiva sólidos elementos para constituir-se a religião do futuro e estejamos certos de que, na grande crise moderna, ela representará papel idêntico ao do Cristianismo na anarquia medieval — não pertencemos à minoria ilustre dos que, com uma abnegação notável, seguem todos os preceitos do novo dogma, através da metafísica dissolvente do nosso meio.

Às vezes ele fazia uma seqüência de frases longas…

Nós mesmos que, para garantia do próprio espírito, invertemos em tudo o que se refere aos acontecimentos atuais, a velha fórmula que regula a aquisição das idéias — isto é, nós que, calculadamente, nos habituamos a pensar antes de sentir, embora assim abroquelados, não sofreamos o ímpeto da primeira onda; comovemo-nos e idealizamos uma tela de Rembrandt — erma de luzes, pavorosa e constritora, aonde em meio da desolação dos descampados um grupo de mártires, sob os olhos silentes das estrelas, pairava, tendo sobre as frontes, latente, uma grande noite, a saudade da pátria…
Não há, de fato, tese de mais fácil e ampla explanação do que esta. Orador, ao galgar a tribuna, começa por ter, naturalmente, todo o auditório a seu lado; vai fazer vibrar a nota sempre altíssona do velho sentimento humano: não precisa dominar, prendendo-as aos liames fulgurantes da dialética, as inteligências — dirige-se aos corações; não precisa elevar o assunto — o próprio assunto eleva-se e eleva-o; não necessita quase defender-se — ninguém o ataca; todos afinal o aplaudem, porque iluminada por tal oratória a tribuna não é uma posição de combate, é sagrada — é um púlpito!
Toda essa eloqüência porém não resiste a uma reflexão medianamente lúcida: fora desta corrente hipnótica, que circula as tribunas, a consciência reassume o seu império inviolável e reage sobre a ebriez das emoções: o tribuno enérgico, vigoroso e brilhante, comove-nos pintando tetricamenteo destino dos homens, tudo isto porém esvai-se ante a lucidez do espírito bastante que nos mostra o destino da pátria.
É forçoso convir; nós não estamos numa quadra tão fácil e feliz que faculte esse desperdício inútil de emoções a esse constante expluir, gongórico e extravagante, de fraudulento lirismo, que invade os jornais e as tribunas; deixemos de uma vez a exploração pecaminosa de todas as dores e de todas as calamidades; batamo-nos à luz dos nossos princípios, adversos embora, sem o acompanhamento obrigado dessas eternas loas de infra; desse constante salmodiar de agruras…

Impressão minha ou ele está criticando o que os outros escrevem?

Agruras, indeed, Euclides.