por que você lê?

30 11 2007

Procurando uma resposta à pergunta “por que lemos?”, este artigo de Matoko Rich cita uma grade verdade: nós geralmente inventamos alguma coisa rebuscada quando alguém nos pergunta por que lemos.

In some cases, asking someone to explain why they read is to invite an elegant rationalization. (…)

So what about those three titles turned him into someone who is crazy for books? “I could create a narrative explaining the creation myth of my reading frenzy,” Mr. Díaz said. “But in some ways it’s just provisional. I feel like it’s a mystery what makes us vulnerable to certain practices and not to others.”

Eu gostei dessa explicação (porque foi o que aconteceu comigo):

“The Uncommon Reader” posits the theory that the right book at the right time can ignite a lifelong habit.

Pelo fato de que no Brasil ler ainda não é hábito, eu sinto que quem é exceção tende a mistificar um pouco o ato de ler (eu faço isso!). Daí a resposta empolada à pergunta simples “por que você lê?”.

Ler é só mais uma coisa que as pessoas fazem.





lendo desenhos

29 11 2007

De “Thinking with a Pencil” de Henning Nelms.

Those who are accustomed to work with drawings speak of reading them, and they use the term in much the same way that other people do when they speak of reading a printed text. A drawing is said to “read well” when its meaning is clear. Thus, a fashion sketch reads well when it tells the dressmaker everything, except the measurements, that she needs to know in order to make the garment.

Reading a drawing is easier than making one. You can read drawings that you cannot make, but you cannot make a drawing unless you could read it if it were made by someone else. For this reason, learning to make drawings begins by learning to read them.

(…)

Experience in reading unfamiliar varieties of drawing will not only increase your ability to draw but will enlarge your graphic vocabulary.

Achei essa idéia fascinante. Nunca tinha pensado no ato de decifrar um desenho como um tipo de leitura.

E não consegui evitar de traçar um paralelo entre essa maneira de pensar ilustrações e o ato de ouvir música. Ouvir música também é um tipo de leitura, já que a música também tem um vocabulário próprio. Se você se familiariza com este vocabulário, através de um estudo das convenções que regulam o fazer musical, vai ouvir coisas que um ouvido não treinado não concebe perceber e fazer conexões que são acessíveis apenas para um ouvinte “alfabetizado”.

Também para aprender a fazer música é preciso antes aprender a ouvir.





how to avoid sexist language

26 11 2007

De Robert W. Bly, dicas valiosas pra um antigo problema meu:

A few techniques for avoiding sexist language:

  • Use plurals. Instead of “the doctor receives a report on his patients,” write, “the doctors receive reports on their patients.”
  • Rewrite to avoid reference to gender. Instead of “the manager called a meeting of his staff,” write, “the manager called a staff meeting.”
  • Alternate gender references. In the past, I used his and he throughout my copy. Now, I alternate he with she and his with her.
  • Use “he and she” and “his and her.” This works in simple sentences. But it can become cumbersome in such sentences as, “When he or she punches his or her time-card, he or she is automatically switched to his or her overtime pay rate.” When you use he and she and his and her, alternate these with she and he and her and his.
    Do not use the awkward constructions he/she or his/her. Instead, write “he or she” or “his or her.”
  • Create an imaginary person to establish gender. For example, “Let’s say Doris Franklin is working overtime. When she punches her time-card, she is automatically switched to her overtime pay rate.”

E uma listinha utilíssima (com várias novidades pra mim):

Sexist term
anchorman
advertising man
chairman
cleaning woman
Englishmen
fireman
foreman
a man who
man the exhibit
man of letters
mankind
manpower
man-made
man-hours
Miss, Mrs
newsman, newspaper man
postman
policeman
salesman
self-made man
stewardess
weatherman
workman

Nonsexist Substitute
anchor
advertising professional
chairperson
domestic
the English
firefighter
supervisor
someone who
run the exhibit
writer
humanity
personnel, staff
artificial, manufactured
work hours
Ms.
reporter
mail carrier
police officer
salesperson
self-made person
flight attendant
meteorologist
worker

(“The Copywriter’s Handbook “)





um Moleskine

25 11 2007

Estava conversando com uma amiga hoje. Comentei com ela minha empolgação com as cadernetas e cadernos Moleskine. Eles têm um design muito cool e uma história interessante (por exemplo, foram usados por gente como Van Gogh, Picasso e Hemingway) deixa a gente com vontade de enchê-los de desenhos, histórias, idéias, etc. Pelo menos eu fiquei assim.

É uma frescura sim, admito. Não são muito baratos e há modelos (menos famosos que os Moleskine) que “fariam o serviço” por muito menos.

Mas eu fui atrás de um de música e um notebook pautado. Não resisti e acabei comprando um de sketch também.

E olha… eles são mesmo uma delícia.

Minha amiga lembrou que um programa de edição de textos (tipo Word) é tão mais prático que usar um caderno pra anotar as coisas é – pra muita gente – coisa do passado.

Mas será que é mesmo?

Uma diferença crucial entre os dois sistemas é a possibilidade de, no computador, poder voltar atrás e alterar qualquer coisa digitada sem deixar vestígio algum.

Agora imagine um caderno novinho (encadernado de um jeito tão perfeitinho como um Moleskine) e uma caneta-tinteiro. Se essas são suas ferramentas, você vai atacar o texto de outro jeito. Pra não deixar o papel todo rasurado, você vai ter que pensar um pouco mais antes de escrever.

Isto, com certeza, tem conseqüências na maneira como você organiza as idéias para pôr no papel.

Isto pode também abrir portas para novas idéias. Alguns coach-writers sugerem mesmo que se deixe o computador de lado algumas vezes e se use um outro meio pra escrever (como o velho caderno e caneta).

Enfim, eu comprei a idéia de vez. E não estou só nessa. Olhe as coisas incríveis que um Moleskine em branco já inspirou.

Se eu criar coragem, posto algumas fotos da minha “arte” aqui também.

Se você também curte Moleskines, eu adoraria saber.





o artista/intelectual

24 11 2007

Estava lendo “Cidade Partida” de Zuenir Ventura. O capítulo que fala da amizade de alguns bandidos com intelectuais do Rio de Janeiro no final da década de 50 e início da de 60, e o fascínio de artistas pelo banditismo. Alguns como Clarice Lispector e Helio Oiticica chegaram a lhes dedicar obras.

Parêntese: quem tem um artigo – nada fácil de ler – sobre o culto à criminalidade por artistas britânicos é Theodore Dalrymple: “Trash, Violence, and Versace: But Is It Art?”.

Trechos do livro do Ventura:

A morte de Mineirinho sensibilizou a literatura de Clarice Lispector e de José Carlos (Carlinhos) Oliveira. Clarice dedicou-lhe uma sentida crônica na revista Senhor. “Suponho que é em mim [...] que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que seus crimes.”
Ela confessa na crônica que os dois primeiros tiros lhe deram alívio e segurança. O terceiro deixou-a alerta, o quarto, desassossegada. O quinto e o sexto a cobriram de vergonha; o sétimo e o oitavo a encheram de horror; no nono e no décimo a boca ficou trêmula; no décimo primeiro, ela chamou por Deus, no décimo segundo, pelo irmão. “O décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”
Carlinhos Oliveira fez-lhe também um comovido necrológio, considerando-o a personificação da rebeldia: “Assaltava bem, matava com perícia, amotinava presidiários e se punha em fuga com extrema facilidade”. O cronista não escondia sua simpatia por um bandido que arriscava a vida “por um ideal” – o de querer “ser livre para ser criminoso, o louco!”.
Aquela execução despertou no cronista sombrias reflexões: “Fico eu agora pensando em inumeráveis adolescentes que amadurecem no mesmo cenário ignominioso que produziu Mineirinho e me pergunto: onde anda agora o espírito de rebeldia? Onde anda agora o espírito que se evolou de Mineirinho? Quem, com os olhos da demência, com o imenso ranger no coração descerá agora do morro para castigar e envergonhar a cidade?”.

(…)

Cara de Cavalo era um bandido chinfrim. Ladrão, não gostava de roubar. Diariamente cumpria uma rotina segura. À tarde, sempre acompanhado de uma das amantes, em geral a titular Lair Dias da Silva, pegava um táxi, sentava-se no banco de trás e percorria os pontos de jogo do bicho de Vila Isabel e arredores. Não saía do carro. Parava, Lair descia e ia recolher o pagamento compulsório do dia. Ele ficava esperando. Manoel Moreira levava a vida que um bandido preguiçoso pedira a Deus: pouco trabalho, muitas mulheres e um dinheiro certo, sem risco.
(…)
Um de seus grandes amigos, o artista plástico Hélio Oiticica, não se conformava com essa representação. “O que me deixava perplexo era o contraste entre o que eu conhecia dele como amigo e a imagem feita pela sociedade.” Um ano depois da sua morte, Oiticica imortalizou-o numa obra-prima: Homenagem a Cara de Cavalo. É um bólide, ou seja, uma caixa envolta por uma tela e cujas paredes internas estão cobertas com quatro reproduções da foto oficial do bandido assassinado: estirado no chão, perfurado de balas, com os braços estendidos em forma de cruz. No fundo da caixa, num saco com pigmentos vermelhos, aparece escrito como numa lápide: “Aqui está e aqui ficará. Contemplai o seu silêncio heróico”.
Fascinado pela marginalidade, passista da Mangueira, companheiro de malandros e bandidos, freqüentador de favelas, Oiticica “foi o maior inventor de arte brasileira, um dos maiores da arte contemporânea em todo o mundo”, segundo o crítico Frederico de Morais. Radical, ele considerava a arte como revolta e essa revolta era, na opinião de Morais, “semelhante à do bandido que rouba e mata, em busca de felicidade, mas também à do revolucionário político”.
(…)
Em 1968, Hélio Oiticica fez outra homenagem a Cara de Cavalo: a bandeira-poema “Seja marginal, seja herói”. Se o bólide foi parar no valioso acervo do colecionador Gilberto Chateaubriand, a bandeira virou emblema do Tropicalismo e estandarte da facção mais radical da geração de 68. Ambas se inscreveram na história da vanguarda artística brasileira.

Mas minha curiosidade sobre o texto do Ventura foi outra. Sempre ouço falar – com freqüência até – da representação “artística” do bandido na música popular. O que me deixou intrigada foi ver isso tão presente em outras artes.

O que me leva a concluir que a música popular, pela projeção que tem – por causa da exposição na mídia e pelo alcance a um público tão diverso – talvez seja a manifestação artística mais prontamente lembrada como articulando coisas que – hipocritamente – talvez preferíssemos ver fora do âmbito das artes: preferências políticas, escolhas ideológicas, preconceitos, defesa (ou crítica) de tradições religiosas, entre outras coisas.

Mas a música popular é uma vitrine (minha idéia de “música popular” aqui é bem abrangente, e estou pensando também em formas como rap). A literatura pode ser “secretamente” revolucionária porque o seu alcance é bem mais limitado. Mas não há como ignorar a música popular. Talvez por isso ela gere reações tão fortes; de alguns que a endossam sem questionar, e de outros que a odeiam – muitas vezes também sem crítica alguma.

E acho mesmo que é essa projeção que leva a alguns a atribuírem a função de “intelectual” a um sujeito que simplesmente escreveu algumas canções. E falam tanto do “discurso social” do sujeito que ele acaba acreditando que seu comentário é uma análise social aprofundada. Emprestando uma expressão usada por um destes mesmos intelectuais/artistas, o que acaba acontecendo é que “quem brinca de princesa, acaba acostumando na fantasia”.

Atribui-se um papel à música popular que ela originalmente não tem e reage-se com surpresa quando ela passa a ser um espaço para a discussão de temas que deveriam circular nos gabinetes do executivo, no congresso e nas universidades.

Culpa-se a música popular por se meter a comentar a realidade brasileira. Mas o problema talvez não esteja nas discussões em si, mas sim na tentativa de atribuir-lhes uma relevância que elas não têm.

É o problema causado pela projeção que a música tem. O sujeito assina embaixo do que diz o artista porque, muitas vezes, é a primeira vez que alguém lhe faz pensar sobre o assunto. Nunca leu nada sobre o problema da violência no Brasil e, de repente, aparece alguém falando, numa linguagem interessante, sobre assunto tão sério. “Ele deve saber o que diz” – conclui-se.

Na maioria das vezes, não sabe, não. Escrever um rap/canção é bem diferente de elaborar sobre os problemas de um país complexo como o Brasil. Essa diferença aparece, por exemplo, quando a imprensa empresta o microfone ao artista/intelectual – numa entrevista, por exemplo. Em tais situações (exemplos aqui e aqui), o intelectual mostra a que veio.

E a gente vê que queria mesmo era ouvir mais do que o artista tem a dizer, e que preferia que o intelectual calasse a boca.





writerisms

22 11 2007

Estas são informações preciosas que C.J. Cherryh coletou para aspirantes a escritores de ficção. Completamente adaptáveis ao português.
Trechos:

If a manuscript looks as if it’s sprouted leaves and branches, if every verb is “unusual,” if the vocabulary is more interesting than the story … fix it by going to more ordinary verbs. There are vocabulary-addicts who will praise your prose for this but not many who can simultaneously admire your verbs as verbs and follow your story, especially if it has content. The car is not a main actor and not one you necessarily need to make into a character. If its action should be more ordinary and transparent, don’t use an odd expression. This is prose.

(…)

With apologies to hard-working English teachers, school English is not fiction English.

Understand that the meticulous English style you labored over in school, including the use of complete sentences and the structure of classic theme-sentence paragraphs, was directed toward the production of non-fiction reports, resumes, and other non-fiction applications.

The first thing you have to do to write fiction? Suspect all the English style you learned in school and violate rules at need. Many of those rules will turn out to apply; many won’t.

(…)
As a general rule, use a major or stand-out vocabulary word only once a paragraph, maybe twice a page, and if truly outre, only once per book. Parallels are clear and proper exceptions to this, and don’t vary your word choice to the point of silliness.





a tirania da escolha

21 11 2007

Harry Eyres fala da perplexidade de ter que escolher um caminho na vida em “Tyranny of choice”. E fala de caminhos que, pelo contrário, acabam nos escolhendo.

Having to choose your life, Ortega argues, is a uniquely human condition. The stone and the tiger have no choice of life: the stone must gravitate and the tiger must pounce. Only human beings are faced with the mind-boggling responsibility of having, at each and every moment of their lives, to choose what to do and what to be. It is, as he puts it, both a necessity and an invitation: the human being feels invited to lend his or her assent to the necessary.

A capacidade/necessidade de fazer escolhas é, sim, uma condição única do homem. Mas boa parte dos seres humanos não tem condições de decidir sobre a própria vida.  E acho que há muitos que preferem que seja assim. Alguém que decide com quem você vai se casar, os pais que te dizem que profissão seguir, o mercado que te diz por qual emprego optar.

Ano passado tive uma disciplina que tratava da escravidão no Brasil. As primeiras aulas foram deprimentes. Mas depois de algumas leituras você descobre os artifícios que os escravos usavam pra poder sobreviver – e às vezes até viver bem – sob um jugo tão pesado. Me lembro de ter ficado pensando: será que não poder decidir sobre a própria vida é tão ruim assim? Afinal, de uma certa forma (e isso é um pouco do que diz  esse artigo) trata-se de um peso a menos a ser carregado na vida.

E será que não é isso o que se busca numa religião? Alguém (um ser mais capaz ou um seu representante aqui na Terra, ou um artifício incerto como jogar os búzios) para nos dizer que caminhos seguir? Talvez esse seja mesmo um dos grandes apelos da religião: a  capacidade de tirar dos próprios ombros a responsabilidade de ter que decidir sobre as mais pequenas coisas da vida.

Sempre olhei com muita suspeita para a frase “a minha religião não permite”. Juro que via algumas vezes uma ponta de alivio da parte de quem dizia isso.

Mas voltando ao que diz – de modo muito simpático – o Harry Eyres.

To be able to choose your path in life, you must have a sense of what attracts you, of something calling you. (…) I believe that to everyone, from outside themselves, comes some kind of calling. It might be the wood or brick or stone that calls the carpenter or the builder; the musical instrument that calls the musician; the experience of the power of healing that calls the doctor.

E ele cita Neruda, que sentia a poesia lhe chamando:

And it was at that age… Poetry arrived/ in search of me… There I was without a face / and it touched me.”
It ends ecstatically: “And I infinitesimal being,/…felt myself a pure part/ of the abyss,/ I wheeled with the stars,/ my heart broke loose on the wind.”

To speak of calling or mission in life in these terms probably sounds quaint, if not downright sinister. We are rightly suspicious of people who announce that they have a mission to save the world, or democracy, especially when that involves sending thousands of others on missions that may prove terminal. But however cynical or postmodern we may have become, it is worth remembering that the idea of a calling or mission could save us from the solipsistic cul-de-sac of “choice”.

Exato, Eyres. A idéia de chamado, de ter que decidir por algo sem que se tenha alternativa é muito mais charming.

Choice, as currently interpreted, sounds like a self-enclosed system. You’re expected to choose, according to your desire, as if that had no bearing on anything outside you. But just stop and listen, and “from a street” you may be summoned, “from the branches of night/ abruptly from the others.”

E se as coisas derem errado, sempre se pode dizer “não foi minha escolha”.





too much information

20 11 2007

We’re drowning in information and starving for knowledge.

Rutherford D. Rogers

 





9 livros sobre hip-hop

19 11 2007

Sugestão de um amigo que está escrevendo sobre o assunto.

1. Rose, T., Black noise : rap music and black culture in contemporary America. Music culture. 1994, Hanover, NH: Wesleyan University Press : Published by University Press of New England. xvi, 237.

2. Schloss, J.G., Making beats : the art of sample-based hip-hop. 2004, Middletown, Conn.: Wesleyan University Press. xiii, 226.

3. Miyakawa, F.M., Five Percenter rap : God hop’s music, message, and black Muslim mission. Profiles in popular music. 2005, Bloomington: Indiana University Press. x, 190.

4. Krims, A., Rap music and the poetics of identity. New perspectives in music history and criticism. 2000, Cambridge ; New York: Cambridge University Press. xii, 217.

5. Forman, M., The ‘hood comes first : race, space, and place in rap and hip-hop. Music/culture. 2002, Middletown, Conn.: Wesleyan University Press. xxii, 387.

6. Forman, M., ‘Represent’: Race, Space and Place in Rap Music.

7. Neal, M.A. and M. Forman, That’s the joint! : the hip-hop studies reader. 2004, New York: Routledge. xv, 628.

8. Keyes, C.L., Rap music and street consciousness. Music in American life. 2002, Urbana: University of Illinois Press. xxv, 302.

9. Chang, J., Can’t stop, won’t stop : a history of the hip-hop generation. 1st ed. 2005, New York: St. Martin’s Press. xiii, 546.





Religião e/na esfera pública (Meyer and Moors, 2006)

18 11 2007

Trecho da introdução do livro Religion, Media, And the Public Sphere de Birgit Meyer e Annelies Moors.

Religião e/na esfera pública

Meyer usa como modelo inicial, o conceito de esfera pública concebido por Habermas. Esta definição – apesar de criticada – auxilia a compreensão da maneira como novas condições em que o eu e as comunidades são imaginadas, assim como a política de identidade que tais imaginações geram. Estes debates mostram a importância da mídia em facilitar novas políticas de pertencimento, que, frequentemente, são separadas da nação-estado.

Um trecho do texto original (seguido da tradução):

Habermas saw the emergence of the public sphere and the public decline of religion as dependent on each other. He regarded religion as privatized, stating that religious convictions emerge in public debate only as opinions and thus have to engage with other (non-religiously informed) opinions in line with agreed-upon, rational discursive rules. Although “secularization theory” has come in for severe criticisms, the decline of religion in the public sphere continues to be largely taken for granted as an intrinsic feature of modernity in public debate and in the media. Conversely, if religion assumes a marked public role, this is taken to be a sign of the society’s backwardness or at least the backward orientation of the religious movement in question. This perspective on the public sphere as a secular space is intrinsic to a modernist attitude toward society. Such a view was mobilized in the colonial era to legitimize the alleged necessity of the colonial state to control and contain religion, above all Islam. The mobilization of public opinion against “religious fanaticism” in the wake of the events of 9/11 is also reminiscent of this stance. Called upon in contemporary debates about the (un)desirability of a public role of religion (Islam, in particular) in the name of the Enlightenment, this perspective is too ideological and normative to be of help in comprehending the changing role of religion and the contests to which this gives rise. In this sense the secular stance engenders a political position that demands as much of scholars’ attention as the religious positions critiqued by secularists.

Habermas entendia o surgimento da esfera pública e o declínio público da religião como mutuamente dependentes. Ele via a religião como algo privado e afirmou que convicções religiosas aparecem no debate público apenas como opiniões. Portanto, elas têm de travar discussões com outras opiniões (de caráter não-religioso) que estão em linha com normas de discurso racionais e já estabelecidas. Embora a “teoria da secularização” tenha recebido severas críticas, o declínio da religião na esfera pública continua a ser tomado, largamente, por um aspecto intrínseco à modernidade no debate público e na mídia. De modo contrário, se a religião assume um papel marcadamente público, isto é visto como um sinal de retrocesso, ou, pelo menos, como orientação retrógrada do movimento religioso em questão. Esta perspectiva de esfera pública como espaço secular é intrínseca à uma atitude modernista para com a sociedade. Tal visão foi mobilizada no período colonial para que se legitimasse a suposta necessidade do estado colonial de controlar e conter a religião, principalmente o islamismo. A mobilização da opinião pública contra o “fanatismo religioso” depois de 11 de setembro é uma reminiscência de tal postura. Invocada em debates contemporâneos sobre a (in)conveniência do papel público da religião (especialmente do islamismo) em nome do Iluminismo, tal perspectiva é por demais ideológica e normativa para ser considerada útil na compreensão da mudança do papel da religião e das disputas que esta tem ocasionado. Neste sentido, a postura secular gera um posicionamento político que exige a mesma atenção que estudiosos têm dispensado às posições religiosas criticadas pelos secularistas.

E exatamente como os pesquisadores têm visto o surgimento do chamado fundamentalismo muçulmano, hindu e cristão? Manuel Castells (1999) sugere que este é uma resposta direta aos processos de globalização e à proliferação da mídia de massas, uma reação defensiva contra as inseguranças de um mundo grande demais para ser controlado. É uma tentativa de fazê-lo encolher de volta a um tamanho administrável.

Eickelman e Anderson (1999) pensam diferente. Para eles, é exatamente a proliferação da mídia eletrônica que facilita o surgimento de um novo público muçulmano capaz de desafiar tanto o estado quanto as autoridades religiosas convencionais. É uma globalização surgida de baixo, que resulta em relações transnacionais.

É um erro relegar a presença pública da religião – que não se restringe aos grupos fundamentalistas – à uma realidade não-globalizada. Então, não funciona tachar o aparecimento de formas religiosas como sendo simplesmente o “retorno dos reprimidos”, um fenômeno que resultaria da inabilidade do estado em conter a religião. Religião pública não resulta de um passado pré-moderno, algo que deveria ser confinado à esfera privada. Pelo contrário, religiões tendem a se rearticular com a globalização.

Mas a esfera pública não deve ser vista como uma noção universal que surge prontamente em escala global quando certas condições são preenchidas. Ao invés disso, deve-se ter um mente que a articulação da religião na esfera pública desestabiliza a narrativa de modernidade – definida pelo declínio do papel público da religião – forçando-nos a pensar criticamente a conexão entre religião e mídia no que tange às políticas transnacionais e à nação-estado moderna.

Então a definição de esfera pública que Meyer adota é bem ampla: um espaço que surge num grupo de sociedades pós-coloniais em conjunto com uma certa medida de liberalidade política e de comercialização. Estes processos acontecem paralelamente ao declínio do poder do estado de exercer controle sobre a mídia, de determinar um lugar para a religião na esfera privada, e de governar a produção de identidade.





a flattering picture

17 11 2007

Sweating away next to Tereza was a woman of about thirty with a very pretty face. She had two unbelievably large, pendulous breasts hanging from her shoulders, bouncing at the slightest movement. When the woman got up, Tereza saw that her behind was also like two enormous sacks and that it had nothing in common with her fine face.
Perhaps the woman stood frequently in front of the mirror observing her body, trying to peer through it into her soul, as Tereza had done since childhood. Surely she, too, had harbored the blissful hope of using her body as a poster for her soul. But what a monstrous souls it would have to be if it reflected that body, that rack for four pouches.
(The Unbearable Lightness of Being, Milan Kundera)





não apenas frases numa página, mas o modo como nos sentimos a respeito delas

16 11 2007

Dia desses, li essa passagem do livro de Joseph Williams “Style: Toward Clarity and Grace”.

How we might describe the difference between these two sentences?

1a. Because we knew nothing about local conditions, we could not determine how effectively the committee had allocated funds to areas that most needed assistance.

1b. Our lack of knowledge about local conditions precluded determination of committee action effectiveness in fund allocation to those areas in greatest need of assistance.

Most of us would call the style o f (1a) clearer, more concise than the style of (1b). We would probably call (1b) turgid, indirect, unclear, unreadable, passive, confusing, abstract, awkward, opaque, complex, impersonal, wordy, prolix, obscure, inflated. But when we use clear for one and turgid for the other, we do not describe sentences on the page; we describe how we feel about them. Neither awkward nor turgid are on the page. Turgid and awkward refer to a bad feeling behind my eyes.

“Not sentences on the page, but how we feel about them”. E essa frase ficou na minha cabeça.

Não é exatamente o que ele está falando nesse trecho, mas, de fato, alguns livros têm o poder de nos dizer: “você é burro”.  Você lê e se sente um imbecil. Talvez venha daí a aversão de alguns à leitura. Nesse sentido, ler é um exercício de humildade. O que acaba sendo exatamente o contrário do que alguns afirmam: quem lê é esnobe.

Não. Quem lê é humilde o suficiente pra se deixar confrontar na própria ignorância. É fácil entender o desconforto de alguns com essa idéia.





a Reforma e os hábitos de leitura dos primeiros protestantes

15 11 2007

O hábito de ler os textos religiosos não é necessariamente um caminho para a iluminação. Três pesquisadores de Harvard estão sugerindo que a Reforma Protestante não foi exatamente um movimento de liberação na interpretação dos textos sagrados, onde quem era alfabetizado podia ler a bíblia por si só, interpretando-a livremente.

Neste artigo, chamado “Roots of Fundamentalism traced to 16th-century Bible translations“, eles sugerem que leitura não era algo prazeroso para os primeiros protestantes. Para estes pesquisadores, o hábito evangélico de leitura era disciplinatório, punitivo e aviltante.

Evangelicals did not believe that you could be saved through good works, so they looked for signs that the decision had gone their way. Reading became the locus for salvation or damnation. It was an intense experience in which your eternal fate would be decided.

O mais interessante é o modo como ele chegou a tal conclusão: analisando os prefácios das traduções bíblicas entre 1525 e 1547 e outros livros polêmicos. Um exemplo de um prefácio, que era na verdade uma ameaça ao leitor:

If you fail to read it properly, then you begin your just damnation. If you are unresponsive, God will scourge you, and everything will fail you until you are at utter defiance with your flesh.

Para um dos pesquisadores, Simpson, isso mostra como os reformadores repudiavam interpretações individuais.

Reading became a tightrope of terror across an abyss of predestination. It was destructive for evangelicals, because it did not invite freedom but rather fear of misinterpretation and damnation.

Deduzir como eram lidos tais textos por causa simplesmente de prefácios ameaçadores me parece meio suspeito – queria ouvir sobre os outros argumentos e livros. E um aspecto que ele deixou de mencionar é que a própria bíblia está cheia de advertências (às vezes mais que advertências) sobre o cuidado com que deve ser lida.

De qualquer modo, este estudo é interessante e seria curioso comparar esse tipo de leitura à época da reforma com a leitura que os primeiros estudiosos cristão fizeram das escrituras: é impressionante a quantidade de interpretações paralelas e ensinamentos heréticos que floresceu nos primeiros séculos da história da Igreja. Tudo bem que era um grupo seleto que podia ler, ou mesmo ter acesso a tais textos, mas parece que, comparando-se com o que pintam estes pesquisadores, havia mais liberdade.

Outra comparação interessante é ver como lêem os evangélicos nos dias de hoje. O que dizem estes pesquisadores explica um pouco da maneira como a bíblia é lida hoje. Uma coisa é clara: leitura não é sinônimo de esclarecimento (gostei da idéia de “leitura fundamentalista”).





livros X computadores

14 11 2007

Allan Wall se embanana todo na sua defesa do livro e crítica ao uso de informação em meios eletrônicos. Veja aqui o artigo.

Concordo que livros não vão desaparecer tão cedo. Besteira afirmar o contrário. “Gizmo Gus’s”, como ele diz, estão sendo melhorados. É por isso que eles mudam o tempo todo. Outra coisa: assim como eu posso dizer que, hoje, livros são ainda imprescindíveis, não posso afirmar nada com certeza sobre o amanhã. Ninguém pode. Nem você.

(…) representative of that new and potent ideology which claims that it is not the internalisation of knowledge that should be the aim of education, simply the acquisition of techniques for effectively accessing it. In other words, the skills do not have to be ‘learnt’, simply located, downloaded, then stored for future use.

Ideologia? Você está juntando no mesmo saco pessoas que gostam desses gadjets e aqueles que – diz você – não privilegiam a “internalização do conhecimento”. São coisas distintas e eu posso, sim, ser fã de tecnologia e ainda assim “internalizar conhecimento”.

Learning is participatory, which is why in any text-based subject, reading is usually more educative than watching a DVD.

E o que você entende por “text-based subject”? História? Inglês? Português? Geografia? Biologia? Qualquer um destes assuntos pode ter uma abordagem diferente que faz uso de vídeos, gráficos, sons, animações, música, jogos nos quais o aluno interage com um programa de computador. O que pode ser mais participatório do que isso?

But reading, serious reading, close reading, reading of the sort that I still teach in a department of English, cannot tolerate such superficial engagement. Surface contact with the text results in failure, and so it should.

E exatamente como você espera motivar seus alunos a lerem desse jeito? Ou pior, como é que você espera forçá-los a ler desse jeito na sua ausência, quando eles estiverem sozinhos em casa?

A French professor of dromology (the study of speed) has pointed out that ours is the first civilisation in history which has a speed as its absolute. All the same, Einstein knew that a certain slowness was often required for learning and thought.

Sua geração é mais lenta que a geração de hoje. Você, como professor, só teria a ganhar se reconhecesse isto. Um texto pode, de fato, impor seu próprio ritmo ao leitor. Isso é uma coisa. Outra coisa é você querer impor o seu ritmo às crianças de hoje. Elas vão te mandar ir catar coquinho. Ou vão te deixar falando sozinho.

Além disso o que é que esse parágrafo (A French… ) tem a ver com computadores e gadgets? Você está, por acaso, afirmando que não se pode ler devagar numa tela?

Interessante o exemplo do músico. Interessante porque totalmente inapropriado. Exatamente um caso onde um livro com um texto não ajuda.

E no parágrafo seguinte ainda continua trocando os pés pelas mãos. Os exemplos citados não têm absolutamente nada a ver com o uso de computadores.

And yet, however central the computer might have become in our lives, in a literary education, the book remains our main technological tool, and none of us should be bullied into apologising about the fact. The book represents one of the greatest technological innovations in history, and its fitness for its task, its versatility, its convenience, mean that it will surely continue well into the future.

Concordo com o fato de que o livro é versátil e conveniente. Mas afirmo a utilidade do livro sem desprezar a tecnologia do computador, que você desmerece. E discordo de um aspecto: pra mim, a maior inovação tecnológica do homem foi a invenção da escrita. Não necessariamente o livro. E você está esquecendo que o computador, na maior parte do tempo, manipula textos. Essa dicotomia livro-computador existe mais na sua cabeça do que em qualquer outro lugar.

O exemplo da apresentação de powerpoint é ridículo. Numa apresentação com esse recurso o aluno não pode interromper o professor? E quem foi que sugeriu que uma apresentação de powerpoint substituiria uma aula onde todos têm seu livro-texto? Não posso usar os dois? E seria muito diferente se o livro estivesse estocado num laptop na frente do aluno em formato pdf?

Eu uso o computador em aula o tempo todo. Leio os textos e livros diretamente do meu computador. É rápido, fácil e não tem nada disso que você está falando.

In terms of teaching literature, there is also a limit to the usefulness of any visual material.

Um limite ainda maior: não há como contornar um professor limítrofe.

Many of the most vehement advocates of new technology in education, as an alternative to books, are frankly advocating a novel species of illiteracy.

E de “computer illiteracy” já ouviu falar?

Esse artigo está é com cara de que foi escrito por aquele tipo de pessoa que tem medo de tecnologia.





Schwartz sobre tradução literária

13 11 2007

Artigo do tradutor Ros Schwartz sobre tradução literária. Muita coisa que a gente já sabe: uma tradução é uma leitura do texto original e a idéia de transparéncia em tradução é utopia.

Literary translation is about endless choices, weighing up whether to privilege meaning over music, rhythm over rules of grammar, the spirit rather than the letter of the text. The translator is simultaneously reader and writer.

Ele enxerga o trabalho traduzido como uma criação em separado.

In my view, it is important to recognise that a translated work is a separate creation, and that to serve our authors well we must produce a translation that reflects the spirit and intentions of the original while having its own distinctive and coherent “voice.” It should evoke a similar response in the reader to that of the reader of the original work, although the means of achieving this may be different. Especially when it comes to poetry.

O que é uma boa tradução? Segundo ele, não dá pra avaliar se não se sabe a língua original. E como a maioria das discussões críticas não faz referência à qualidade da tradução, de repente a conversa pode estar toda centrada num livro completamente diferente do original.

E na tentativa de fazer uma tradução “redondinha”, o tradutor distorce o texto:

Often, what is termed a “good” translation is one that reads like a piece of seamless English. A “bad” translation is somehow bumpy, or difficult. There’s a fine line between making foreign authors accessible to English-speaking readers and making them sound like English writers. Their rhythms and patterns, their “foreignness” is what makes them interesting. Salman Rushdie wrote: “To unlock a culture you need to understand its untranslatable words,” and that is why he uses a lot of Urdu words in his novels. Publishers and copy-editors do not always agree, and sometimes try to pressure the translator into bowing to what they think readers can cope with and ironing out all the “foreignness.” But if we flatten the text to keep the copy-editor happy, we are, in a way, “colonising” the writer. And this is an ethical problem for translators which calls for vigilance.

I believe translators need to be more explicit about what they do, even writing a foreword or an afterword, to let the reader know how their intervention influences the text. This goes against the grain here in the UK, where one of the great publishing myths is that the public is reluctant to buy foreign authors so it is better not to draw their attention to the fact that a work is a translation.

Eu acho que isso está mudando um pouco. Principalmente com as novas traduções a clássicos como Don Quixote e Guerra e Paz.

E ele conclui com uma citação de Nicholas de Lange, fazendo outra comparação entre música e literatura:

People don’t say that there’s a right way or a wrong way to perform a Tchaikovsky symphony. There may be unsuccessful versions of it, but on the whole the good orchestras produce good but totally distinctive renderings. Every soloist performs in a particular, personal way, and that performance is signed by the performer. People will go to a record shop ask for a recording by a specific artist . . . I wonder if there’ll ever be a day when customers go into a bookshop and say they’d like something translated by a particular translator. That responsibility of the performing musician is analogous to the way I see the responsibility of the translator. The translator is giving a personal interpretation, a personal rendition. The text as it exists on the page in the original language is like a musical score, and it’s like the musical score also because it’s locked up, because the English readers don’t have access to it, just as only the few people that can actually read music and hear it in their heads can read the score. It needs to be performed. So it’s there in a potential, and the performance is going to be totally unique and distinctive.

Mas ainda vai levar algum tempo pra que virtuosos da tradução para o português sejam contratados para tais performances. E não é porque não há virtuosos. É que eles precisam comer.