blog abandonado?

14 12 2008

Ok. Você merece uma explicação para a minha ausência. Então vou dizer o que eu ando fazendo.

Não abandonei o blog. E também não ando sem idéias. Pelo contrário, ando lendo umas coisas bacanas que queria compartilhar com você.

O problema é que estou estudando para o exame final de um curso que foi  oferecido de novo neste trimestre e que eu levei pau há uns dois anos. O assunto é música do século XX. O exame está no computador e tenho que entregar na segunda-feira.

Acabei me enrolando aqui e fiquei com uma semana pra relembrar todo o repertório de um século inteiro. Além de ter que concluir as leituras dos textos todos.

Que raio de prova é essa?

É o seguinte: tenho quinze partituras em mãos — na verdade, no meu computador — e minha tarefa é identificá-las, dando nome do compositor, falar alguma coisa inteligente sobre a linguagem e o meio utilizado e datá-la.

Como se estuda pra uma prova dessas? Basicamente, você tem que se familiarizar com o repertório. Correr os olhos pelo maior número de partituras possível, descrevendo o que vê, fazendo conexões, tentando memorizar cacoetes dos compositores, estilos, fases,

A outra parte da prova é composta de perguntas abertas. Uma que você deve responder em uma hora e duas outras que levam 30 minutos cada uma. Estas são perguntas onde você tem que demonstrar seu conhecimento da literatura sobre música do século XX. Então é importante que você cite, além dos fatos históricos, os nomes dos autores dos livros e artigos. Este é o tipo de prova onde se pode usar a wikipedia. Mas ela é de pouca ajuda se você não leu os textos.

As perguntas são complexas o suficiente pra exigir que você vá além dos fatos. Numa delas, foi pedido que discutíssemos a noção de modernismo na música do século XX e como ela se manifestou em diferentes situações.

Ainda estou trabalhando neste exame.

Assim que terminar e tiver mais tempo,  volto aqui pra falar mais sobre música.





lendo e curtindo “The Rest is Noise”, que eu disse que não ia ler

3 11 2008

Estou lendo, conforme falei aqui, “The Rest is Noise: Listening to the Twentieth Century” de Alex Ross. Um livro que eu disse que não ia ler. Tá certo que me obrigaram (coisas de escola).

Pois, estou aprendendo muito e achando a leitura deliciosa.

Tem tanta coisa que eu queria compartilhar aqui e vou tentar fazê-lo aos poucos. Por hora, só posso recomendar que você compre o livro e leia.

Não sei se alguém vai traduzi-lo. Deveriam. Eu gostaria de traduzi-lo, embora tenha que admitir que se a oportunidade surgisse agora, seria uma hora péssima pra eu me envolver num projeto tão grande assim.

Eu já li muita coisa sobre música do século XX. Fiz uma especialização sobre o assunto em 1998 na EMBAP e mesmo no Japão escolhi escrever sobre um compositor contemporâneo (Toru Takemitsu). Aqui em Chicago, tive um seminário bem intenso sobre o assunto, onde lemos dois volumes da coleção Oxford de Taruskin e a edição nova de Cambridge sobre o mesmo assunto editada por Nicholas Cook.

Então estou relativamente familiarizada com a literatura que trata da música deste período. Se não li, pelo menos ouvi falar e sei mais ou menos como é a abordagem.

Uma coisa já separa o livro de Ross dos demais: é um livro agradável de ler, escrito de modo a prender a atenção do leitor.

O leitor que ele tem em mente é o amante da música de concerto, não especialista. Esta foi uma das razões pelas quais eu, a princípio, achei que o livro não tinha muito o que oferecer num curso de doutorado. Quando foi lançado, tenho certeza que muita gente se perguntou “mais um livro sobre música do século XX?”. Confesso que da minha parte, a reação foi um misto de arrogância e desinformação, baseados nos muitos textos ruins de jornalistas que se metem a escrever sobre música erudita sem pesquisar suficientemente o assunto.

Com Ross é diferente: o livro é extraordinariamente bem-pesquisado. E olha que estou apenas no final do segundo capítulo; ainda tem muita coisa pra ler das quase 600 páginas que compõem o livro. Um trecho:

The Austrian premiere of Salome was just one event in a busy season, but, like a flash of lightning, it illuminated a musical world on the verge of traumatic change. Past and future were colliding centuries were passing in the night. Mahler would die in 1911, seemingly to take the Romantic era with him. Puccini’s Turandot, unfinished at his death in 1924, would more or less end a glorious Italian operatic history that began in Florence at the end of the sixteenth century. Schoenberg, in 1908 and 1909, would unleash fearsome sounds that placed him forever at odds with the vox populi. Hitler would seize power in 1933 and attempt the annihilation of a people. And Strauss would survive to a surreal old age. “I have actually outlived myself,” he said in 1948. At the time of his birth, Germany was not yet a single nation and Wagner had yet to finish the Ring of the Nibelung. At the time of Strauss’s death, Germany had been divided into East and West, and American soldiers were whistling “Some Enchanted Evening” in the streets. (p. 10-11)

Um aspecto extremamente informativo e novo na abordagem é a maneira como ele esmiuçou o relacionamento entre compositores: Schoenberg e seus dois famosos discípulos (Berg e Webern), Schoenberg e Mahler, Mahler e Strauss, Strauss e Wagner, Wagner e todo mundo…

Há, claro, as fofocas usuais, mas são incluídas na narrativa com o objetivo de trazer mais luz às personalidades complicadas e relacionamentos igualmente conturbados dos compositores uns com os outros. Então, as histórias desses homens tão geniais estão recheadas de episódios onde eles se mostram invejosos, traiçoeiros, ingênuos, preconceituosos, maldosos e aquelas características todas que nós adoramos apontar nos outros e esconder em nós mesmos.

Ross mostra tudo isso de maneira às vezes divertida, outras vezes trágica, sempre tocante. Veja este trecho sobre Schoenberg e o amante de sua mulher:

The next leg of the journey took place in the midst of personal crisis. Schoenberg had admitted into his circle an unstable character named Richard Gerstl, a gifted painter of brutal Expressionist tendencies. Under Gerstl’s direction, Schoenberg had taken up painting and found that he had a knack for it: his canvas The Red Gaze, in which a gaunt face stares out with bloodshot eyes, has come to be recognized as a minor masterpiece of its time and place. In May 1908 Schoenberg discovered that Gerstl was having an affair with his wife, Mathilde, and that summer he surprised the lovers in a compromising position. Mathilde ran off with Gerstl, then returned to her husband, whereupon Gerstl proceeded to stage a suicide that exceeded Weininger’s in flamboyance: he burned his paintings and hanged himself naked in front of a full-length mirror, as if he wanted to see his own body rendered in Expressionist style. The suicide took place on November 4, 1908, on the night of a Schoenberg concert to which Gerstl had not been invited; evidently, that rejection was the final straw. (p.54)

Observe que este episódio aconteceu há exatos 100 anos (hoje é 4 de novembro de 2008!).

Mas as caracterizações vão além da vida dos atores principais. Ele descreve o que se passava nas ruas e na cabeça das pessoas:

All over fin-de-siècle, strange young men were tramping up narrow stairs to garret rooms and opening doors to secret places. Occult and mystical societies–Theosophist, Rosicrucian, Swedenborgian, kabalistic, and neopagan–promised rupture from the world of the present. In the political sphere, Communists, anarchists, and ultra-nationalists plotted from various angles to overthrow the quasi-liberal monarchies of Europe; Leon Trotsky, in exile in Vienna from 1907 to 1914, began publishing a paper called Pravda. In the nascent field of psychology, Freud placed the ego at the mercy of the id. The world was unstable, and it seemed that one colossal Idea, or, failing that, one well-placed bomb, could bring it tumbling down. There was an almost titillating sense of imminent catastrophe. (p.40)

Além da música, Ross fornece uma das melhores descrições que eu já li do trabalho teórico de Schoenberg, um livro que virou livro texto dos cursos de harmonia no Brasil. Só no Brasil (e outro dia, eu falo porque esse livro não serve pra isso).

Harmonielehre turns out to be an autopsy of a system that has ceased to function. In the time of the Viennese masters, Schoenberg says, tonality had had a logical and ethical basis. But by the beginning of the twentieth century it had become diffuse, unsystematic, incoherent–in a word, diseased. To dramatize this supposed decline, the composer arguments his discourse with the vocabulary of social Darwinism and racial theory. It was then fashionable to believe that certain societies and races had corrupted themselves by mixing with others. Wagner, in his later writings, made the argument explicitly racial and sexual, saying that the Aryan race was destroying itself by crossbreeding with Jews and other foreign bodies. Weininger made the same claim in Sex and Character.

Schoenberg applied the concept of degeneration to music. He introduced a theme that would reappear often as the century went on–the idea that some musical languages were healthy while others were degenerate, that true composers required a pure place in a polluted world, that only by assuming a militant asceticism could they withstand the almost sexual allure of dubious chords. (p.64)





the society for ethnomusicology conference

26 10 2008

Uma folguinha na correria que está sendo essa conferência. Depois de uma manhã de painéis (quatro papers diferentes), todo mundo teve acesso a comida – com direito a cookies de sobremesa – e bebida de graça.

A conferência está acontecendo na Wesleyan University em Middletown. Uma paisagem que fica ainda mais linda com a troca da folhagem das árvores neste início de outono. É um lugar lindíssimo que eu te mostraria se minhas habilidades fotográficas fossem melhores. O tempo está ajudando: ontem choveu como eu não via há muito tempo. Teve gente que se aventurou na chuva e ficou encharcada em segundos. Mas hoje abriu um sol maravilhoso, embora esteja friozinho.

Hoje, a tarde é livre. Como recreação, estão oferecendo aulas de ioga e taichi (!) que eu dispensei. Olha, tais aulas só poderiams ser oferecidas numa conferência de etnomusicólogos mesmo. Aliás a comida ontem era toda oriental (tailandesa e algumas outras que eu nem tive tempo de provar). Há concertos de gamelão, música indiana, africana, e uma porção de outras culturas diferentes; danças e recepções à noite. Como a conferência é no campus, há internet de graça pra todos os participantes (foi distribuída uma senha pra quem se inscreveu na conferência).

Então aproveitei essa folga e vim me refugiar no meu laptop, que funciona meio que como um oásis pra quem já cansou de ser social. Não é muito fácil conversar por tanto tempo com tanta gente diferente.

Aproveitar bem uma conferência gigantesca como essa exige um pouco de planejamento. O pior erro é tentar acompanhar demais do que é oferecido. Há um limite para o que se pode absorver intelectualmente e o meu deve ser bem baixo. Não adianta tentar ultrapassar. Mas chato mesmo é quando há vários papers interessantes sendo apresentados ao mesmo tempo e você tem o azar de acabar escolhendo o pior deles.

É legal ver tanta gente estudando músicas não ocidentais – ou músicas que não são tão presentes na mídia. Ou ainda gente estudando essas músicas mais presentes, mas trazendo uma nova perspectiva para o modo como nós podemos vê-las.

Boa parte dos etnomusicólogos que eu conheço são músicos além de acadêmicos – pelo menos os melhores são sempre excelentes instrumetistas. E há muita gente andando por aqui com seus instrumentos. Uma das minhas roommates na verdade é uma citarista e hoje acordei com o som do instrumento. Ela estava praticando para o concerto de logo mais à noite. Lindo o som e muito agradável de ouvir. Ela parece ser uma instrumentista bem experiente. É uma etnomusicóloga formada que não conseguiu emprego numa universidade norte-americana.

Conheci várias pessoas. Revi algumas outras. Gente pesquisando tópicos tão diferentes do que o que me atrai no momento e também gente interessada em exatamente a mesma coisa – mas em outros lugares do mundo. Não encontrei ninguém trabalhando com música evangélica em São Paulo. Vi muita gente estudando, sim, coisas brasileiras, mas interessada em outros tipos de música. Aliás, hoje assisti um paper sobre bossa nova, apresentado por uma moça bem estressada e com uma certa indisposição para ouvir opiniões diferentes da sua.

Academia é uma carreira solitária e uma conferência da SEM consegue a proeza de reunir esse bando de pesquisadores solitários que trabalham em diferentes partes do mundo. É uma sensação boa ver tanto etnomusicólogo junto. Pelo menos durante cinco dias, você não está mais tão só. Também é muito bom ver os rostos por trás dos textos em livros e papers.

Por outro lado, assusta um pouco saber que há tanta gente por aí competindo por um emprego – há muitos estudantes aqui também. Muita gente terminando suas dissertações e tentando entrar no mercado.

Estou gostando muito e aproveitando. Apesar de algumas figurinhas esquisitas de ego inflado demais. Mas tenho certeza de que não são exclusividade da etnomusicologia.





conferência SEM

24 10 2008

Estou indo, daqui a pouco, pra Middletown em Connecticut para a conferência anual da SEM. O programa completo com todos os papers pode ser baixado aqui.





a funny map of U of C

22 10 2008

u of c funny map, originally uploaded by iedabispo.

Hoje dei um pulo em outro departamento pra resolver um negócio e vi esse mapa na parede. Daí tirei uma foto. Clique nela pra ver os detalhes. No flickr tem um com uma resolução melhor.

O mapa deve ser de 1933 e muita coisa mudou por aqui desde então. Muitos prédios novos e muita gente nova também. Mas é um retrato da época e tem coisas engraçadas também (John Rockefeller, fundador da universidade aparece com um saquinho de dinheiro — em cima, do lado esquerdo, abaixo da fogueira). A expressão “The City Gray shall ne’er die” seria hoje “U of C, where fun comes to die”, o motto não oficial da escola.

E o candidato a Ph.D nos seus exames (no lado direito do mapa) é um menininho no meio dos velhotes. E com as perninhas tremendo.

Com o tempo que se leva para sair daqui, eu desenhava o candidato como velhinho também.





música dos séculos XIX e XX: algumas leituras

20 10 2008

Há coisa de dois anos, levei pau na prova de single-sheets* do curso “Música dos séculos XIX e XX” e por isso, o professor sugeriu que eu fizesse nova prova quando o curso fosse oferecido novamente.

O curso está sendo oferecido este trimestre e eu estou fazendo as leituras todas, me preparando para a prova que dessa vez inclui questões abertas. Então estou relendo os volumes 4 e 5 de “Oxford History of Western Music: Music from the Earliest Notations to the Sixteenth Century”, de Richard Taruskin.

É curioso reler uma obra tão densa como essa. Estou impressionada com a quantidade de coisas que eu simplesmente não me lembro de ter lido.

E é interessante ver como ele escolheu discorrer sobre assunto tão complexo. Já falei aqui que ele é um escritor fantástico. O que eu gosto mesmo nesses textos é o modo como ele fala da música, mais do que o assunto em si. Nem sempre estou interessada nos fatos, mas acho fascinante ver como ele discorre sobre a música, que aspectos escolhe descrever, como analisa a música, o que ele menciona da vida do compositor, quais fatos históricos cita.

Enfim, pra mim, estes dois volumes dizem muito sobre como escrever sobre música sem soar como um artigo da Wikipédia.

Também fazem parte da bibliografia, o livro “The Rest is Noise” de Alex Ross e o “Cambridge History of 20th-Century Music”, editado por Nicholas Cook. Também tem “Twentieth-Century Music” de Robert P.  Morgan e “Musical Composition in the Twentieth Century” de Arnold Whittall. Mas desses falo outra hora, se tiver tempo (o curso requer 200 páginas de leitura por semana e eu estou lendo bem devagar porque é muita coisa pra assimilar).

Vou ver se posto trechos de uma entrevista que eu achei, onde Taruskin fala desse projeto. Outra hora.

*Single-sheets é o seguinte: você tem, nesse caso, vinte folhas de partituras, que deve identificar, dizer quem escreveu e quando. É claro que, para a prova, eles tiram o título da composição e o nome do autor das fotocópias. Na verdade, eles podem muito bem escolher uma folha que não seja o início da peça. Se você não consegue identificar, tem que pelo menos fazer um educated guess e explicar por quê. No caso dessa prova, todas as partituras eram dos séculos XIX e XX.




explicações e um site pra quem tem que decorar coisas

1 10 2008

Sumi, mas por boas razões. Pelo menos, eu acho.

Voltei pra Chicago e tive que encarar uma prova de história (música até o século XVI). Isso me manteve ocupada por uma semana inteira. Não fui tão bem quanto precisa, mas também não foi um vexame. Não sabia a resposta para a pergunta sobre manifestações populares e vernaculares no século XVI. O querido que elaborou a prova, disse que servia qualquer assunto, menos madrigal e chanson. Agora, adivinha quais eram as únicas formas que eu sabia? Enfim, enrolei lá. Mas é possível que me chamem de volta – quando eles não têm certeza se devem te passar, chamam você pra uma prova oral a respeito das perguntas que você respondeu.

Depois da prova, me ocupei de outra coisa: eu trouxe um violão maravilhoso comigo, então comecei a fazer aula de clássico. Que é uma coisa que eu sempre quis, mas que nunca tive chance. Meu professor é um peruano formado no Canadá com mestrado aqui nos EUA. Muito querido e muito competente também.

Agora estou estudando pra prova de alemão do programa. Estou usando esse site aqui, que está me poupando um tempo enorme. Eu sei, flashcard é a coisa mais nerd do mundo. Mas não tem jeito. A prova é a tradução de um texto sobre música em alemão. Eu tenho duas horas e meia pra verter a coisa toda pro inglês.

Também estou escrevendo e cuidando de papers pendentes. Outra hora eu falo sobre isso. Prometo ser mais freqüente [a nova reforma idiota derrubou a trema também?] nas postagens a partir de agora.





uma visita ao sebo

16 07 2008

Passei a tarde de ontem no Sebo do Messias na Sé. E pra quem gosta de livros, o lugar é um paraíso. Tá certo que tinha um violinista tocando sem parar lá. E como música me distrai incrivelmente, saí de lá esgotada. Aliás, música ao vivo num sebo? Pra quê mesmo?

Uma coisa que eles certamente podiam fazer é colocar umas cadeiras lá. Tudo bem, admito que uso a Cultura descaradamente como biblioteca, mas sebo é diferente porque a gente sempre sai com um livrinho. É impossível ir num sebo bom como aquele e não sair com alguma coisa.

O que eu comprei? Bom, apenas coisas pra minha pesquisa sobre música e pentecostalismo em São Paulo. Mas como eu gosto do que estou estudando, fiquei felicíssima.

Eu defini que iria estudar o Brasil há bem pouco tempo – coisa de dois anos, a mesma época que decidi mudar de teoria pra etnomusicologia. Então, minhas leituras dos pensadores brasileiros estão todas defasadas. Algumas coisas li quando estava na faculdade de economia (que nunca terminei), mas não me lembro de quase nada. Por isso estou voltando aos clássicos.

De imediato, vou atacar os três principais: “Raízes do Brazil” de Sérgio Buarque de Holanda, “Formação do Brasil Contemporâneo” de Caio Prado Júnior e “Casa Grande & Senzala” de Gilberto Freyre.  

Agora, olha que legal: achei edições ótimas dos dois primeiros em excelente estado e bem mais em conta que as edições novas. O do Freyre vou comprar de uma amiga que comprou recentemente.

Estes livros até que são procurados – acho que estão na lista da bibliografia básica para o concurso de diplomatas do Instituto Rio Branco – então fiquei surpresa em encontrar estas edições (embora, fossem as únicas). Livro bom quando vende aos montes no Brasil é porque está listado em bibliografia de concurso.

Também tem gente que não gosta de livros usados de jeito nenhum, principalmente quem tem rinite. Compreensível. O problema é que se o assunto é Brasil, não há como não recorrer a sebos porque há livros excelentes que não são mais publicados.  

Andar pelos corredores de um sebo sentindo cheiro de livro velho, ficar com as mãos sujas de manuseá-los, passar horas torcendo o pescoço pra direita e pra esquerda pra ler as lombadas – que nunca estão do mesmo lado – lendo tudo em pé. . . E pra quê?

Pra encontrar um livro que pouca gente tem, oras. Este é o fascínio dos sebos. É como uma caça ao tesouro.

Meus outros tesouros, cavados no Sebo do Messias foram os livros “O Messianismo no Brasil e no Mundo” de Maria Isaura Pereira de Queiroz e “Bandeirantes e Pioneiros” de Vianna Moog, que pretendo devorar logo.

Agora com licença que eu vou ter uma conversa com o falecido Sérgio Buarque.

 





antes do café?

11 07 2008

Esta é citada na introdução da Revista Dicta & Contradicta. Procurei o texto original:

It is a good morning exercise for a research scientist to discard a pet hypothesis every day before breakfast. It keeps him young.

Konrad Lorenz





about deadlines

1 03 2008

I love deadlines.
I like the whooshing sound they make as they fly by.

Douglas Adams





pra que estudar humanidades?

9 01 2008

O melhor desta discussão sobre a utilidade do ensino das ciências humanas vem depois, nas reações ao texto. Os comentários – numerosos – mostram pontos de vista interessantíssimos a respeito do assunto e são escritos por gente que ensina na área de humanas.

Mas critico este comentário do autor:

Teachers of literature and philosophy are competent in a subject, not in a ministry. It is not the business of the humanities to save us, no more than it is their business to bring revenue to a state or a university. What then do they do? They don’t do anything, if by “do” is meant bring about effects in the world. And if they don’t bring about effects in the world they cannot be justified except in relation to the pleasure they give to those who enjoy them.

Ele diz que o ensino de literatura e filosofia não traz conseqüências ao mundo além do prazer pessoal de usufruí-los? Será que eu entendi errado? Que idéia estapafúrdia.

Muitos dos comentários também rebatem essa idéia do autor. Algumas respostas dos comentários:

“The correct response when someone condescendingly asks you about the value of the humanities is simply to say to them “If you need to ask that question, then you obviously don’t understand enough to be discussing the topic in the first place.”

“The most unique features of being human are the ability to form sound judgments in our conduct and our ability to communicate effectively. To a very large extent, study of the humanities is indispensable to the development of those abilities.

Perhaps, if some of our national leaders had done their humanities homework, our present situation would be substantially better than it is.”

“The essay is devoted to the idea that the humanities have intrinsic rather than instrumental good, but if they are valued because of the pleasure they bring to those who practice them, that is treating them as an instrumental good – a means to pleasure. It is the difference between the aesthetic approach – beauty for beauty’s sake, and the utilitarian approach – beauty for the sake of pleasure.

For myself, some of the pleasure that comes from engaging in the study and teaching of humanities comes from the thought that what I am studying and teaching is intrinsically worthwhile: if it were good as a means to my pleasure, it would not be quite so pleasant.”

 

 

 





o que é etnomusicologia?

30 12 2007

Palavrinha comprida que, em termos gerais, refere-se ao estudo da música de diferentes culturas ao redor do planeta. A criação do termo em si é atribuída a Jaap Kunst, um pesquisador holandês que usou-o como subtítulo de um livro publicado em 1950.

Uma tendência de quem ouve o termo pela primeira vez talvez seja pensar que o etnomusicólogo estuda, por exemplo, as músicas daquela tribo aborígene da parte mais remota do planeta. De fato, alguns etnomusicólogos estudam isso. Mas alguns outros estudam as músicas produzidas pelas diferentes “tribos” urbanas. Tudo isso é da conta da etnomusicologia.

Pela sua abrangência, a etnomusicologia tem uma abordagem interdisciplinária da produção musical: ela usa ferramentas da teoria e análise musical, musicologia comparada, acústica, antropologia, sociologia, folclore, lingüística, história, psicologia, ciência política, economia e outras disciplinas. O grau de envolvimento do pesquisador em uma ou outra área depende muito da cultura que se deseja pesquisar. Por exemplo, um etnomusicólogo que trabalha com a tradição musical de uma tribo na Amazônia vai precisar de ferramentas diferentes das de um pesquisador de funk no Rio de Janeiro. A coleta e análise de dados em ambas as tradições envolve diferentes tecnologias; tecnologias estas que um pesquisador vai precisar dominar se quiser entender com profundidade uma determinada cultura musical.

Isto não tem necessariamente que ver com o grau de desenvolvimento da tecnologia utilizada pela tradição musical que se deseja estudar. Por exemplo, em 1898, um grupo de antropólogos de Cambridge interessado em pesquisar o Estreito de Torres (inclusive sua música) utilizou-se do que havia de mais moderno em equipamentos na época: fonógrafos (que gravavam o som em cilindros de cera), câmera para filmar e câmeras fotográficas.

Mas é claro que as perspectivas sobre a área de estudo da etnomusicologia também mudaram um bocado por conta da tecnologia hoje disponível. Sendo a Internet um espaço extremamente eficiente na produção, distribuição e consumo de músicas, é inevitável que uma parte fundamental do metier do pesquisador, seja saber navegar nesse meio e usá-lo efetivamente como instrumento e objeto de pesquisa.

Esta preocupação em registrar o modo como a música acontece in loco ainda é um dos pontos principais em pesquisa etnomusicológica. Na verdade, um aspecto que me chama a atenção no estudo fascinante da etnomusicologia é que ela não se restringe à análise do produto musical acabado. Ao pesquisador sério interessa também entender a música como processo.

O objeto de estudo da etnomusicologia é algo que está sempre sendo discutido e redefinido. Num primeiro momento, imaginou-se que sua área de abrangência eram as culturas fora da tradição européia ocidental; excluía-se, então, os gêneros musicais populares do mundo ocidental. Depois, procurou-se focar seu objeto de estudo nas tradições musicais de povos não-alfabetizados, ou ainda naquelas que eram transmitidas oralmente.

Segundo o verbete “etnomusicologia” do The New Grove Dictionary of Music and Musicians, a etnomusicologia hoje volta-se para músicas em contextos locais e globais. Embora esteja preocupada com tradições musicais vivas (incluindo-se canções, dança e instrumentos), alguns estudos recentes também têm investigado a história da música de diferentes tradições. Etnomusicologia é uma disciplina que primeiro buscou examinar “música em cultura” (Merriam), e então “música como cultura”, onde a pesquisa de campo constitui-se uma de suas metodologias essenciais.

(Algumas idéias e conclusões presentes nessa introdução são minhas. Mas eu também expandi e adaptei fatos e idéias mencionados por outros autores em outros textos.)





there’s always another pig

9 11 2007

Já te aconteceu de você ter lido e até analisado exaustivamente um livro e, quando algum tempo depois, alguém mencionou o dito cujo numa conversa, você teve um branco horrível e não conseguiu dizer nada que não fosse o óbvio que todo mundo já sabe sobre o texto?

E na sua casa o livro está lá todo rabiscado com seus comentários e você ainda tem aquele arquivo cheio anotações sobre suas impressões. Mas nada disso veio à sua mente na hora.

Já perdi a conta do número de vezes que isto aconteceu comigo aqui na escola. E numa discussão na aula você passa por alguém que não leu o texto.

Por isso foi bom ler o artigo de Scott McLemee sobre o assunto; e pelos comentários ao texto dele, deu pra ver que muita gente passa por isso.

Pra ele, falar sobre um livro é, entre outras coisas, uma habilidade social.

It is subject to whatever laws of reputation-economy have inspired Bayard [falei do livro dele aqui nesse post] and Lodge. But drawing a total blank on something you know you’ve read involves a different kind of transaction — one that is intra- rather than inter-personal.

Já a leitura do livro envolve outras coisas:

It may be that there are different segments of the self involved in reading. There is one part that actually puts in the time with the book (article, Web site, etc.) and brings together however much power of concentration you have available at a given moment. A different part of you handles the “take away”: whatever substance you extracted from a text. Still another internal functionary is charged with integrating that material into larger patterns of interest — digesting, rather than chewing, per Francis Bacon.

Finally some other aspect of the self manages all of the rest. It deals with the outside world as well. It is the part that engages in conversation. Also, it knows where to look to find your glasses.

It would be good to think that all of you are on the same team. But sometimes, no, you clearly aren’t. Sometimes there is a communication breakdown.

E quem são as principais vítimas desse tipo de branco?

My hunch is that this is especially likely to happen to people who do a great deal of reading that is task-directed rather than autotelic.

Em outras palavras, graduate students. Mas não só:

It is probably also influenced by just how much material gets processed via this division of labor. People who consume two or three books a month, for example, might be less susceptible to moments of total overload than those who read two or three a week.

E o conselho dele é aprender a escolher qual material você precisa estudar exaustivamente. Por algumas coisas, não compensa se matar.

Some situations require learning to handle texts like a meat packer carving up pigs on an assembly line. Certain skills are involved, and they are good skills to have. You can learn to wield the blade with some precision without losing a finger. But efficiency counts, because there’s always another pig coming at you.

Sempre tem. O problema, Scott, é que os porcos da escola (ou da vida) não são todos iguais como no exemplo que você citou. Os textos são bem diferentes uns dos outros. Alguns são pura perda de tempo. E eu acho mesmo que uma das principais funções da escola é ensinar a escolher com quais “porcos” vale a pena gastar mais tempo.





a idéia..

12 10 2007

por trás de um doutorado é encarar um período de humilhação extrema a fim de obter uma licença para depois humilhar os outros.





plano

8 10 2007

Dez anos pra escrever um livro que vai ser lido por no máximo meia dúzia de pessoas (já contando os membros da banca).

- Mas não é só o diploma…

- Ah, não?