entrevista com Simon Frith (i)

13 11 2008

Simon Frith é um etnomusicólogo que escreve sobre música popular. Ele começou como crítico escrevendo sobre rock e acabou concluindo um doutorado em UCBerkeley.

Ele escreveu “The Sociology of Rock” (1978) e “Performing Rites: On the Value of Popular Music” (1996).

Frith concedeu uma entrevista para a revista online de música “Perfect Sound Forever”, onde ele falou de coisas como indústria cultural, preços de CDs, colecionadores de discos, jornalismo musical, crítica musical, a influência da mídia na vendagem de discos e o que é escrever sobre música.

É sobre alguns trechos dessa conversa que eu queria falar aqui.

Eu gosto de ler entrevistas de pesquisadores que já publicaram bastante sobre determinado assunto porque, neste formato, muitos deles conseguem escapar dos vícios de linguagem e do jargão da academia e colocar suas idéias de modo mais acessível.

Recomendo a leitura da entrevista toda. Se seu inglês não permite isso, minha versão das respostas dele talvez te seja útil (não é uma tradução ipsissima verba). Incluí minhas impressões sobre o que ele diz.

Primeira observação que ele faz sobre a indústria cultural: “um aspecto que é peculiar a este segmento é que paga-se o mesmo por diferentes produções musicais independentemente do custo da produção”. Ele afirma que, na verdade, quanto maior a demanda, mais barato é o produto. E qual a explicação pra essa peculiaridade? Segundo Frith, a indústria fonográfica investe dinheiro em coisas que não trazem lucro (pelo menos não diretamente) e recupera o investimento na venda de produções que geram grande lucro. O negócio é maximizar as vendas de produtos populares e minimizar as vendas dos não tão populares.

Confesso que, a princípio, não entendi muito bem quais seriam esses “produtos não-populares”. Acho que ele está se referindo àquelas produções que não deram certo. De fato, a indústria fonográfica não tem como acertar sempre; produção musical é um negócio de alto risco (ele volta a falar disso mais pra frente).

Acho que isso tem duas implicações. Primeiro, mostra como qualquer avaliação deste mercado é uma coisa imprevisível e até nebulosa – uma falta de transparência que as próprias empresas envolvidas talvez prefiram manter – e ninguém sabe avaliar direito o que acontece direito com os processos de produção musical das grandes gravadoras. Acho que a coisa toda é um tipo de caixa preta, um sistema que segue sua própria lógica.

Segundo, esse lado arriscado das produções musicais explica porque as empresas usam agressivamente todo e qualquer recurso para impedir que seus negócios sejam ameaçados (como o combate à pirataria). Existe muito investimento envolvido.

Outra observação de Frith:

“Sempre se assumiu que, em se tratando de indústria cultural, as pessoas não escolhem as obras por causa do preço. (…) Elas não preferem Eminem a Pink ou a The Streets por causa do preço.

Com os CDs digitais, gravações podem existir para sempre e há um catálogo muito maior de itens antigos; portanto, há menos incentivo para se comprar os novos lançamentos. Então, eu acho que este tipo de custo está começando a ter um efeito. Um catálogo com itens mais antigos é mais barato e as pessoas não estão tão dispostas a comprar algo novo, que elas nunca ouviram e que custa mais. (…) O aumento da oferta e das opções de escolha será enorme e o preço vai acabar sendo um fator mais importante na decisão.”

Faz sentido. Mas eu levaria em consideração o fato de que muitas das novidades são lançamentos atuais de nomes consagrados. Acho que esse é um filão que talvez fuja um pouco dessa análise que ele faz.

Outro aspecto é que para as novas gerações de consumidores, o “clássico” talvez seja tão novidade quanto aquela banda lançada ano passado.

Uma pergunta sobre o “silêncio como um produto a ser comercializado”:

Frith concorda que esta é uma tendência é cita resorts, praias e condomínios fechados como variações dessa idéia: as pessoas pagam para fugir dos ruídos da cidade.

Eu diria que outro exemplo de como isto já está acontecendo é o sucesso de vendas dos fones de neutralizador de ruído (noise cancelling). Caríssimos e que se tornaram um produto extremamente popular (eu também quero um!). Aliás, só eles tornariam viável a idéia dele de uma gravação de silêncio.

“Com o mundo tornando-se cada vez menor, será difícil manter-se as diferenças entre os estilos musicais?

Frith aposta na capacidade criativa dos músicos. E eu concordo. Num mundo de mesmices, há pessoas fazendo coisas incrivelmente originais (enquanto outros, é claro, são virtuoses em copiar).

Outra coisa é que as tradições musicais evoluem – muitas vezes na marra, a contragosto mesmo – e conseguem se diferenciar do que veio antes, mas ainda assim mantendo certa coerência de estilo ao incorporar novos elementos.

(minha “conversa” com Frith continua aqui)





blogando a tradução de um livro

18 10 2008

Este parece ser um projeto interessante. O tradutor Daniel Hahn resolver blogar sobre a experiência de traduzir um livro. Desde o começo, ele pretende discutir o processo de traduzir o livro Estação das Chuvas de José Eduardo Agualusa, um escritor angolano.

Aqui ele fala das dificuldades que ele vê nesta tradução antes mesmo de iniciar, pelo fato de já ter traduzido material deste autor.

E aqui, como verificar se a tradução está correta:

The first is the question about how you know when something is right, when after a little playing around with alternatives you know you’ve got it. For me, there’s only one way to measure that, and that’s by reading it aloud.

E a preocupação com o som das palavras:

Then I came home and read the same passage aloud in Portuguese. (Which I would never do in public, as my accent is horrible…) And it sounded totally different. Smoother, humming, it felt as though it were all m’s and n’s and l’s. And indeed, look at this first line – even if you know no Portuguese, just look at the letters that constitute it: Naquela noite Lídia sonhou com o mar.

I wonder if I’ve done what I’m always afraid of doing, produced something that reads well but at the cost of forgetting some of its kinship to the original?

Daniel tem recebido emails com sugestões para os problemas de tradução que ele posta no blog. Achei corajoso ele se propor a compartilhar esse processo com os leitores do blog.

Por outro lado, talvez esse blog atrase um bocado a conclusão da tradução. Pelo menos, ele vai contar com gente disposta a dar seus pitacos.

Tradutores gostam (precisam?) mesmo de palpites.





você foi enganado

17 07 2008

Se você veio atrás de um moleskine, baseado neste post aqui, lhe informo que você foi enganado.

Isso não se faz, não é? Coisa mais desonesta mentir pra gente tão ocupada que nem tradutor.

Por que você não aproveita que está aqui e deixa um desaforo nesse post aqui (ou em qualquer outro) falando pra dona do blog que ficar oferecendo moleskine pras pessoas em troca de ibope no blog é uma coisa muito, muito feia e que isso não se faz?

Ou você pode aproveitar e dar uma olhada neste post aqui, que por acaso fala de um artigo muito bom sobre tradução. Tem esse aqui também falando da tradução para o português do Harry Potter que alguns adolescentes fizeram. E esse sobre tradução literária. E mais esse, onde um autor estrangeiro fala sobre tradução. Ou este com um trecho da nova tradução de “Os Maias” pro inglês.

E aqui deixo, muito desaforadamente, um link para o catálogo completo destes malditos caderninhos, que eu prometi e não vou te dar.

Volte outras vezes. Amanhã estarei distribuindo IPhones.





erros tipográficos que você nem sabia que cometia

19 04 2008

Esta é pra quem escreve em inglês ou traduz. Sobre dashes eu sabia porque fui corrigida por um professor. Mas o resto… Não passei nem na metade do teste. E você?

Coisa de nerd? Não. Coisa de profissional.





sobre traduzir… “just do the best you can”

14 03 2008

“An indispensable part of the translator’s craft is the ability to make decisions.”  (Elborg Forster)

Um artigo delicioso e pé-no-chão sobre tradução, escrito por quem sabe o que diz porque fala do que faz.

Trechos…

I suppose most people have no more than a vague idea of what is involved in transferring a text from a “source” to a “target” language. They think that as long as the translator knows both languages, he/she can “just do it,” as if it were a matter of drawing a map. But the fact is that the transferral can only be done by means of rewriting, for no two languages are totally congruent in their structure. And rewriting is a form of writing, which is why different authors will translate the same text in sometimes amazingly different, yet equally “accurate” ways. Translations, I often think, are like musical or theatrical performances: the conductor and the soloist follow a precise score, the actor follows a text, and yet the symphony sounds very different when conducted by Furtwèngler or by Bernstein; Laurence Olivier and Kenneth Branagh gave us very different Henry Vs.

Ou eu muito me engano ou o que ele descreve abaixo é uma abordagem de esquerda neste ofício tão importante? Vade retro! Nesse aspecto estou com Forster.

 In recent years a whole school of Translation Studies scholars has begun to insist that fluency and transparency in a translation are hallmarks of cultural imperialism, particularly if the target language is dominant, as English is in our own time. These theoreticians, people like Douglas Robinson and Laurence Venuti, start with the useful concept of systems-theory. By this they mean that the translator must be familiar with the “representational” and psychological systems in which both languages are embedded. So far so good. But then our theoreticians object to the kind of re-writing that makes the source-text fit into the mental, social, even political patterns of the target culture. (Putting it rather more simply, I keep reminding myself that any expression I use in a translation must “ring a bell” with the reader.) But the modern theorists feel that this would be a “hegemonic” proceeding, and in order to avoid it, they advocate “foreignizing” the translation. This, they claim, will make it sound strange and thereby “enrich” the target language. This may actually be legitimate in high literature, where even the source text often uses techniques of strangeness (Verfremdung) to focus attention, but in the kind of work I do, I believe that “foreignization” only creates awkwardness and confusion.

E, finalmente, uma visão humilde do que é traduzir:

“Just do the best you can.”

This just might be the motto for all translators.





um presente especial: a nova tradução de “Os Maias”

12 12 2007

Ganhei hoje um presente maravilhoso da minha melhor amiga: a última tradução de “Os Maias” de Eça de Queiroz, feita para o inglês por Margaret Jull Costa.

O parágrafo inicial da obra original, seguido da tradução:

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha decerto de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo de Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de uma data.

The house in Lisbon to which the Maias moved in the autumn of 1875 was known in Rua de São Francisco de Paula, and in the surrounding area of Janelas Verdes, as the Casa do Ramalhete, the House of the Bouquet of Flowers, or, more simply, as Ramalhete. Despite that fresh green name worthy of some rural retreat, Ramalhete was a large stern house of sober walls, with a line of narrow wrought iron balconies on the second floor, and, above that, a row of timid little windows sheltering under the eaves, a house which, as befitted a building dating from the reign of Queen Maria I, had the gloomy appearance of an ecclesiastical residence, and indeed, to complete its resemblance to a Jesuit college, it needed only a bell and a cross. The name, Ramalhete, doubtless came from the square panel of decorative tiles placed in the spot intended for a coat of arms that had never materialised, and which depicted a large bunch of sunflowers tied with a ribbon on which one could still just make out the letters and numbers of a date.





Škvorecký e suas duas línguas

9 12 2007

Agora é a vez de Josef Škvorecký falar da experiência de escrever numa língua estrangeira. É dele o terceiro texto do livro “The Genius of Language: Fifteen writers reflect on their mother tongues”.

O primeiro trecho descreve uma experiência que eu também tive com o português, depois que saí do Brasil:

A strange thing and Henry Miller got it right. Surrounded by the sounds of the foreign language—speaking, on a daily basis, my very good English, as friends kindly assured me—my eyes, my ears, my inner receptive organs became attuned to Czech to a much higher degree of precision than back in Bohemia. I awakened to aspects of my mother tongue of which formerly I was unaware, having used them subconsciously, mechanically. The sex appeal of feminine endings, the lure of verbal aspects, the capricious scherzos of prefixes, such things.

A segunda passagem fala do poder da linguagem apesar dos problemas com textos mal-traduzidos. Škvorecký, como ele mesmo diz, também traduziu.

The reviewers never read my novels as I had written them in my “small”—for most American critics, even “obscure”—language. They read only translations. And I thought of my early days, of the Sinclairs and Dickenses, and Dreisers, not to speak of Curwoods and Setons and Edgar Rice Burroughses, all of them enjoyed in dubious—no: bad—no: horrible translations, translations really insulting to sensitive speakers of the obscure language of the westernmost Slavs. And I wondered. What made me enjoy Mr. Babbitt, who constantly used the second person plural in addressing his children, his wife, his closest friends? What made me ignore the shocking impoliteness of characters who addressed their physicians with the disrespectful “Doctor,” not “Mr. Doctor”? What made me so imperceptive of the twisted sentences that slavishly followed the word order of the originals? Did they sound alluringly exotic? Sweetly foreign? What made me not wonder about a military band in Thackeray whose bulky musician played very loudly on the dulcimer? All that?

Surely, there was nothing resembling genius in the language of those translations. Yet the novels spoke to me, with great intensity. So strongly that they decided my future. True, there was Eliot, whom I first read in English, then years later in a supposedly good Czech translation, who, after the true magic of “Because I do not hope. . . ,” was almost torture. Was it Josef Hora’s labor devoted to each word which the translator, paid by that word, obviously neglected? Something else?

For a decade of my life, when my own efforts were banned, I turned translator myself. The experience taught me to appreciate my excellent translators in Canada. I bitterly learned what it was to cleanse your text of the abundance of auxiliary verbs so foreign to Czech, of the prevalence of the passive voice, of possessive pronouns used with parts of the human body, all these and other translators’ errors which so uglified the American magic of Faulkner, the British acrimony of Waugh, the translucency of Hemingway’s diction. Would any American monolingual or even—in the major languages—bilingual or trilingual reviewer dare to say what the late Czech critic said about my sentences?

No, and it wouldn’t be their fault. Although they were unaware of my originals, their reviews were rarely scathing, often favorable. What about language, then? What is it that makes even books that present only a ragged shadow of their model enjoyable, even enthralling? What makes a teenager in a landlocked little country ruled and butchered by foreign invaders and mighty Big Daddies enter the skin of an illiterate boy from Missouri, of a nigger slave—enter a world as far away as the stars?

Yes, language can be of supreme beauty. But there is more to works of fiction than just language. Style in Chandler’s sense, the experience of Dickens but also that of Henry James, of life’s martyrdom or of life’s sweet mellowness, and many other things.

Let’s leave it to the horses, they have bigger heads.

Or perhaps to the elephants.





how to avoid sexist language

26 11 2007

De Robert W. Bly, dicas valiosas pra um antigo problema meu:

A few techniques for avoiding sexist language:

  • Use plurals. Instead of “the doctor receives a report on his patients,” write, “the doctors receive reports on their patients.”
  • Rewrite to avoid reference to gender. Instead of “the manager called a meeting of his staff,” write, “the manager called a staff meeting.”
  • Alternate gender references. In the past, I used his and he throughout my copy. Now, I alternate he with she and his with her.
  • Use “he and she” and “his and her.” This works in simple sentences. But it can become cumbersome in such sentences as, “When he or she punches his or her time-card, he or she is automatically switched to his or her overtime pay rate.” When you use he and she and his and her, alternate these with she and he and her and his.
    Do not use the awkward constructions he/she or his/her. Instead, write “he or she” or “his or her.”
  • Create an imaginary person to establish gender. For example, “Let’s say Doris Franklin is working overtime. When she punches her time-card, she is automatically switched to her overtime pay rate.”

E uma listinha utilíssima (com várias novidades pra mim):

Sexist term
anchorman
advertising man
chairman
cleaning woman
Englishmen
fireman
foreman
a man who
man the exhibit
man of letters
mankind
manpower
man-made
man-hours
Miss, Mrs
newsman, newspaper man
postman
policeman
salesman
self-made man
stewardess
weatherman
workman

Nonsexist Substitute
anchor
advertising professional
chairperson
domestic
the English
firefighter
supervisor
someone who
run the exhibit
writer
humanity
personnel, staff
artificial, manufactured
work hours
Ms.
reporter
mail carrier
police officer
salesperson
self-made person
flight attendant
meteorologist
worker

(“The Copywriter’s Handbook “)





Religião e/na esfera pública (Meyer and Moors, 2006)

18 11 2007

Trecho da introdução do livro Religion, Media, And the Public Sphere de Birgit Meyer e Annelies Moors.

Religião e/na esfera pública

Meyer usa como modelo inicial, o conceito de esfera pública concebido por Habermas. Esta definição – apesar de criticada – auxilia a compreensão da maneira como novas condições em que o eu e as comunidades são imaginadas, assim como a política de identidade que tais imaginações geram. Estes debates mostram a importância da mídia em facilitar novas políticas de pertencimento, que, frequentemente, são separadas da nação-estado.

Um trecho do texto original (seguido da tradução):

Habermas saw the emergence of the public sphere and the public decline of religion as dependent on each other. He regarded religion as privatized, stating that religious convictions emerge in public debate only as opinions and thus have to engage with other (non-religiously informed) opinions in line with agreed-upon, rational discursive rules. Although “secularization theory” has come in for severe criticisms, the decline of religion in the public sphere continues to be largely taken for granted as an intrinsic feature of modernity in public debate and in the media. Conversely, if religion assumes a marked public role, this is taken to be a sign of the society’s backwardness or at least the backward orientation of the religious movement in question. This perspective on the public sphere as a secular space is intrinsic to a modernist attitude toward society. Such a view was mobilized in the colonial era to legitimize the alleged necessity of the colonial state to control and contain religion, above all Islam. The mobilization of public opinion against “religious fanaticism” in the wake of the events of 9/11 is also reminiscent of this stance. Called upon in contemporary debates about the (un)desirability of a public role of religion (Islam, in particular) in the name of the Enlightenment, this perspective is too ideological and normative to be of help in comprehending the changing role of religion and the contests to which this gives rise. In this sense the secular stance engenders a political position that demands as much of scholars’ attention as the religious positions critiqued by secularists.

Habermas entendia o surgimento da esfera pública e o declínio público da religião como mutuamente dependentes. Ele via a religião como algo privado e afirmou que convicções religiosas aparecem no debate público apenas como opiniões. Portanto, elas têm de travar discussões com outras opiniões (de caráter não-religioso) que estão em linha com normas de discurso racionais e já estabelecidas. Embora a “teoria da secularização” tenha recebido severas críticas, o declínio da religião na esfera pública continua a ser tomado, largamente, por um aspecto intrínseco à modernidade no debate público e na mídia. De modo contrário, se a religião assume um papel marcadamente público, isto é visto como um sinal de retrocesso, ou, pelo menos, como orientação retrógrada do movimento religioso em questão. Esta perspectiva de esfera pública como espaço secular é intrínseca à uma atitude modernista para com a sociedade. Tal visão foi mobilizada no período colonial para que se legitimasse a suposta necessidade do estado colonial de controlar e conter a religião, principalmente o islamismo. A mobilização da opinião pública contra o “fanatismo religioso” depois de 11 de setembro é uma reminiscência de tal postura. Invocada em debates contemporâneos sobre a (in)conveniência do papel público da religião (especialmente do islamismo) em nome do Iluminismo, tal perspectiva é por demais ideológica e normativa para ser considerada útil na compreensão da mudança do papel da religião e das disputas que esta tem ocasionado. Neste sentido, a postura secular gera um posicionamento político que exige a mesma atenção que estudiosos têm dispensado às posições religiosas criticadas pelos secularistas.

E exatamente como os pesquisadores têm visto o surgimento do chamado fundamentalismo muçulmano, hindu e cristão? Manuel Castells (1999) sugere que este é uma resposta direta aos processos de globalização e à proliferação da mídia de massas, uma reação defensiva contra as inseguranças de um mundo grande demais para ser controlado. É uma tentativa de fazê-lo encolher de volta a um tamanho administrável.

Eickelman e Anderson (1999) pensam diferente. Para eles, é exatamente a proliferação da mídia eletrônica que facilita o surgimento de um novo público muçulmano capaz de desafiar tanto o estado quanto as autoridades religiosas convencionais. É uma globalização surgida de baixo, que resulta em relações transnacionais.

É um erro relegar a presença pública da religião – que não se restringe aos grupos fundamentalistas – à uma realidade não-globalizada. Então, não funciona tachar o aparecimento de formas religiosas como sendo simplesmente o “retorno dos reprimidos”, um fenômeno que resultaria da inabilidade do estado em conter a religião. Religião pública não resulta de um passado pré-moderno, algo que deveria ser confinado à esfera privada. Pelo contrário, religiões tendem a se rearticular com a globalização.

Mas a esfera pública não deve ser vista como uma noção universal que surge prontamente em escala global quando certas condições são preenchidas. Ao invés disso, deve-se ter um mente que a articulação da religião na esfera pública desestabiliza a narrativa de modernidade – definida pelo declínio do papel público da religião – forçando-nos a pensar criticamente a conexão entre religião e mídia no que tange às políticas transnacionais e à nação-estado moderna.

Então a definição de esfera pública que Meyer adota é bem ampla: um espaço que surge num grupo de sociedades pós-coloniais em conjunto com uma certa medida de liberalidade política e de comercialização. Estes processos acontecem paralelamente ao declínio do poder do estado de exercer controle sobre a mídia, de determinar um lugar para a religião na esfera privada, e de governar a produção de identidade.





Schwartz sobre tradução literária

13 11 2007

Artigo do tradutor Ros Schwartz sobre tradução literária. Muita coisa que a gente já sabe: uma tradução é uma leitura do texto original e a idéia de transparéncia em tradução é utopia.

Literary translation is about endless choices, weighing up whether to privilege meaning over music, rhythm over rules of grammar, the spirit rather than the letter of the text. The translator is simultaneously reader and writer.

Ele enxerga o trabalho traduzido como uma criação em separado.

In my view, it is important to recognise that a translated work is a separate creation, and that to serve our authors well we must produce a translation that reflects the spirit and intentions of the original while having its own distinctive and coherent “voice.” It should evoke a similar response in the reader to that of the reader of the original work, although the means of achieving this may be different. Especially when it comes to poetry.

O que é uma boa tradução? Segundo ele, não dá pra avaliar se não se sabe a língua original. E como a maioria das discussões críticas não faz referência à qualidade da tradução, de repente a conversa pode estar toda centrada num livro completamente diferente do original.

E na tentativa de fazer uma tradução “redondinha”, o tradutor distorce o texto:

Often, what is termed a “good” translation is one that reads like a piece of seamless English. A “bad” translation is somehow bumpy, or difficult. There’s a fine line between making foreign authors accessible to English-speaking readers and making them sound like English writers. Their rhythms and patterns, their “foreignness” is what makes them interesting. Salman Rushdie wrote: “To unlock a culture you need to understand its untranslatable words,” and that is why he uses a lot of Urdu words in his novels. Publishers and copy-editors do not always agree, and sometimes try to pressure the translator into bowing to what they think readers can cope with and ironing out all the “foreignness.” But if we flatten the text to keep the copy-editor happy, we are, in a way, “colonising” the writer. And this is an ethical problem for translators which calls for vigilance.

I believe translators need to be more explicit about what they do, even writing a foreword or an afterword, to let the reader know how their intervention influences the text. This goes against the grain here in the UK, where one of the great publishing myths is that the public is reluctant to buy foreign authors so it is better not to draw their attention to the fact that a work is a translation.

Eu acho que isso está mudando um pouco. Principalmente com as novas traduções a clássicos como Don Quixote e Guerra e Paz.

E ele conclui com uma citação de Nicholas de Lange, fazendo outra comparação entre música e literatura:

People don’t say that there’s a right way or a wrong way to perform a Tchaikovsky symphony. There may be unsuccessful versions of it, but on the whole the good orchestras produce good but totally distinctive renderings. Every soloist performs in a particular, personal way, and that performance is signed by the performer. People will go to a record shop ask for a recording by a specific artist . . . I wonder if there’ll ever be a day when customers go into a bookshop and say they’d like something translated by a particular translator. That responsibility of the performing musician is analogous to the way I see the responsibility of the translator. The translator is giving a personal interpretation, a personal rendition. The text as it exists on the page in the original language is like a musical score, and it’s like the musical score also because it’s locked up, because the English readers don’t have access to it, just as only the few people that can actually read music and hear it in their heads can read the score. It needs to be performed. So it’s there in a potential, and the performance is going to be totally unique and distinctive.

Mas ainda vai levar algum tempo pra que virtuosos da tradução para o português sejam contratados para tais performances. E não é porque não há virtuosos. É que eles precisam comer.





música demais

11 11 2007

Não tem hora que você se enche de tanta música?

Tem quem, como Nabokov, deteste música em geral: “Music, I regret to say, affects me merely as an arbitrary succession of more or less irritating sounds (…) The concert piano and all wind instruments bore me in smaller doses and flay me in larger ones”.

Eu fico mais com a opinião de Fran Lebowitz, que já não é tão radical. Ela está de saco cheio de ouvir música em lugares que ela acha que não tem nada a ver. Quem não está?
O texto abaixo (em azul) é sobre isso. A tradução é minha (achei que seria mais fácil, mas o texto é chatinho). O texto original em inglês (com a tradução) está aqui em pdf.

O som da música: Já Deu
Fran Lebowitz

Em primeiro lugar, quero dizer que, no que me diz respeito, em situações em que pessoalmente e de maneira intencional eu não pedi por ela, a única diferença entre música e Muzak é a ortografia. Pablo Casals ensaiando no corredor ou eu presa num elevador, de cujo teto sai “Parsley, Sage, Rosemary, and Thyme”: pra mim é tudo a mesma coisa. Palavras duras? Talvez. Mas não são dias afáveis estes que estamos vivendo. E eles se tornaram cada vez menos afáveis por conta desta incessante melodia que já foi, um dia, a vida real.

Houve uma época em que a música sabia seu lugar. Hoje, não mais. Talvez não seja culpa dela. Pode ser que ela tenha desandado por causa das más companhias e perdido completamente qualquer senso de decência pública. Estou disposta a levar isso em consideração. Estou disposta até a tentar ajudar. Eu gostaria de fazer a minha parte para endireitá-la, de modo que ela tome jeito e deixe de ocupar este lugar central na sociedade. A primeira coisa que a música precisa entender é que há dois tipos de música: boa música e música ruim. Boa música é a que eu quero ouvir. Música ruim é a que eu não quero ouvir.

Para que a música possa, mais claramente, reconhecer seus erros, eu sugiro o que vem logo abaixo. Se você é música e consegue se enxergar nessa lista, você é música ruim.

1. Música no Rádio-relógio dos Outros

Às vezes, eu passo a noite na casa de uma outra pessoa. Com freqüência, essa pessoa se encontra num ramo de trabalho mais razoável que eu e precisa acordar numa determinada hora. Muitas vezes, sem que eu saiba, a pessoa programa um aparelho de modo que eu acabo sendo acordada pelo Stevie Wonder. Quando isso acontece, eu aviso que se eu quisesse ser acordada pelo Stevie Wonder, eu dormiria com ele. Mas eu não quero ser acordada por ele, e é por isso que Deus inventou os despertadores. Algumas vezes, a pessoa se dá conta de que eu estou certa. Outras vezes não. E é por isso que Deus inventou muitas outras pessoas.

2. Música que Mora nas Teclas de Espera dos Telefones Comerciais de Outras Pessoas

Eu não gosto, de jeito nenhum, de teclas de espera. Mas sou uma mulher de bom senso. Consigo aceitar a realidade; consigo encarar os fatos. O que eu não consigo encarar é música. Assim como há dois tipos de música – boa e ruim, – também há dois tipos de tecla de espera: boa e ruim. Uma boa tecla de espera é aquela que te faz esperar em silêncio. Uma tecla de espera ruim te faz esperar com música. Quando eu espero, quero esperar em silêncio. É assim que deve ser porque é disso que Deus estava falando quando ele disse: “cale-se para sempre”. Ele teria acrescentado “em silêncio”, mas achou que você era mais esperto.

3. Música nas Ruas

Nos últimos anos houve um crescimento constante de pessoas tocando música nas ruas. Nestes últimos anos também houve um crescimento no número de doenças malignas. Há alguma relação entre estes dois fatos? É de se perguntar. Mas mesmo que não haja – e, como eu disse, não dá pra saber com certeza, – a música nas ruas, sem sombra de dúvida, já causou estragos. Porque ela, no mínimo, causa confusão. Quando alguém caminha pela Quinta Avenida, não espera ouvir um quarteto de cordas tocando uma valsa de Strauss. O que alguém andando pela Quinta Avenida espera ouvir é o som do tráfego. Quando, ao andar pela Quinta Avenida, uma pessoa ouve, na verdade, um quarteto de cordas tocando uma valsa de Strauss, poderá ficar confusa e imaginar que não está andando pela Quinta Avenida e sim que acabou indo parar na Viena antiga. Alguém que imagina que está na Viena antiga vai ficar chateado ao perceber que lá não tem liquidação na Charles Jourdan. É por isso que quando eu ando pela Quinta Avenida, eu quero ouvir é o som do tráfego.

4. Música em Lugares Públicos como Restaurantes, Supermercados, Saguões de Hotel, Aeroportos, Etc.

Quando estou em qualquer um dos lugares mencionados acima, não estou lá pra ouvir música. Estou lá pelo motivo apropriado ao respectivo lugar. Enquanto espero pela condução pra Boston, estou tão interessada em ouvir “Mack the Knife”, quanto alguém sentado na primeira fila do Sands Hotel está interessado em ser forçado a escolher entre 16 variedades de queijo cottage. Se Deus quisesse que as coisas acontecessem todas ao mesmo tempo não teria inventado o calendário de mesa.

Epílogo

Algumas pessoas falam sozinhas. Algumas cantam sozinhas. Um grupo é melhor do que o outro? Deus não criou todas as pessoas iguais? Sim, Deus criou todas as pessoas iguais. Mas pra algumas, ele deu a capacidade de falar usando as próprias palavras.





cotejando Harry Potter

8 11 2007

Cotejo é um exercício importante para quem traduz. Mas minha dificuldade aqui é que não tenho acesso a muitos livros traduzidos para o português. A biblioteca está cheia de traduções para o inglês de obras brasileiras e portuguesas. E é um outro tipo de exercício cotejar tais textos.

Mas eu queria mesmo era estudar uma tradução do inglês para o português e seu original. Seria melhor ainda se eu pudesse ter acesso a duas versões de tradução. E seria perfeito se uma tradução fosse bem melhor que a outra – isso me permitiria comparar as soluções de um tradutor mais experiente e de alguém que está começando.

O sétimo livro da série Harry Potter de J. K Rowling “Harry Potter e as Relíquias da Morte” preenche todas essas condições. A Máfia do Livro fez uma tradução – ouvi falar que em quatro dias – do livro e colocou na rede pra quem não queria esperar a tradução oficial de Lya Wyler. A Máfia – também ouvi falar – é um grupo de adolescentes que se organizou pra fazer a tradução.

Fiz um pdf com o original e as traduções do primeiro parágrafo. Dê uma olhada e veja o que você acha.

Uma coisa eu digo: minha adolescência foi bem diferente da desses garotos (nem internet tinha, pra começo de conversa). O projeto todo envolveu uma organização respeitável.

Vou dar uma olhada em outros capítulos: ouvi falar que o livro foi dividido entre os vários tradutores.

Pensei em pedir à biblioteca daqui a tradução para o português europeu de Isabel Fraga. Mas deixei pra lá. É muito Harry Potter pra uma pessoa só.





Pevear e a nova tradução de “Guerra e Paz”

4 11 2007

Uma nova tradução de Guerra e Paz foi lançada recentemente e o tradutor Richard Pevear, que trabalhou em conjunto com Larissa Volokhonsky nessa última versão, escreveu sobre a experiência neste texto do New York Times chamado “Tolstoy’s Transparent Sounds”.

Uma experiência de trabalho coletivo em tradução literária já chama a atenção por si só:

my collaboration with Larissa is so close that the two of us make up one translator who has the luck to be a native speaker of two languages. We work separately at first. Larissa produces a complete draft, following the original almost word by word, with many marginal comments and observations. From that, plus the original Russian, I make my own complete draft. Then we work closely together to arrive at a third draft, on which we make our “final” revisions.

Achei interessante também o elemento de sorte que acaba entrando em cada grande tradução (quando ele fala sobre o dilema de escolher entre dois termos de culinária).

Finalmente, ele fala das dificuldades e das características do texto, mostrando uma perspectiva que não está disponível para nós que não falamos russo (sempre quis aprender).

Tolstoy’s prose is a rich, fluid, multivoiced artistic medium. In “War and Peace,” there is a war between the French and Russian languages that mirrors the war between the French and Russian Armies. His play with French and with the Petersburg aristocracy’s Gallicized Russian is a major element of social satire in the novel’s composition, allowing him the sort of linguistic infiltrations later found in Joyce and Nabokov. This adds a dimension to the novel that English readers don’t suspect is there, because previous English translations have eliminated it. But this precocious modernism is never wordplay for its own sake. It is always moved by passion.

Eu sinceramente não consigo ver como um leitor da tradução em inglês poderia perceber essa guerra entre as duas línguas. Por melhor que seja a tradução. Mas fiquei curiosa e já sei que quando for ler esse livro, vai ser essa a tradução.

Enfim, a escolha da tradução de um clássico – se há opções – é crucial. Uma tradução pode mesmo arruinar a experiência toda. E eu estava pensando nas opções em português e na data da última tradução desse livro do Tolstoy. Não tenho a menor idéia de quem traduziu e como ficou. Mas tenho preferido as versões mais novas de certas traduções às versões antigas em português. Fiz isso com Dom Quixote, que preferi ler em inglês mesmo. E estou gostando.

Ah, esse artigo do Pevear inaugura uma série de discussões no NYT sobre essa obra. Está tudo lá no blog do site. Os artigos são escritos por autores e críticos e a conversa está muito boa. Eles têm falado bastante sobre a tradução. Prometo voltar ao assunto.





Chekhov on Salomon

1 11 2007

Ontem estava lendo os cadernos de Chekhov, uma espécie de blog do autor. Dei com isto:

Solomon: Oh! how dark is life! No night, when I was a child, o terrified me by its darkness as does my invisible existence. Lord, to David my father thou gavest only the gift of harmonizing words and sounds, to sing and praise thee on strings, to lament sweetly, to make people weep or admire beauty; but why hast thou given me a meditative, sleepless, hungry mind? Like an insect born of the dust, I hide in arkness; and in fear and despair, all shaking and shivering, I see and hear in everything an invisible mystery. Why this morning? Why does the sun come out from behind the temple and gild the palm tree? Why this beauty of women? Where does the bird hurry, what is the meaning of its flight, if it and its young and the place to which it hastens will, like myself, turn to dust? It were better I had never been born or were a stone, to which God has given neither eyes nor thoughts. In order to tire out my body by nightfall, all day yesterday, like a mere workman I carried marble to the temple; but now the night has come and I cannot sleep … I’ll go and lie down. Phorses told me that if one imagines a flock of sheep running and fixes one’s attention upon it, the mind gets confused and one falls asleep, I’ll do it …

Solomon made a great mistake when he asked for wisdom.

Nunca tinha visto a coisa por esse lado. Talvez a vida dele tenha mesmo virado um inferno. De qualquer modo, o que vai acima bate com o que ele escreveu:

And further, by these, my son, be admonished: of making many books there is no end; and much study is a weariness of the flesh. (Ecclesiastes 12:12)

Em português, sempre li “enfado da carne” como tédio.

Além disso, filho meu, sê avisado. De fazer muitos livros não há fim; e o muito estudar é enfado da carne.

Mas não é exatamente de tédio que ele está falando, é?








Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.