Euclides contra o ponto final

14 10 2007

Estava procurando outra coisa hoje de manhã e dei com uns textos que Euclides da Cunha escrevia para o jornal. Olha o tamanho das frases:

Há poucos dias se expandiu lírica e dolorosamente a sentimentalidade geral; não criminosa e bárbara se erguera crispada sobre a fronte silente do Cristo; o telégrafo, vibrando eletricamente a comoção geral, transmitira aos mínimos recantos do mundo o espantoso crime; agitou-se no túmulo a carcaça desguarnecida de Torquemada; os réus confessos de ateísmo fizeram-se Madalenas soluçantes e trocaram, por momentos, os altos coturnos pretensiosos pelas sandálias humílimas dos penitentes; fez-se precisa a reparação, e a reparação se fez — amplamente — com as tochas, convictamente vibradas, nas costas de meia dúzia de infiéis rebeldes; e no meio de tudo isto, nós, ou tivemos uma ironia esfaceladora, farpeando, despiedada, aos crentes de última hora, capazes de pintar bigodes no rosto imaculado de Maria, ou a razão frigidíssima, condenando o fato em si e os seus inquietos exploradores.

Hein?!
Nem se estresse tentando entender o que ele diz; está tudo fora de contexto mesmo. Mas se você tiver uma curiosidade incontida de decifrar o texto, veja aqui.

Nessa próxima, nem ponto-e-vírgula ele usou.

De fato, nada pode perturbar com maior intensidade o mais seguro plano de campanha do que esse sistema de guerra que sem exagero de frase se pode denominar — a tática da fuga — na qual, adaptadas de um modo singular ao terreno e invisíveis como misteriosas falanges de duendes, as forças antagonistas irrompem inopinadamente de todas as quebradas, surgem de modo inesperado nas anfractuosidades das serras, nas orlas ou nas clareiras das matas e, fugindo sistematicamente à batalha decisiva, diferenciam e prolongam a luta, numa sucessão ininterrupta de combates rápidos e indecisos.

Onde é que se respira for God’s sake? Meu fôlego só chegou até “quebradas” (teria acabado de qualquer jeito assim que eu topasse com “anfractuosidades”). Outra:

Falamos desapaixonadamente; embora em nosso tirocínio acadêmico nos subordinássemos ao método filosófico do eminente instituidor da Síntese subjetiva, o mais admirável livro do século XIX, e o veneremos como o maior dos mestres; embora reconheçamos na doutrina positiva sólidos elementos para constituir-se a religião do futuro e estejamos certos de que, na grande crise moderna, ela representará papel idêntico ao do Cristianismo na anarquia medieval — não pertencemos à minoria ilustre dos que, com uma abnegação notável, seguem todos os preceitos do novo dogma, através da metafísica dissolvente do nosso meio.

Às vezes ele fazia uma seqüência de frases longas…

Nós mesmos que, para garantia do próprio espírito, invertemos em tudo o que se refere aos acontecimentos atuais, a velha fórmula que regula a aquisição das idéias — isto é, nós que, calculadamente, nos habituamos a pensar antes de sentir, embora assim abroquelados, não sofreamos o ímpeto da primeira onda; comovemo-nos e idealizamos uma tela de Rembrandt — erma de luzes, pavorosa e constritora, aonde em meio da desolação dos descampados um grupo de mártires, sob os olhos silentes das estrelas, pairava, tendo sobre as frontes, latente, uma grande noite, a saudade da pátria…
Não há, de fato, tese de mais fácil e ampla explanação do que esta. Orador, ao galgar a tribuna, começa por ter, naturalmente, todo o auditório a seu lado; vai fazer vibrar a nota sempre altíssona do velho sentimento humano: não precisa dominar, prendendo-as aos liames fulgurantes da dialética, as inteligências — dirige-se aos corações; não precisa elevar o assunto — o próprio assunto eleva-se e eleva-o; não necessita quase defender-se — ninguém o ataca; todos afinal o aplaudem, porque iluminada por tal oratória a tribuna não é uma posição de combate, é sagrada — é um púlpito!
Toda essa eloqüência porém não resiste a uma reflexão medianamente lúcida: fora desta corrente hipnótica, que circula as tribunas, a consciência reassume o seu império inviolável e reage sobre a ebriez das emoções: o tribuno enérgico, vigoroso e brilhante, comove-nos pintando tetricamenteo destino dos homens, tudo isto porém esvai-se ante a lucidez do espírito bastante que nos mostra o destino da pátria.
É forçoso convir; nós não estamos numa quadra tão fácil e feliz que faculte esse desperdício inútil de emoções a esse constante expluir, gongórico e extravagante, de fraudulento lirismo, que invade os jornais e as tribunas; deixemos de uma vez a exploração pecaminosa de todas as dores e de todas as calamidades; batamo-nos à luz dos nossos princípios, adversos embora, sem o acompanhamento obrigado dessas eternas loas de infra; desse constante salmodiar de agruras…

Impressão minha ou ele está criticando o que os outros escrevem?

Agruras, indeed, Euclides.


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One response

22 10 2007
sedmacedo

moça,
seu blog é um tanto legal, parece inteligente, mas este post em que aponta seu entendimento do e. da c. é lamentável. eu nem sou fã do que ele escreve, pra começo de conversa, mas confesso que isso não me impede de admirar a liberdade da escrita dele, em um estilo totalmente particular e fora de qualquer ismo-de-força que a crítica mais tacanha insiste em vesti-lo. infeizmente, a sua leitura não ultrapassa essa esfera, porque está ocupada em vestir o texto de significações e lugares. não sei se o que lhe faltou foi um certo repertório, de leitura, ou os vícios daquele que vc já tem. seja como for, observe que vc comete nos seus comentários aos trechos recortados um erro epistemológico, que quer apreender um efeito semântico naquilo que processa outro protocolo de comunicação literária. vamos estudar um pouco mais, ok?
um abraço.
s.

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