Eça de Queiroz e os adjetivos

25 10 2007

Ontem postei um comentário do Erik Larson dizendo que adjetivos, na maioria dos casos, são um desperdício, que dá pra passar muito bem sem eles.

É claro que eu sei ao que Larson se referia quando esconjurou os ditos-cujos (ele até deu uns exemplos). Ele estava falando de coisas assim:

Ele não conseguia esquecer os lindos olhos azuis e o sorriso franco daquela menina inteligente e determinada.

Há muitos autores que seguem o que diz Larson e simplesmente evitam usar adjetivos (há muitos mais que nem sabem do que ele está falando). Essa sugestão dele não é novidade nenhuma pra quem está preocupado em evitar lugares-comuns. Outros autores preferem usar adjetivos, mas por causa do seu virtuosismo, conseguem fazer isso de uma maneira engenhosa.

E é isso o que eu pude observar enquanto lia Eça de Queiroz ontem. De repente me lembrei do que disse o Larson. Olha só esse trecho (os grifos são meus):

Suspirei, amoroso e moído; e abria os lençóis bocejando — quando distintamente, através do tabique fino, senti um ruído de água despejada numa banheira. Escutei, alvoroçado; e logo nesse silêncio negro e magoado que sempre envolve Jerusalém, me chegou, perceptível, o som leve de uma esponja arremessada na água. Corri, colei a face contra o papel de ramagens azuis. Passos brandos e nus pisavam a esteira que recobria o ladrilho de tijolo; e a água rumorejou, como agitada por um doce braço despido que lhe experimentava o calor. Então, abrasado, fui ouvindo todos os rumores íntimos de um longo, lento, lânguido banho; o espremer da esponja; o fofo esfregar da mão cheia de espuma de sabão; o suspiro lasso e consolado do corpo que se estira sob a carícia da água tépida, tocada de uma gota de perfume… A testa, túmida de sangue, latejava-me; e percorria desesperadamente o tabique, procurando um buraco, uma fenda. Tentei verrumá-lo com a tesoura; as pontas finas quebraram-se na espessura da caliça… Outra vez a água cantou, escoando da esponja; e eu, tremendo todo, julgava ver as gotas vagarosas a escorrer entre o rego desses seios duros e brancos que faziam estalar o vestido de sarja…

Não resisti; descalço, em ceroulas, saí ao corredor adormecido; e cravei à fechadura da sua porta um olho tão esbugalhado, tão ardente — que quase receava feri-la com a devorante chama do seu raio sanguíneo… Enxerguei num círculo de claridade uma toalha caída na esteira, um roupão vermelho, uma nesga do alvo cortinado do seu leito. E assim agachado, com bagas de suor no pescoço, esperava que ela atravessasse, nua e esplêndida, nesse disco escasso de luz, quando senti de repente, por trás, uma porta ranger, um clarão banhar a parede. Era o barbaças, em mangas de camisa, com o seu castiçal na mão! E eu, misérrimo Raposo, não podia escapar. De um lado estava ele, enorme. Do outro, o topo do corredor, maciço.

Vagarosamente, calado, com método, o Hércules pousou a vela no chão, ergueu a sua rude bota de duas solas, e desmantelou-me as ilhargas… Eu rugi: “bruto!” Ele ciciou: “silêncio!” E outra vez, tendo-me ali acercado contra o muro, a sua bota bestial e de bronze me malhou tremendamente quadris, nádegas, canelas, a minha carne toda, bem cuidada e preciosa! Depois, tranquilamente, apanhou o seu castiçal. Então eu, lívido, em ceroulas, disse-lhe com imensa dignidade:

— Sabe o que lhe vale, seu bife? É estarmos aqui ao pé do túmulo do Senhor e eu não querer dar escândalos por causa da minha tia… Mas se estivéssemos em Lisboa, fora de portas, num sítio que eu cá sei, comia-lhe os fígados! Nem você sabe de que se livrou. Vá com esta; comia-lhe os fígados!

E muito digno, coxeando, voltei ao quarto a fazer pacientes fricções de arnica. Assim eu passei a minha primeira noite em Sião.

Um recurso de Eça de Queiroz é colocar lado a lado dois adjetivos que descrevem aspectos tão diferentes da coisa descrita que o contraste salta aos olhos. O leitor lê “amoroso” e se surpreende com “moído” – o que é que um tem a ver com o outro? “Negro” já é um jeito peculiar de descrever o silêncio; “magoado”, então, remete o leitor diretamente ao estado de espírito de Teodorico. A justaposição dessas palavras tão diferentes faz com que o leitor preste atenção nas duas qualificações. O efeito seria outro se ele deparasse com “silêncio negro e perturbador”, por exemplo.

A técnica é bem simples, mas muito eficiente: à qualidade do objeto, o autor acrescenta uma qualidade do agente. O olho é, de fato, esbugalhado; “ardente”, no entanto, é o modo como o narrador se sente diante da expectativa de ver a nudez da mulher. Da mesma maneira, o barbaças é quem é rude e bestial, não suas botas; “paciente” é a ação de Teodorico e não as “fricções”.

Nem tudo é descrito desse jeito. Eça de Queiroz sabia que todo excesso implica em algum tipo de perda. Eça também usa combinações simples de adjetivos e substantivos, mas intercaladas com combinações do tipo que eu citei acima. O efeito é impressionante pois o leitor nem se entedia com “som leve”, “doce braço” e “rumores íntimos”, “devorante chama”, “imensa dignidade”. Aqui é que entra um aspecto que Larson não reforçou: não é que adjetivos são imprestáveis. Eles simplesmente não funcionam se usados sempre da forma como estamos acostumados a vê-los.

Agora esquece tudo isso e releia a passagem. Não é uma beleza esse trecho?


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