viciado em livros

30 10 2007

Encontrei aqui, o decálogo do leitor, escrito por Alberto Mussa. Olha só o primeiro item:

Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.

Parece que Alberto Mussa está tentando te dar um conselho útil. Minha experiência, entretanto, me diz que as coisas não são exatamente como ele diz. E esta que vos fala é um exemplo de severa dependência da palavra impressa. Tudo bem que até me senti vingada porque, de fato, ele mostra o rato de biblioteca, e eu sou um, como alguém que possui algo precioso que os pobres mortais – que, coitados, lêem só por obrigação – não têm. “Olha só, até me esqueço de comer, passo a noite lendo, não quero nem ir trabalhar”. Lindo. Pena que não é bem assim. Ler é, boa parte do tempo, um fardo.

Mesmo sendo apaixonada por livros, tem horas que ler é uma briga feia. E meu argumento nesse artigo é que tem que ser assim mesmo: ler é ir às vias de fato com o autor ou, pior, com você mesmo.

Mesmo que você seja o tipo que não pode passar um dia sem abrir um livro, tem umas coisas que você detesta ler. Coisas boas, das quais todo mundo gosta. Mas você não suporta. E continua lendo aqueles livros que te deixam alegrinho. Queria te dizer que na maioria das vezes que insisti em ler um livro que achava que não gostava, acabei me apaixonando pelo texto. Olho pra trás e penso: “Ignorante você! Como podia não gostar disso?” Porque era novo, diferente, difícil de entender.

Outro exemplo de uma leitura não muito prazerosa é quando você encara um livro para o qual ainda não está pronto. Então o livro é chato porque você é chato in the first place. E o único jeito de deixar de ser chato e ficar pronto é meter a cara, começar a ler e continuar a virar cada página, tentando entender o que diz o autor.

E aquele livro que dá um cansaço ler? Já pegou um livro assim? Cada parágrafo te deixa esgotado. Você termina um parágrafo e titubeia antes de iniciar o outro. Vai na geladeira pegar um suco antes. Avança a passos lentíssimos. Quer correr pra sair logo daquele sofrimento, mas o autor não deixa. “Senta aí e escuta o que eu tenho pra te falar!”, ele diz. O cérebro não quer seguir aquele caminho.

Pra que insistir? pergunta você. Pra sair desse seu mundo limitado, eu responderia. Pra entrar dentro da cabeça de alguém que vê o mundo de um jeito diferente e que tem uma interpretação dos fatos melhor que a sua. Ou pra conhecer só os fatos e aprender a interpretá-los por conta própria.

Seja como for, um livro é como um seqüestro. O autor te amordaça, te amarra e te joga no banco de trás do carro. Daí diz: “Agora cala a boca que agora a gente vai dar uma volta. Vou te levar pra passear por um lugar onde você jamais iria sozinho”. Você esperneia e diz: “mas eu não concordo!” O autor nem te escuta. Continua dirigindo por aquelas ruas escuras. Você só fica se perguntando onde e como isso vai acabar.

Isso parece com “ampliar a compreensão do mundo, permitir a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimorar a capacidade de expressão, reduzir os batimentos cardíacos, diminuir a ansiedade, aumentar a libido”? Pra mim não parece isso, não. Parece, sim, muito desconfortável. Com freqüência, é uma experiência dolorosa.

Só não se esqueça que está em suas mãos acabar com esse seqüestro. Se você fechar o livro, o autor te devolve em casa, e sem nenhum arranhão. De fato, é o que a maioria escolhe. Alguns poucos, porém, decidem ou se submeter ao raptor ou brigar com ele: “Idiota, não pode ser assim do jeito que você está falando porque aquele outro autor que me seqüestrou ano passado provou que seu argumento é furado. Você está me dizendo exatamente o que eu falei pra ele”.

Outra fonte de frustração para o viciado em livros – que o Mussa também não te contou – é, por exemplo, aquele autor que escreve tão bem, mas tão bem, que deixa a gente deprimido. Ficamos verdes de inveja e juramos que jamais vamos pôr nada no papel. Lemos e nos mordemos de raiva: “Mmff… grrr.. por que não fui eu que escrevi isso?”

Isso quando não é a própria história que te dá nos nervos. Você se sente manipulado. Enganado. Com maestria, mas, ainda assim, passado pra trás. “Quando é que esse sofrimento vai acabar?” E o autor enterra a faca mais um pouco.

Cadê as “finalidades práticas”? Você termina o livro e o mundo está mais confuso. Você não vê nada de objetivo no que leu; pelo contrário, você pensa no texto e se sente tão capaz e verboso quanto uma porta. Seu coração está acelerado; você está suando frio. Ou a história te deixou deprimido e você está esgotado fisicamente de tão ansioso que ficou pra saber o desfecho. E sexo é a ultima coisa que você quer pensar agora. Aliás, sua namorada te largou porque não agüenta mais ouvir você falar das coisas que anda lendo. Isso mesmo, Mussa esqueceu de te falar também que livros fazem muito mal à sua vida social.

Mas vamos dizer que você não tem esse vício e, depois do que leu, acha que sua vida está vazia sem essa dependência infernal. Go figure, há gosto pra tudo. Infelizmente, e isso Mussa também deixou de lado, vícios não aparecem porque alguém simplesmente disse: “A partir de agora, você não vai mais passar um dia sem ler. Vai ser que nem tomar café: se você não ler, vai ficar num mau-humor danado”.

Acontece que a primeira tragada do cigarro não é agradável; o primeiro gole de cerveja é amargo. O início da sua vida de leitor ávido é difícil: você não conhece as palavras, fica com sono, olha pra televisão que fica te chamando. E essa porcaria não tem nem uma figura. Melhor ler blog ou revista, que são cheios de fotos e diagramas pra ajudar a entender.

Não, ler nem sempre é uma atividade prazerosa. É, na maioria das vezes, uma desgraça.

Mas você não quer saber e quer ficar viciado. Então minha sugestão é que você insista até que a leitura deixe de ter esse gosto tão amargo. E depois que você se acostumar e a coisa toda ficar um pouco menos intragável, alguns livros ainda vão parecer impossíveis. Não fuja deles. Não busque apenas o que é doce e fácil de digerir. Leia também coisas que você detesta. Não espere que ler um livro seja sempre uma experiência agradável. Algumas vezes vai ser uma brisa. Mas outras, não será, não. Seja teimoso.

Além disso, como todo viciado que se preze, você vai precisar de drogas mais pesadas e em doses cada vez maiores. Sim, sim. Estou te convidando para se tornar um miserável.

Ignorance is bliss.


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