os neo-ateístas e a sua linguagem

31 10 2007

Eu li metade do livro de Hitchens God is not Great e não consegui terminar. O que mais me incomodou foi o tom de voz do autor, de uma arrogância impressionante. Ele até te convence de algumas coisas e enche o livro de exemplos que provam que, por causa da religião, as pessoas fazem coisas horríveis. Mas é desagradável – seja você um crente ou não (crente aqui não é o evangélico, mas o crente em algum tipo de deus) – ser tachado de idiota a cada página pela sua simpatia à alguma tradição religiosa.

Este texto do Theodore Dalrymple What the New Atheists Don’t See é uma crítica ao neo-ateísmo, um movimento cuja força pode ser vista através da enxurrada de livros que apareceu recentemente no mercado contestando a noção de Deus e, ao mesmo tempo, condenando religiões de todos os tipos.

Dalrymple mostra como é difícil para a humanidade se livrar da idéia de Deus. Ele não se aprofunda nas críticas aos livros, mas argumenta, de modo convincente e elegante, que a religião é a grande responsável por uma visão mais digna do ser humano na Terra.

O puxão de orelha do autor nos neo-ateus torna-se mais significativo pelo fato de Dalrymple ser ateu também. E foi isso que me agradou no texto: ele consegue se concentrar na análise do discurso desses autores, sem entrar nos méritos dos argumentos. Sim, porque, nenhum dos dois lados pode, ainda, dar a última palavra sobre esse assunto.

A primeira crítica de Dalrymple é precisamente a linguagem que tais autores usam para abordar o assunto: empregam um vocabulário religioso para criticar religiões. Para ele, isso é mais que um vício; é prova de que eles não conseguem se livrar de uma “fé metafísica” (mesmo que o objeto dessa fé seja a evolução). Eu entendi o argumento de Dalrymple, mas acho que ele está ignorando o fato de que empregar essa linguagem é uma estratégia efetiva para atingir o coração dos fiéis.

Mas, de qualquer forma, ele tocou num ponto crucial: o debate sobre a existência de Deus não é tão importante quanto o modo como ele acontece. E quando se leva isso em consideração, os ateístas erram, nas palavras de Dalrymple, porque agem como adolescentes incitados por mudanças hormonais, furiosos porque de repente descobriram que seus pais mentiram.

Ele também critica, nestes livros,

The sloppiness and lack of intellectual scruple, with the assumption of certainty where there is none, combined with adolescent shrillness and intolerance.

Isso, quando não sugerem que violência seja usada para impedir crenças individuais (como faz Sam Harris em The End of Faith):

The link between belief and behavior raises the stakes considerably. Some propositions are so dangerous that it may be ethical to kill people for believing them. This may seem an extraordinary claim, but it merely enunciates an ordinary fact about the world in which we live.

Dalrymple resume a sua crítica ao neo-ateísmo (lembre-se que este é um ateu falando):

The thinness of the new atheism is evident in its approach to our civilization, which until recently was religious to its core. To regret religion is, in fact, to regret our civilization and its monuments, its achievements, and its legacy. And in my own view, the absence of religious faith, provided that such faith is not murderously intolerant, can have a deleterious effect upon human character and personality. If you empty the world of purpose, make it one of brute fact alone, you empty it (for many people, at any rate) of reasons for gratitude, and a sense of gratitude is necessary for both happiness and decency. For what can soon, and all too easily, replace gratitude is a sense of entitlement. Without gratitude, it is hard to appreciate, or be satisfied with, what you have: and life will become an existential shopping spree that no product satisfies.

Dalrymple fecha o artigo citando um tal de Joseph Hall (morto em 1656), que escreveu suas Contemplações sobre as Principais Passagens da História Sagrada. Aí, comparar o que esse religioso escreveu sobre o sentido da vida humana com o que escrevem os neo-ateístas é mesmo covardia. Olhe essa passagem de Hall, onde ele usa um exemplo da natureza para ilustrar um princípio. Está em Upon the Flies Gathering to a Galled Horse:

How these flies swarm to the galled part of this poor beast; and there sit, feeding upon that worst piece of his flesh, not meddling with the other sound parts of his skin! Even thus do malicious tongues of detractors: if a man have any infirmity in his person or actions, that they will be sure to gather unto, and dwell upon; whereas, his commendable parts and well-deservings are passed by, without mention, without regard. It is an envious self-love and base cruelty, that causeth this ill disposition in men: in the mean time, this only they have gained; it must needs be a filthy creature, that feeds upon nothing but corruption.

Alguém poderia argumentar que essa linguagem metafórica não tem lugar num discurso sobre a existência de Deus, que é, em essência, uma questão sobre a existência ou não de fatos.

Mas se esses fatos não podem ser provados, e esses autores não são, de fato, capazes de trazê-los à mesa para serem discutidos, o que sobra é exatamente a linguagem.

E nisso eles são bem ruinzinhos.


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