por que você lê?

30 11 2007

Procurando uma resposta à pergunta “por que lemos?”, este artigo de Matoko Rich cita uma grade verdade: nós geralmente inventamos alguma coisa rebuscada quando alguém nos pergunta por que lemos.

In some cases, asking someone to explain why they read is to invite an elegant rationalization. (…)

So what about those three titles turned him into someone who is crazy for books? “I could create a narrative explaining the creation myth of my reading frenzy,” Mr. Díaz said. “But in some ways it’s just provisional. I feel like it’s a mystery what makes us vulnerable to certain practices and not to others.”

Eu gostei dessa explicação (porque foi o que aconteceu comigo):

“The Uncommon Reader” posits the theory that the right book at the right time can ignite a lifelong habit.

Pelo fato de que no Brasil ler ainda não é hábito, eu sinto que quem é exceção tende a mistificar um pouco o ato de ler (eu faço isso!). Daí a resposta empolada à pergunta simples “por que você lê?”.

Ler é só mais uma coisa que as pessoas fazem.

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lendo desenhos

29 11 2007

De “Thinking with a Pencil” de Henning Nelms.

Those who are accustomed to work with drawings speak of reading them, and they use the term in much the same way that other people do when they speak of reading a printed text. A drawing is said to “read well” when its meaning is clear. Thus, a fashion sketch reads well when it tells the dressmaker everything, except the measurements, that she needs to know in order to make the garment.

Reading a drawing is easier than making one. You can read drawings that you cannot make, but you cannot make a drawing unless you could read it if it were made by someone else. For this reason, learning to make drawings begins by learning to read them.

(…)

Experience in reading unfamiliar varieties of drawing will not only increase your ability to draw but will enlarge your graphic vocabulary.

Achei essa idéia fascinante. Nunca tinha pensado no ato de decifrar um desenho como um tipo de leitura.

E não consegui evitar de traçar um paralelo entre essa maneira de pensar ilustrações e o ato de ouvir música. Ouvir música também é um tipo de leitura, já que a música também tem um vocabulário próprio. Se você se familiariza com este vocabulário, através de um estudo das convenções que regulam o fazer musical, vai ouvir coisas que um ouvido não treinado não concebe perceber e fazer conexões que são acessíveis apenas para um ouvinte “alfabetizado”.

Também para aprender a fazer música é preciso antes aprender a ouvir.





how to avoid sexist language

26 11 2007

De Robert W. Bly, dicas valiosas pra um antigo problema meu:

A few techniques for avoiding sexist language:

  • Use plurals. Instead of “the doctor receives a report on his patients,” write, “the doctors receive reports on their patients.”
  • Rewrite to avoid reference to gender. Instead of “the manager called a meeting of his staff,” write, “the manager called a staff meeting.”
  • Alternate gender references. In the past, I used his and he throughout my copy. Now, I alternate he with she and his with her.
  • Use “he and she” and “his and her.” This works in simple sentences. But it can become cumbersome in such sentences as, “When he or she punches his or her time-card, he or she is automatically switched to his or her overtime pay rate.” When you use he and she and his and her, alternate these with she and he and her and his.
    Do not use the awkward constructions he/she or his/her. Instead, write “he or she” or “his or her.”
  • Create an imaginary person to establish gender. For example, “Let’s say Doris Franklin is working overtime. When she punches her time-card, she is automatically switched to her overtime pay rate.”

E uma listinha utilíssima (com várias novidades pra mim):

Sexist term
anchorman
advertising man
chairman
cleaning woman
Englishmen
fireman
foreman
a man who
man the exhibit
man of letters
mankind
manpower
man-made
man-hours
Miss, Mrs
newsman, newspaper man
postman
policeman
salesman
self-made man
stewardess
weatherman
workman

Nonsexist Substitute
anchor
advertising professional
chairperson
domestic
the English
firefighter
supervisor
someone who
run the exhibit
writer
humanity
personnel, staff
artificial, manufactured
work hours
Ms.
reporter
mail carrier
police officer
salesperson
self-made person
flight attendant
meteorologist
worker

(“The Copywriter’s Handbook “)





um Moleskine

25 11 2007

Estava conversando com uma amiga hoje. Comentei com ela minha empolgação com as cadernetas e cadernos Moleskine. Eles têm um design muito cool e uma história interessante (por exemplo, foram usados por gente como Van Gogh, Picasso e Hemingway) deixa a gente com vontade de enchê-los de desenhos, histórias, idéias, etc. Pelo menos eu fiquei assim.

É uma frescura sim, admito. Não são muito baratos e há modelos (menos famosos que os Moleskine) que “fariam o serviço” por muito menos.

Mas eu fui atrás de um de música e um notebook pautado. Não resisti e acabei comprando um de sketch também.

E olha… eles são mesmo uma delícia.

Minha amiga lembrou que um programa de edição de textos (tipo Word) é tão mais prático que usar um caderno pra anotar as coisas é – pra muita gente – coisa do passado.

Mas será que é mesmo?

Uma diferença crucial entre os dois sistemas é a possibilidade de, no computador, poder voltar atrás e alterar qualquer coisa digitada sem deixar vestígio algum.

Agora imagine um caderno novinho (encadernado de um jeito tão perfeitinho como um Moleskine) e uma caneta-tinteiro. Se essas são suas ferramentas, você vai atacar o texto de outro jeito. Pra não deixar o papel todo rasurado, você vai ter que pensar um pouco mais antes de escrever.

Isto, com certeza, tem conseqüências na maneira como você organiza as idéias para pôr no papel.

Isto pode também abrir portas para novas idéias. Alguns coach-writers sugerem mesmo que se deixe o computador de lado algumas vezes e se use um outro meio pra escrever (como o velho caderno e caneta).

Enfim, eu comprei a idéia de vez. E não estou só nessa. Olhe as coisas incríveis que um Moleskine em branco já inspirou.

Se eu criar coragem, posto algumas fotos da minha “arte” aqui também.

Se você também curte Moleskines, eu adoraria saber.





o artista/intelectual

24 11 2007

Estava lendo “Cidade Partida” de Zuenir Ventura. O capítulo que fala da amizade de alguns bandidos com intelectuais do Rio de Janeiro no final da década de 50 e início da de 60, e o fascínio de artistas pelo banditismo. Alguns como Clarice Lispector e Helio Oiticica chegaram a lhes dedicar obras.

Parêntese: quem tem um artigo – nada fácil de ler – sobre o culto à criminalidade por artistas britânicos é Theodore Dalrymple: “Trash, Violence, and Versace: But Is It Art?”.

Trechos do livro do Ventura:

A morte de Mineirinho sensibilizou a literatura de Clarice Lispector e de José Carlos (Carlinhos) Oliveira. Clarice dedicou-lhe uma sentida crônica na revista Senhor. “Suponho que é em mim […] que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que seus crimes.”
Ela confessa na crônica que os dois primeiros tiros lhe deram alívio e segurança. O terceiro deixou-a alerta, o quarto, desassossegada. O quinto e o sexto a cobriram de vergonha; o sétimo e o oitavo a encheram de horror; no nono e no décimo a boca ficou trêmula; no décimo primeiro, ela chamou por Deus, no décimo segundo, pelo irmão. “O décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”
Carlinhos Oliveira fez-lhe também um comovido necrológio, considerando-o a personificação da rebeldia: “Assaltava bem, matava com perícia, amotinava presidiários e se punha em fuga com extrema facilidade”. O cronista não escondia sua simpatia por um bandido que arriscava a vida “por um ideal” – o de querer “ser livre para ser criminoso, o louco!”.
Aquela execução despertou no cronista sombrias reflexões: “Fico eu agora pensando em inumeráveis adolescentes que amadurecem no mesmo cenário ignominioso que produziu Mineirinho e me pergunto: onde anda agora o espírito de rebeldia? Onde anda agora o espírito que se evolou de Mineirinho? Quem, com os olhos da demência, com o imenso ranger no coração descerá agora do morro para castigar e envergonhar a cidade?”.

(…)

Cara de Cavalo era um bandido chinfrim. Ladrão, não gostava de roubar. Diariamente cumpria uma rotina segura. À tarde, sempre acompanhado de uma das amantes, em geral a titular Lair Dias da Silva, pegava um táxi, sentava-se no banco de trás e percorria os pontos de jogo do bicho de Vila Isabel e arredores. Não saía do carro. Parava, Lair descia e ia recolher o pagamento compulsório do dia. Ele ficava esperando. Manoel Moreira levava a vida que um bandido preguiçoso pedira a Deus: pouco trabalho, muitas mulheres e um dinheiro certo, sem risco.
(…)
Um de seus grandes amigos, o artista plástico Hélio Oiticica, não se conformava com essa representação. “O que me deixava perplexo era o contraste entre o que eu conhecia dele como amigo e a imagem feita pela sociedade.” Um ano depois da sua morte, Oiticica imortalizou-o numa obra-prima: Homenagem a Cara de Cavalo. É um bólide, ou seja, uma caixa envolta por uma tela e cujas paredes internas estão cobertas com quatro reproduções da foto oficial do bandido assassinado: estirado no chão, perfurado de balas, com os braços estendidos em forma de cruz. No fundo da caixa, num saco com pigmentos vermelhos, aparece escrito como numa lápide: “Aqui está e aqui ficará. Contemplai o seu silêncio heróico”.
Fascinado pela marginalidade, passista da Mangueira, companheiro de malandros e bandidos, freqüentador de favelas, Oiticica “foi o maior inventor de arte brasileira, um dos maiores da arte contemporânea em todo o mundo”, segundo o crítico Frederico de Morais. Radical, ele considerava a arte como revolta e essa revolta era, na opinião de Morais, “semelhante à do bandido que rouba e mata, em busca de felicidade, mas também à do revolucionário político”.
(…)
Em 1968, Hélio Oiticica fez outra homenagem a Cara de Cavalo: a bandeira-poema “Seja marginal, seja herói”. Se o bólide foi parar no valioso acervo do colecionador Gilberto Chateaubriand, a bandeira virou emblema do Tropicalismo e estandarte da facção mais radical da geração de 68. Ambas se inscreveram na história da vanguarda artística brasileira.

Mas minha curiosidade sobre o texto do Ventura foi outra. Sempre ouço falar – com freqüência até – da representação “artística” do bandido na música popular. O que me deixou intrigada foi ver isso tão presente em outras artes.

O que me leva a concluir que a música popular, pela projeção que tem – por causa da exposição na mídia e pelo alcance a um público tão diverso – talvez seja a manifestação artística mais prontamente lembrada como articulando coisas que – hipocritamente – talvez preferíssemos ver fora do âmbito das artes: preferências políticas, escolhas ideológicas, preconceitos, defesa (ou crítica) de tradições religiosas, entre outras coisas.

Mas a música popular é uma vitrine (minha idéia de “música popular” aqui é bem abrangente, e estou pensando também em formas como rap). A literatura pode ser “secretamente” revolucionária porque o seu alcance é bem mais limitado. Mas não há como ignorar a música popular. Talvez por isso ela gere reações tão fortes; de alguns que a endossam sem questionar, e de outros que a odeiam – muitas vezes também sem crítica alguma.

E acho mesmo que é essa projeção que leva a alguns a atribuírem a função de “intelectual” a um sujeito que simplesmente escreveu algumas canções. E falam tanto do “discurso social” do sujeito que ele acaba acreditando que seu comentário é uma análise social aprofundada. Emprestando uma expressão usada por um destes mesmos intelectuais/artistas, o que acaba acontecendo é que “quem brinca de princesa, acaba acostumando na fantasia”.

Atribui-se um papel à música popular que ela originalmente não tem e reage-se com surpresa quando ela passa a ser um espaço para a discussão de temas que deveriam circular nos gabinetes do executivo, no congresso e nas universidades.

Culpa-se a música popular por se meter a comentar a realidade brasileira. Mas o problema talvez não esteja nas discussões em si, mas sim na tentativa de atribuir-lhes uma relevância que elas não têm.

É o problema causado pela projeção que a música tem. O sujeito assina embaixo do que diz o artista porque, muitas vezes, é a primeira vez que alguém lhe faz pensar sobre o assunto. Nunca leu nada sobre o problema da violência no Brasil e, de repente, aparece alguém falando, numa linguagem interessante, sobre assunto tão sério. “Ele deve saber o que diz” – conclui-se.

Na maioria das vezes, não sabe, não. Escrever um rap/canção é bem diferente de elaborar sobre os problemas de um país complexo como o Brasil. Essa diferença aparece, por exemplo, quando a imprensa empresta o microfone ao artista/intelectual – numa entrevista, por exemplo. Em tais situações (exemplos aqui e aqui), o intelectual mostra a que veio.

E a gente vê que queria mesmo era ouvir mais do que o artista tem a dizer, e que preferia que o intelectual calasse a boca.





writerisms

22 11 2007

Estas são informações preciosas que C.J. Cherryh coletou para aspirantes a escritores de ficção. Completamente adaptáveis ao português.
Trechos:

If a manuscript looks as if it’s sprouted leaves and branches, if every verb is “unusual,” if the vocabulary is more interesting than the story … fix it by going to more ordinary verbs. There are vocabulary-addicts who will praise your prose for this but not many who can simultaneously admire your verbs as verbs and follow your story, especially if it has content. The car is not a main actor and not one you necessarily need to make into a character. If its action should be more ordinary and transparent, don’t use an odd expression. This is prose.

(…)

With apologies to hard-working English teachers, school English is not fiction English.

Understand that the meticulous English style you labored over in school, including the use of complete sentences and the structure of classic theme-sentence paragraphs, was directed toward the production of non-fiction reports, resumes, and other non-fiction applications.

The first thing you have to do to write fiction? Suspect all the English style you learned in school and violate rules at need. Many of those rules will turn out to apply; many won’t.

(…)
As a general rule, use a major or stand-out vocabulary word only once a paragraph, maybe twice a page, and if truly outre, only once per book. Parallels are clear and proper exceptions to this, and don’t vary your word choice to the point of silliness.





a tirania da escolha

21 11 2007

Harry Eyres fala da perplexidade de ter que escolher um caminho na vida em “Tyranny of choice”. E fala de caminhos que, pelo contrário, acabam nos escolhendo.

Having to choose your life, Ortega argues, is a uniquely human condition. The stone and the tiger have no choice of life: the stone must gravitate and the tiger must pounce. Only human beings are faced with the mind-boggling responsibility of having, at each and every moment of their lives, to choose what to do and what to be. It is, as he puts it, both a necessity and an invitation: the human being feels invited to lend his or her assent to the necessary.

A capacidade/necessidade de fazer escolhas é, sim, uma condição única do homem. Mas boa parte dos seres humanos não tem condições de decidir sobre a própria vida.  E acho que há muitos que preferem que seja assim. Alguém que decide com quem você vai se casar, os pais que te dizem que profissão seguir, o mercado que te diz por qual emprego optar.

Ano passado tive uma disciplina que tratava da escravidão no Brasil. As primeiras aulas foram deprimentes. Mas depois de algumas leituras você descobre os artifícios que os escravos usavam pra poder sobreviver – e às vezes até viver bem – sob um jugo tão pesado. Me lembro de ter ficado pensando: será que não poder decidir sobre a própria vida é tão ruim assim? Afinal, de uma certa forma (e isso é um pouco do que diz  esse artigo) trata-se de um peso a menos a ser carregado na vida.

E será que não é isso o que se busca numa religião? Alguém (um ser mais capaz ou um seu representante aqui na Terra, ou um artifício incerto como jogar os búzios) para nos dizer que caminhos seguir? Talvez esse seja mesmo um dos grandes apelos da religião: a  capacidade de tirar dos próprios ombros a responsabilidade de ter que decidir sobre as mais pequenas coisas da vida.

Sempre olhei com muita suspeita para a frase “a minha religião não permite”. Juro que via algumas vezes uma ponta de alivio da parte de quem dizia isso.

Mas voltando ao que diz – de modo muito simpático – o Harry Eyres.

To be able to choose your path in life, you must have a sense of what attracts you, of something calling you. (…) I believe that to everyone, from outside themselves, comes some kind of calling. It might be the wood or brick or stone that calls the carpenter or the builder; the musical instrument that calls the musician; the experience of the power of healing that calls the doctor.

E ele cita Neruda, que sentia a poesia lhe chamando:

And it was at that age… Poetry arrived/ in search of me… There I was without a face / and it touched me.”
It ends ecstatically: “And I infinitesimal being,/…felt myself a pure part/ of the abyss,/ I wheeled with the stars,/ my heart broke loose on the wind.”

To speak of calling or mission in life in these terms probably sounds quaint, if not downright sinister. We are rightly suspicious of people who announce that they have a mission to save the world, or democracy, especially when that involves sending thousands of others on missions that may prove terminal. But however cynical or postmodern we may have become, it is worth remembering that the idea of a calling or mission could save us from the solipsistic cul-de-sac of “choice”.

Exato, Eyres. A idéia de chamado, de ter que decidir por algo sem que se tenha alternativa é muito mais charming.

Choice, as currently interpreted, sounds like a self-enclosed system. You’re expected to choose, according to your desire, as if that had no bearing on anything outside you. But just stop and listen, and “from a street” you may be summoned, “from the branches of night/ abruptly from the others.”

E se as coisas derem errado, sempre se pode dizer “não foi minha escolha”.