uma entrevista e o problema da falta de nuance

7 11 2007

Olha esses trechos de uma entrevista:

Left-wing illiberalism has been a catastrophe—both in economic and cultural matters—and it betrays what has always been best in left-wing thinking.

Think of Leninists (and, of course, Stalinists) with an infallible doctrine (“the science of society”), organized like a church, purging now and then, persecuting non-believers (whether social democratic or Christian or whatever). I don’t see a whole lot of difference between the mind-set of left-wing sects who believe that the whole world would be set aright if everyone could just grasp properly the entirety of their theories, just put them exactly in place, and the statement in early July by the Pope that Orthodox and Protestant Christianity are not “true” forms of Christianity.

Left-wing illiberalism is not just a matter of some left-over believers of old style Marxist orthodoxies. It also animates important segments of the post-modern left. A prime example of this is Antonio Negri who tells us (together with Michael Hardt, his co-author of Empire) that there is a liberating global “multitude” whose “body” can “configure itself as a telos.” This quasi-religious language—please, save us from it!—is really a post-modern reinvention of tiers-mondisme, a failed left-wing doctrine that provided illusions but not much help for the difficult, painful problems of the Third World. It is no wonder that Negri describes Khomeini’s victory in Iran as “the first postmodernist revolution.”
(…) Negri also needs to be demystified. The American left needs stronger unions that are appropriate to today’s social and economic life—not imaginary multitudes substituting for older Marxist notions of the working class. The same goes globally.
(…)
I am struck at how parts of the extreme left apologize for Islamic extremism in ways reminiscent of how an earlier generation found ways to apologize for Stalinism. The objects excused are different but the patterns of apologetics are sadly similar. It shows that there really is something I once called ‘the left that doesn’t learn.’

Quem falou isso foi Mitchell Cohen, editor da revista americana Dissent, uma publicação de esquerda. O texto é parte de uma entrevista, onde ele discute principalmente a relação entre religião e estado, e entre religião e o pensamento de esquerda.

É claro que estes trechos estão balanceados por críticas ao pensamento de direita. Mas minha pergunta é: dá pra imaginar um esquerdista brasileiro falando isso?

O problema do debate político no Brasil situa-se menos na dicotomia esquerda/direita e nas diferenças entre as duas formas de pensar, e mais nos representantes que cada uma reuniu no Brasil. Os esquerdistas brasileiros me parecem desonestos, desinformados e incapazes de auto-crítica. Os direitistas que eu conheço são intolerantes, verbalmente agressivos e igualmente incapazes de ver os próprios erros.

Mas, na minha opinião, os piores exemplos da incapacidade brasileira em manter um debate inteligente e civilizado sobre assuntos atuais vêm mesmo da esquerda. Como ler coisas como essa aberração publicada pela revista Le Monde Diplomatique e não pensar que a esquerda é idiota e desinformada? (duas coisas particularmente deprimentes sobre esse texto: os comentários, que mostram que essa visão torta é generalizada; e a formação acadêmica dos autores, que deveriam conhecer – e provam que não conhecem – a literatura atual sobre o assunto).

Voltando à entrevista do Cohen…
Confesso que me falta leitura para avaliar tudo o que está no texto (principalmente a visão dele sobre a relação entre a direita americana e o fundamentalismo cristão). Mas com algumas coisas eu definitivamente não concordo.

Tenho um problema, por exemplo, com a defesa que ele faz do humanismo. E me baseio no livro Creating East and West: Renaissance humanists and the Ottoman Turks, de Nancy Bisaha, que li para a disciplina “Music and Islam in Europe” no ano passado.
É um livro fácil de ler (se você pular as mil notas de rodapé). Bisaha passa por vários textos do humanismo renascentista e mostra qual foi o arcabouço intelectual que orientou as ações européias – segundo ela, de intolerância – para com os muçulmanos (principalmente os turcos).

Sim, sim, ela suga muito do livro do Said (que é uma das poucas referências citadas no artigo dos brasileiros), mas baseia os argumentos nos textos humanistas.

Said é importante; tem que ser lido porque inovou na concepção da relação entre o ocidente e o oriente. Mas é uma obra cheia de problemas; não é a bíblia incontestável que o artigo brasileiro faz parecer. Já bateram muito no livro dele: a bibliografia que o critica é enorme (o próprio artigo da Wikipedia aponta alguns dos problemas).

Divaguei. Só queria mostrar como essa divisão esquerda/direita é simplista demais no Brasil. Essa conversa tem muito mais nuances do que os debatedores brasileiros têm sido capazes de pôr na mesa.


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