música demais

11 11 2007

Não tem hora que você se enche de tanta música?

Tem quem, como Nabokov, deteste música em geral: “Music, I regret to say, affects me merely as an arbitrary succession of more or less irritating sounds (…) The concert piano and all wind instruments bore me in smaller doses and flay me in larger ones”.

Eu fico mais com a opinião de Fran Lebowitz, que já não é tão radical. Ela está de saco cheio de ouvir música em lugares que ela acha que não tem nada a ver. Quem não está?
O texto abaixo (em azul) é sobre isso. A tradução é minha (achei que seria mais fácil, mas o texto é chatinho). O texto original em inglês (com a tradução) está aqui em pdf.

O som da música: Já Deu
Fran Lebowitz

Em primeiro lugar, quero dizer que, no que me diz respeito, em situações em que pessoalmente e de maneira intencional eu não pedi por ela, a única diferença entre música e Muzak é a ortografia. Pablo Casals ensaiando no corredor ou eu presa num elevador, de cujo teto sai “Parsley, Sage, Rosemary, and Thyme”: pra mim é tudo a mesma coisa. Palavras duras? Talvez. Mas não são dias afáveis estes que estamos vivendo. E eles se tornaram cada vez menos afáveis por conta desta incessante melodia que já foi, um dia, a vida real.

Houve uma época em que a música sabia seu lugar. Hoje, não mais. Talvez não seja culpa dela. Pode ser que ela tenha desandado por causa das más companhias e perdido completamente qualquer senso de decência pública. Estou disposta a levar isso em consideração. Estou disposta até a tentar ajudar. Eu gostaria de fazer a minha parte para endireitá-la, de modo que ela tome jeito e deixe de ocupar este lugar central na sociedade. A primeira coisa que a música precisa entender é que há dois tipos de música: boa música e música ruim. Boa música é a que eu quero ouvir. Música ruim é a que eu não quero ouvir.

Para que a música possa, mais claramente, reconhecer seus erros, eu sugiro o que vem logo abaixo. Se você é música e consegue se enxergar nessa lista, você é música ruim.

1. Música no Rádio-relógio dos Outros

Às vezes, eu passo a noite na casa de uma outra pessoa. Com freqüência, essa pessoa se encontra num ramo de trabalho mais razoável que eu e precisa acordar numa determinada hora. Muitas vezes, sem que eu saiba, a pessoa programa um aparelho de modo que eu acabo sendo acordada pelo Stevie Wonder. Quando isso acontece, eu aviso que se eu quisesse ser acordada pelo Stevie Wonder, eu dormiria com ele. Mas eu não quero ser acordada por ele, e é por isso que Deus inventou os despertadores. Algumas vezes, a pessoa se dá conta de que eu estou certa. Outras vezes não. E é por isso que Deus inventou muitas outras pessoas.

2. Música que Mora nas Teclas de Espera dos Telefones Comerciais de Outras Pessoas

Eu não gosto, de jeito nenhum, de teclas de espera. Mas sou uma mulher de bom senso. Consigo aceitar a realidade; consigo encarar os fatos. O que eu não consigo encarar é música. Assim como há dois tipos de música – boa e ruim, – também há dois tipos de tecla de espera: boa e ruim. Uma boa tecla de espera é aquela que te faz esperar em silêncio. Uma tecla de espera ruim te faz esperar com música. Quando eu espero, quero esperar em silêncio. É assim que deve ser porque é disso que Deus estava falando quando ele disse: “cale-se para sempre”. Ele teria acrescentado “em silêncio”, mas achou que você era mais esperto.

3. Música nas Ruas

Nos últimos anos houve um crescimento constante de pessoas tocando música nas ruas. Nestes últimos anos também houve um crescimento no número de doenças malignas. Há alguma relação entre estes dois fatos? É de se perguntar. Mas mesmo que não haja – e, como eu disse, não dá pra saber com certeza, – a música nas ruas, sem sombra de dúvida, já causou estragos. Porque ela, no mínimo, causa confusão. Quando alguém caminha pela Quinta Avenida, não espera ouvir um quarteto de cordas tocando uma valsa de Strauss. O que alguém andando pela Quinta Avenida espera ouvir é o som do tráfego. Quando, ao andar pela Quinta Avenida, uma pessoa ouve, na verdade, um quarteto de cordas tocando uma valsa de Strauss, poderá ficar confusa e imaginar que não está andando pela Quinta Avenida e sim que acabou indo parar na Viena antiga. Alguém que imagina que está na Viena antiga vai ficar chateado ao perceber que lá não tem liquidação na Charles Jourdan. É por isso que quando eu ando pela Quinta Avenida, eu quero ouvir é o som do tráfego.

4. Música em Lugares Públicos como Restaurantes, Supermercados, Saguões de Hotel, Aeroportos, Etc.

Quando estou em qualquer um dos lugares mencionados acima, não estou lá pra ouvir música. Estou lá pelo motivo apropriado ao respectivo lugar. Enquanto espero pela condução pra Boston, estou tão interessada em ouvir “Mack the Knife”, quanto alguém sentado na primeira fila do Sands Hotel está interessado em ser forçado a escolher entre 16 variedades de queijo cottage. Se Deus quisesse que as coisas acontecessem todas ao mesmo tempo não teria inventado o calendário de mesa.

Epílogo

Algumas pessoas falam sozinhas. Algumas cantam sozinhas. Um grupo é melhor do que o outro? Deus não criou todas as pessoas iguais? Sim, Deus criou todas as pessoas iguais. Mas pra algumas, ele deu a capacidade de falar usando as próprias palavras.


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