a Reforma e os hábitos de leitura dos primeiros protestantes

15 11 2007

O hábito de ler os textos religiosos não é necessariamente um caminho para a iluminação. Três pesquisadores de Harvard estão sugerindo que a Reforma Protestante não foi exatamente um movimento de liberação na interpretação dos textos sagrados, onde quem era alfabetizado podia ler a bíblia por si só, interpretando-a livremente.

Neste artigo, chamado “Roots of Fundamentalism traced to 16th-century Bible translations“, eles sugerem que leitura não era algo prazeroso para os primeiros protestantes. Para estes pesquisadores, o hábito evangélico de leitura era disciplinatório, punitivo e aviltante.

Evangelicals did not believe that you could be saved through good works, so they looked for signs that the decision had gone their way. Reading became the locus for salvation or damnation. It was an intense experience in which your eternal fate would be decided.

O mais interessante é o modo como ele chegou a tal conclusão: analisando os prefácios das traduções bíblicas entre 1525 e 1547 e outros livros polêmicos. Um exemplo de um prefácio, que era na verdade uma ameaça ao leitor:

If you fail to read it properly, then you begin your just damnation. If you are unresponsive, God will scourge you, and everything will fail you until you are at utter defiance with your flesh.

Para um dos pesquisadores, Simpson, isso mostra como os reformadores repudiavam interpretações individuais.

Reading became a tightrope of terror across an abyss of predestination. It was destructive for evangelicals, because it did not invite freedom but rather fear of misinterpretation and damnation.

Deduzir como eram lidos tais textos por causa simplesmente de prefácios ameaçadores me parece meio suspeito – queria ouvir sobre os outros argumentos e livros. E um aspecto que ele deixou de mencionar é que a própria bíblia está cheia de advertências (às vezes mais que advertências) sobre o cuidado com que deve ser lida.

De qualquer modo, este estudo é interessante e seria curioso comparar esse tipo de leitura à época da reforma com a leitura que os primeiros estudiosos cristão fizeram das escrituras: é impressionante a quantidade de interpretações paralelas e ensinamentos heréticos que floresceu nos primeiros séculos da história da Igreja. Tudo bem que era um grupo seleto que podia ler, ou mesmo ter acesso a tais textos, mas parece que, comparando-se com o que pintam estes pesquisadores, havia mais liberdade.

Outra comparação interessante é ver como lêem os evangélicos nos dias de hoje. O que dizem estes pesquisadores explica um pouco da maneira como a bíblia é lida hoje. Uma coisa é clara: leitura não é sinônimo de esclarecimento (gostei da idéia de “leitura fundamentalista”).


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