a tirania da escolha

21 11 2007

Harry Eyres fala da perplexidade de ter que escolher um caminho na vida em “Tyranny of choice”. E fala de caminhos que, pelo contrário, acabam nos escolhendo.

Having to choose your life, Ortega argues, is a uniquely human condition. The stone and the tiger have no choice of life: the stone must gravitate and the tiger must pounce. Only human beings are faced with the mind-boggling responsibility of having, at each and every moment of their lives, to choose what to do and what to be. It is, as he puts it, both a necessity and an invitation: the human being feels invited to lend his or her assent to the necessary.

A capacidade/necessidade de fazer escolhas é, sim, uma condição única do homem. Mas boa parte dos seres humanos não tem condições de decidir sobre a própria vida.  E acho que há muitos que preferem que seja assim. Alguém que decide com quem você vai se casar, os pais que te dizem que profissão seguir, o mercado que te diz por qual emprego optar.

Ano passado tive uma disciplina que tratava da escravidão no Brasil. As primeiras aulas foram deprimentes. Mas depois de algumas leituras você descobre os artifícios que os escravos usavam pra poder sobreviver – e às vezes até viver bem – sob um jugo tão pesado. Me lembro de ter ficado pensando: será que não poder decidir sobre a própria vida é tão ruim assim? Afinal, de uma certa forma (e isso é um pouco do que diz  esse artigo) trata-se de um peso a menos a ser carregado na vida.

E será que não é isso o que se busca numa religião? Alguém (um ser mais capaz ou um seu representante aqui na Terra, ou um artifício incerto como jogar os búzios) para nos dizer que caminhos seguir? Talvez esse seja mesmo um dos grandes apelos da religião: a  capacidade de tirar dos próprios ombros a responsabilidade de ter que decidir sobre as mais pequenas coisas da vida.

Sempre olhei com muita suspeita para a frase “a minha religião não permite”. Juro que via algumas vezes uma ponta de alivio da parte de quem dizia isso.

Mas voltando ao que diz – de modo muito simpático – o Harry Eyres.

To be able to choose your path in life, you must have a sense of what attracts you, of something calling you. (…) I believe that to everyone, from outside themselves, comes some kind of calling. It might be the wood or brick or stone that calls the carpenter or the builder; the musical instrument that calls the musician; the experience of the power of healing that calls the doctor.

E ele cita Neruda, que sentia a poesia lhe chamando:

And it was at that age… Poetry arrived/ in search of me… There I was without a face / and it touched me.”
It ends ecstatically: “And I infinitesimal being,/…felt myself a pure part/ of the abyss,/ I wheeled with the stars,/ my heart broke loose on the wind.”

To speak of calling or mission in life in these terms probably sounds quaint, if not downright sinister. We are rightly suspicious of people who announce that they have a mission to save the world, or democracy, especially when that involves sending thousands of others on missions that may prove terminal. But however cynical or postmodern we may have become, it is worth remembering that the idea of a calling or mission could save us from the solipsistic cul-de-sac of “choice”.

Exato, Eyres. A idéia de chamado, de ter que decidir por algo sem que se tenha alternativa é muito mais charming.

Choice, as currently interpreted, sounds like a self-enclosed system. You’re expected to choose, according to your desire, as if that had no bearing on anything outside you. But just stop and listen, and “from a street” you may be summoned, “from the branches of night/ abruptly from the others.”

E se as coisas derem errado, sempre se pode dizer “não foi minha escolha”.


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