o artista/intelectual

24 11 2007

Estava lendo “Cidade Partida” de Zuenir Ventura. O capítulo que fala da amizade de alguns bandidos com intelectuais do Rio de Janeiro no final da década de 50 e início da de 60, e o fascínio de artistas pelo banditismo. Alguns como Clarice Lispector e Helio Oiticica chegaram a lhes dedicar obras.

Parêntese: quem tem um artigo – nada fácil de ler – sobre o culto à criminalidade por artistas britânicos é Theodore Dalrymple: “Trash, Violence, and Versace: But Is It Art?”.

Trechos do livro do Ventura:

A morte de Mineirinho sensibilizou a literatura de Clarice Lispector e de José Carlos (Carlinhos) Oliveira. Clarice dedicou-lhe uma sentida crônica na revista Senhor. “Suponho que é em mim […] que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que seus crimes.”
Ela confessa na crônica que os dois primeiros tiros lhe deram alívio e segurança. O terceiro deixou-a alerta, o quarto, desassossegada. O quinto e o sexto a cobriram de vergonha; o sétimo e o oitavo a encheram de horror; no nono e no décimo a boca ficou trêmula; no décimo primeiro, ela chamou por Deus, no décimo segundo, pelo irmão. “O décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”
Carlinhos Oliveira fez-lhe também um comovido necrológio, considerando-o a personificação da rebeldia: “Assaltava bem, matava com perícia, amotinava presidiários e se punha em fuga com extrema facilidade”. O cronista não escondia sua simpatia por um bandido que arriscava a vida “por um ideal” – o de querer “ser livre para ser criminoso, o louco!”.
Aquela execução despertou no cronista sombrias reflexões: “Fico eu agora pensando em inumeráveis adolescentes que amadurecem no mesmo cenário ignominioso que produziu Mineirinho e me pergunto: onde anda agora o espírito de rebeldia? Onde anda agora o espírito que se evolou de Mineirinho? Quem, com os olhos da demência, com o imenso ranger no coração descerá agora do morro para castigar e envergonhar a cidade?”.

(…)

Cara de Cavalo era um bandido chinfrim. Ladrão, não gostava de roubar. Diariamente cumpria uma rotina segura. À tarde, sempre acompanhado de uma das amantes, em geral a titular Lair Dias da Silva, pegava um táxi, sentava-se no banco de trás e percorria os pontos de jogo do bicho de Vila Isabel e arredores. Não saía do carro. Parava, Lair descia e ia recolher o pagamento compulsório do dia. Ele ficava esperando. Manoel Moreira levava a vida que um bandido preguiçoso pedira a Deus: pouco trabalho, muitas mulheres e um dinheiro certo, sem risco.
(…)
Um de seus grandes amigos, o artista plástico Hélio Oiticica, não se conformava com essa representação. “O que me deixava perplexo era o contraste entre o que eu conhecia dele como amigo e a imagem feita pela sociedade.” Um ano depois da sua morte, Oiticica imortalizou-o numa obra-prima: Homenagem a Cara de Cavalo. É um bólide, ou seja, uma caixa envolta por uma tela e cujas paredes internas estão cobertas com quatro reproduções da foto oficial do bandido assassinado: estirado no chão, perfurado de balas, com os braços estendidos em forma de cruz. No fundo da caixa, num saco com pigmentos vermelhos, aparece escrito como numa lápide: “Aqui está e aqui ficará. Contemplai o seu silêncio heróico”.
Fascinado pela marginalidade, passista da Mangueira, companheiro de malandros e bandidos, freqüentador de favelas, Oiticica “foi o maior inventor de arte brasileira, um dos maiores da arte contemporânea em todo o mundo”, segundo o crítico Frederico de Morais. Radical, ele considerava a arte como revolta e essa revolta era, na opinião de Morais, “semelhante à do bandido que rouba e mata, em busca de felicidade, mas também à do revolucionário político”.
(…)
Em 1968, Hélio Oiticica fez outra homenagem a Cara de Cavalo: a bandeira-poema “Seja marginal, seja herói”. Se o bólide foi parar no valioso acervo do colecionador Gilberto Chateaubriand, a bandeira virou emblema do Tropicalismo e estandarte da facção mais radical da geração de 68. Ambas se inscreveram na história da vanguarda artística brasileira.

Mas minha curiosidade sobre o texto do Ventura foi outra. Sempre ouço falar – com freqüência até – da representação “artística” do bandido na música popular. O que me deixou intrigada foi ver isso tão presente em outras artes.

O que me leva a concluir que a música popular, pela projeção que tem – por causa da exposição na mídia e pelo alcance a um público tão diverso – talvez seja a manifestação artística mais prontamente lembrada como articulando coisas que – hipocritamente – talvez preferíssemos ver fora do âmbito das artes: preferências políticas, escolhas ideológicas, preconceitos, defesa (ou crítica) de tradições religiosas, entre outras coisas.

Mas a música popular é uma vitrine (minha idéia de “música popular” aqui é bem abrangente, e estou pensando também em formas como rap). A literatura pode ser “secretamente” revolucionária porque o seu alcance é bem mais limitado. Mas não há como ignorar a música popular. Talvez por isso ela gere reações tão fortes; de alguns que a endossam sem questionar, e de outros que a odeiam – muitas vezes também sem crítica alguma.

E acho mesmo que é essa projeção que leva a alguns a atribuírem a função de “intelectual” a um sujeito que simplesmente escreveu algumas canções. E falam tanto do “discurso social” do sujeito que ele acaba acreditando que seu comentário é uma análise social aprofundada. Emprestando uma expressão usada por um destes mesmos intelectuais/artistas, o que acaba acontecendo é que “quem brinca de princesa, acaba acostumando na fantasia”.

Atribui-se um papel à música popular que ela originalmente não tem e reage-se com surpresa quando ela passa a ser um espaço para a discussão de temas que deveriam circular nos gabinetes do executivo, no congresso e nas universidades.

Culpa-se a música popular por se meter a comentar a realidade brasileira. Mas o problema talvez não esteja nas discussões em si, mas sim na tentativa de atribuir-lhes uma relevância que elas não têm.

É o problema causado pela projeção que a música tem. O sujeito assina embaixo do que diz o artista porque, muitas vezes, é a primeira vez que alguém lhe faz pensar sobre o assunto. Nunca leu nada sobre o problema da violência no Brasil e, de repente, aparece alguém falando, numa linguagem interessante, sobre assunto tão sério. “Ele deve saber o que diz” – conclui-se.

Na maioria das vezes, não sabe, não. Escrever um rap/canção é bem diferente de elaborar sobre os problemas de um país complexo como o Brasil. Essa diferença aparece, por exemplo, quando a imprensa empresta o microfone ao artista/intelectual – numa entrevista, por exemplo. Em tais situações (exemplos aqui e aqui), o intelectual mostra a que veio.

E a gente vê que queria mesmo era ouvir mais do que o artista tem a dizer, e que preferia que o intelectual calasse a boca.


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