de volta

31 12 2007

De volta ao Brasil, meio contra minha vontade (ainda que só por um período de tempo), me lembrei do conto A Parasita Azul de Machado.

Há cerca de dezesseis anos, desembarcava no Rio de Janeiro, vindo da Europa, o sr. Camilo Seabra, goiano de nascimento, que ali fora estudar medicina e voltava agora com o diploma na algibeira e umas saudades no coração. Voltava depois de uma ausência de oito anos, tendo visto e admirado as principais coisas que um homem pode ver e admirar por lá, quando não lhe falta gosto nem meios. Ambas as coisas possuía, e se tivesse também, não digo muito, mas um pouco mais de juízo, houvera gozado melhor do que gozou, e com justiça poderia dizer que vivera.

Não abonava muito os seus sentimentos patrióticos o rosto com que entrou a barra da capital brasileira. Trazia-o fechado e merencório, como quem abafa em si alguma coisa que não é exatamente a bem-aventurança terrestre. Arrastou um olhar aborrecido pela cidade, que se ia desenrolando à proporção que o navio se dirigia ao ancoradouro. Quando veio a hora de desembarcar fê-lo com a mesma alegria com que o réu transpõe os umbrais do cárcere. O escaler afastou-se do navio em cujo mastro flutuava uma bandeira tricolor; Camilo murmurou consigo:

— Adeus, França!

Depois envolveu-se num magnífico silêncio e deixou-se levar para terra.

O espetáculo da cidade, que ele não via há tanto tempo, sempre lhe prendeu um pouco a atenção. Não tinha porém dentro da alma o alvoroço de Ulisses ao ver a terra da sua pátria. Era antes pasmo e tédio. Comparava o que via agora com o que vira durante longos anos, e sentia a mais e mais apertar-lhe o coração a dolorosa saudade que o minava. Encaminhou-se para o primeiro hotel que lhe pareceu conveniente, e ali determinou passar alguns dias antes de seguir para Goiás. Jantou solitário e triste com a mente cheia de mil recordações do mundo que acabava de deixar, e para dar ainda maior desafogo à memória, apenas acabado o jantar, estendeu-se num canapé, e começou a desfiar consigo mesmo um rosário de cruéis desventuras.

Mas não é a saudade de Chicago que incomoda. Esta é, de fato, muito grande. O irritante é me sentir tão em casa aqui (e não sentir o mesmo lá).

Feliz 2008.

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o que é etnomusicologia?

30 12 2007

Palavrinha comprida que, em termos gerais, refere-se ao estudo da música de diferentes culturas ao redor do planeta. A criação do termo em si é atribuída a Jaap Kunst, um pesquisador holandês que usou-o como subtítulo de um livro publicado em 1950.

Uma tendência de quem ouve o termo pela primeira vez talvez seja pensar que o etnomusicólogo estuda, por exemplo, as músicas daquela tribo aborígene da parte mais remota do planeta. De fato, alguns etnomusicólogos estudam isso. Mas alguns outros estudam as músicas produzidas pelas diferentes “tribos” urbanas. Tudo isso é da conta da etnomusicologia.

Pela sua abrangência, a etnomusicologia tem uma abordagem interdisciplinária da produção musical: ela usa ferramentas da teoria e análise musical, musicologia comparada, acústica, antropologia, sociologia, folclore, lingüística, história, psicologia, ciência política, economia e outras disciplinas. O grau de envolvimento do pesquisador em uma ou outra área depende muito da cultura que se deseja pesquisar. Por exemplo, um etnomusicólogo que trabalha com a tradição musical de uma tribo na Amazônia vai precisar de ferramentas diferentes das de um pesquisador de funk no Rio de Janeiro. A coleta e análise de dados em ambas as tradições envolve diferentes tecnologias; tecnologias estas que um pesquisador vai precisar dominar se quiser entender com profundidade uma determinada cultura musical.

Isto não tem necessariamente que ver com o grau de desenvolvimento da tecnologia utilizada pela tradição musical que se deseja estudar. Por exemplo, em 1898, um grupo de antropólogos de Cambridge interessado em pesquisar o Estreito de Torres (inclusive sua música) utilizou-se do que havia de mais moderno em equipamentos na época: fonógrafos (que gravavam o som em cilindros de cera), câmera para filmar e câmeras fotográficas.

Mas é claro que as perspectivas sobre a área de estudo da etnomusicologia também mudaram um bocado por conta da tecnologia hoje disponível. Sendo a Internet um espaço extremamente eficiente na produção, distribuição e consumo de músicas, é inevitável que uma parte fundamental do metier do pesquisador, seja saber navegar nesse meio e usá-lo efetivamente como instrumento e objeto de pesquisa.

Esta preocupação em registrar o modo como a música acontece in loco ainda é um dos pontos principais em pesquisa etnomusicológica. Na verdade, um aspecto que me chama a atenção no estudo fascinante da etnomusicologia é que ela não se restringe à análise do produto musical acabado. Ao pesquisador sério interessa também entender a música como processo.

O objeto de estudo da etnomusicologia é algo que está sempre sendo discutido e redefinido. Num primeiro momento, imaginou-se que sua área de abrangência eram as culturas fora da tradição européia ocidental; excluía-se, então, os gêneros musicais populares do mundo ocidental. Depois, procurou-se focar seu objeto de estudo nas tradições musicais de povos não-alfabetizados, ou ainda naquelas que eram transmitidas oralmente.

Segundo o verbete “etnomusicologia” do The New Grove Dictionary of Music and Musicians, a etnomusicologia hoje volta-se para músicas em contextos locais e globais. Embora esteja preocupada com tradições musicais vivas (incluindo-se canções, dança e instrumentos), alguns estudos recentes também têm investigado a história da música de diferentes tradições. Etnomusicologia é uma disciplina que primeiro buscou examinar “música em cultura” (Merriam), e então “música como cultura”, onde a pesquisa de campo constitui-se uma de suas metodologias essenciais.

(Algumas idéias e conclusões presentes nessa introdução são minhas. Mas eu também expandi e adaptei fatos e idéias mencionados por outros autores em outros textos.)





o lado fascista do Japão

21 12 2007

Eu tenho grande respeito e admiração pelo Japão, que eu conheço relativamente bem por ter morado lá por quase cinco anos. Mas há algumas coisas naquele país – e que não existem em nenhum outro lugar – que eu desprezo. E algumas que eu realmente abomino. Este artigo trata de uma delas.

O texto trata das escravas sexuais dos japoneses na guerra contra a Coréia e a China. E como o governo japonês se recusa a reconhecer a existência desse crime ou qualquer compensação financeira às vítimas.

In Japan, meanwhile, there are many determined and courageous scholars, journalists, lawyers and ordinary citizens who have fought for decades to persuade their own government to take responsibility for wartime wrongs. Their efforts deserve particular praise because they are carried on in difficult and often discouraging circumstances. Public intellectuals in Japan who raise issues of historical responsibility face a regular barrage of abusive messages, interspersed with threats of violence, which the police rarely bother to treat as criminal offenses. (…)

The story is depressingly familiar. Historical truth is being sacrificed to short-term political expediency. The victims this time are first and foremost the surviving “comfort women” themselves, who are once again being insulted and denied justice by the morally bankrupt hair-splitting rhetoric of politicians. But the other group of victims is the Japanese people themselves, whose relationship with neighbouring countries is being damaged by the short-sighted and inept behaviour of their political leaders. Reading the news over the past few days, I have been remembering Matsui Yayori, who to the day of her death fought so courageously for truth and justice, and thinking of historians like Yoshimi Yoshiaki and journalists like Honda Masakazu. Both the former “comfort women” and Japanese people like these surely deserve better.





momento auto-ajuda

18 12 2007

Failure is information.





Begley, Nabokov, and the break in one’s own destiny

13 12 2007

Louis Begley, no livro The Genius of Language: Fifteen writers reflect on their mother tongues):

Even though I am told that my writing does not show signs of rigor mortis, it is a fact that I write slowly and laboriously, pausing after every word I set down. I change it countless times and repeat the process with each sentence and paragraph before I can move forward. The vision of Trollope composing the Barchester novels in a railroad car, traveling desk balanced on his knees, with hardly an erasure or addition needed before the manuscript went off to the publisher, fills me with admiration, envy, and dull despair. I too can perform on the high wire when I write a legal text or an essay; writing fiction I need to keep my feet on the ground. Perfectionism and perennial dissatisfaction with everything I do are not alone to blame: it seems to me that when I write in English I lack normal spontaneity, let alone the unbeatable self-assurance a writer needs to soar or to be outrageous. I know that I do manage from time to time to be outrageous in my fiction, but the stress falls on the verb “manage.” Nothing about those effects is instant. The truth is that even today, after an immersion of more than fifty-five years in the English language, I am never completely confident that I have gotten right whatever it is that I write down, certainly not on the first try. Knowing objectively that often—perhaps most often—in fact I do, is not a consolation. In that respect only, I am not unlike my great countryman, Joseph Conrad. But Conrad had more of an excuse: he began to learn English only at the age of twenty-one; he was thirty-eight when his first novel, Almayer’s Folly, was published, and he had spent most of the intervening years on the high seas. Vladimir Nabokov’s command of the English language is a different case altogether. English was in effect Nabokov’s first language: he learned to read it before he could read Russian. Becoming thoroughly proficient in a “civilized” tongue, usually the French, and leaving the vernacular for latter, to be absorbed as a part of growing up, was usual in the nineteenth century among Slavic upper-class families. There was a series of English and French governesses who took care of the Nabokov children, and it wasn’t until Vladimir was seven that his father, alarmed by his sons’ backwardness in their native language, engaged the schoolmaster from the village adjoining the family estate to teach them to read and write in Russian.To go back to the torment I experienced revising the manuscript of my most recent novel, its immediate cause was the number of times my editor was in essence questioning my diction, the correctedness of the way I expressed myself in English. It didn’t matter that he wasn’t always right. What hurt was the contrast between his instinctive grasp of how one would normally say whatever it was that I wanted to express and my doubts: my need to grope to find the way, to test each sentence by reading it aloud. He had kept his birthright—the ability to use his mother tongue in his calling—and I had lost mine.

(…)

The Polish language has been a source of undiluted joy for me, and it pains me to make an admission that may make me seem unfaithful to my first love. But the plain truth is that I consider myself also supremely lucky to be an American novelist, using a language of incomparable beauty and access to readers, a language that for all the difficulties I have described is totally my own. In this respect as well, my case is very different from Nabokov’s, as he described it in an afterword to Lolita:

My private tragedy, which cannot, and indeed should not, be anybody’s concern, is that I had to abandon my natural idiom, my untrammeled, rich and infinitely docile Russian tongue for a second-rate brand of English, devoid of any of those apparatuses—the baffling mirror, the black velvet backdrop, the implied associations and traditions—which the native illusionist, frac-tails, can magically use to transcend the heritage in his own way.

Tragedy, surely, but one that was embedded in triumph. (…) I follow Nabokov’s advice, and take the tragedy seriously only because Nabokov’s intimate wound was surely very real, as is the wound inflicted by every exile, whatever its circumstances and aftermath. The wound is one that never heals, even if one can say with Nabokov, as I do, quite heartlessly: “The break in my own destiny affords me in retrospect a syncopal kick that I would not have missed for worlds.”





o inglês e o italiano

13 12 2007

M. J. Fitzgerald fala do inglês e do italiano (The Genius of Language: Fifteen writers reflect on their mother tongues).

Returning to Italian writing after gorging on this diet of English—Leopardi’s L’Infinito was restrained in comparison to Dylan Thomas’s Fern Hill—was like returning to milk toast after scones with clotted cream. I loved the accumulation of adjectives that a language so rich in words could indulge in, instead of the nuances in the repetition of the same adjective that gives Italian its power. I loved the exaggeration of English, the curlicues of language, its baroque quality. Many of the churches, much of the painting, and people’s gesturing in Italy are baroque. But the language itself is severe: its beauty lies in elegant simplicity and the hypnotic power of its sound. And when it is distorted by the wrong rhetoric in an attempt to “enrich it,” it becomes impenetrable without gaining in power. English has to work to be elegant and simple, because its sounds are rarely if ever as spellbinding as Italian, and so much of its nature is tortuous. But how fabulous the honed expression of that tortuousness can be for a girl who sees so clearly reflected in this language her fervent and histrionic self: not one word to describe her feelings, but half a dozen variations. At sixteen, there was no contest. English was the language of my sensibility, the language with which I would write poems as full of words as Dylan Thomas’s, novels as rich with emotion as Villette, dramas as powerful as Christopher Fry’s The Boy with a Cart.





um presente especial: a nova tradução de “Os Maias”

12 12 2007

Ganhei hoje um presente maravilhoso da minha melhor amiga: a última tradução de “Os Maias” de Eça de Queiroz, feita para o inglês por Margaret Jull Costa.

O parágrafo inicial da obra original, seguido da tradução:

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha decerto de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo de Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de uma data.

The house in Lisbon to which the Maias moved in the autumn of 1875 was known in Rua de São Francisco de Paula, and in the surrounding area of Janelas Verdes, as the Casa do Ramalhete, the House of the Bouquet of Flowers, or, more simply, as Ramalhete. Despite that fresh green name worthy of some rural retreat, Ramalhete was a large stern house of sober walls, with a line of narrow wrought iron balconies on the second floor, and, above that, a row of timid little windows sheltering under the eaves, a house which, as befitted a building dating from the reign of Queen Maria I, had the gloomy appearance of an ecclesiastical residence, and indeed, to complete its resemblance to a Jesuit college, it needed only a bell and a cross. The name, Ramalhete, doubtless came from the square panel of decorative tiles placed in the spot intended for a coat of arms that had never materialised, and which depicted a large bunch of sunflowers tied with a ribbon on which one could still just make out the letters and numbers of a date.