música de improviso

19 07 2008

Ontem fui ver o grupo instrumental “+Brasil” na Livraria Cultura do Shopping Market Place.

Lugar pequeno, pouca gente assistindo o quinteto de instrumentistas. Eu conhecia o saxofonista Mané Silveira, com quem tinha feito um curso no festival de Londrina há vários anos. Os outros, nunca tinha visto tocar. Fiquei maravilhada com o percussionista Beto Caldas que tocou vibrafone. Achei que ele é um excelente improvisador.

Jazz é um tipo de música especialmente excitante de se assistir ao vivo. O improviso, que é  fundamental, é uma criação do momento, que nunca mais vai se repetir. E não dá pra saber que linhas o improvisador vai seguir. Claro, tudo é estruturado e a harmonia que ele segue – sendo a mesma do tema – é terreno familiar. Também sabe-se a hora que o solo começa e termina. Mas uma vez que o solista embarca na sua exploração musical, levando a tiracolo o ouvinte, ninguém sabe – nem ele, nem o resto do grupo – como a coisa toda vai terminar.

Daí fiquei pensando sobre o fator surpresa em música e se este não é um aspecto decisivo em gosto musical. Eu desconfio que as pessoas não gostam muito de serem surpreendidas. Gosta-se do que é familiar.

Os brasileiros, especialmente, adoram cantar junto com o artista, coisa que acho muito aborrecida. O sujeito vai ao show pra ouvir o que já conhece, cantado pela própria voz. E o artista tem que tocar aquela que música que fez sucesso.

Com jazz, não dá pra cantar junto. Além disso, o tema – que é o que o sujeito pode eventualmente conhecer – é só uma parte pequena da performance. O solo, que é o que realmente importa é terreno desconhecido.
E no caso da música erudita? Desconfio que se dê algo parecido. O tema fica, de fato, na cabeça do ouvinte, mas o resto é uma surpresa. Pense, por exemplo, sobre o que você consegue cantarolar do primeiro movimento da quinta sinfonia de Beethoven.

Enfim, pouca gente no auditoriozinho da Cultura ontem. Jazz, bons músicos. Uma noite agradável.

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materialismo

18 07 2008

As estatísticas do wordpress me mostraram que mais gente clicou no link do catálogo dos moleskines do que nos artigos sobre tradução que eu pus aqui ontem. Como vocês podem ser tão materialistas?

Estou chocada.





um papo sobre o moteto

17 07 2008

Música e literatura são freqüentemente discutidas como artes distintas, e às vezes até antagônicas. Mas lá pelo século XIII, as duas eram pensadas como aspectos de um mesmo tipo de arte. Sim, porque a voz que carregava a letra era considerada o instrumento perfeito. Música era uma arte essencialmente vocal.

Num certo momento, os compositores passaram a pensar as duas como formas distintas de expressão. Pegaram gosto pelas formas instrumentais e não largaram mais. Um músico medieval, no entanto, era primeiramente um poeta.

E como começou a coisa toda? Olha, não dá pra saber com certeza porque descobrir as fontes do que restou dessa música e reconstruí-la – lembre-se que não há gravações – é um trabalho arqueológico complicadíssimo, especializado, caro, demorado, blá, blá, blá.

O que se sabe com certeza é que a música vocal usada na liturgia católica, o canto gregoriano, começou a evoluir já a partir do século IX. Os cantores, encarregados de incrementar o culto católico com música, começaram a acrescentar firulas às melodias originais, que originalmente eram cantadas em uníssono (ou seja, todo mundo cantando exatamente a mesma coisa).

A mudança mais significativa foi um negócio chamado polifonia, que é quando se tem várias melodias independentes soando ao mesmo tempo, mas ainda mantendo certa coerência entre si. Essa coerência é importante porque se não pareceria que alguém ligou, ao mesmo tempo, vários rádios em estações diferentes.

Numa região ali perto de Paris, esse processo floresceu e culminou num gênero que é a combinação mais sofisticada de música e poesia: o moteto. Este tipo de composição elaboradíssima tem uma característica interessante que eu queria te apresentar: a justaposição do discurso sacro e do profano.

Tá aí ainda ou já foi embora?

Bom, um moteto é composto por duas ou mais partes que são cantadas simultaneamente. Uma voz mais grave elabora melodias sobre uma sílaba, palavra ou frase, ela é chamada de tenor. Enquanto isso, uma ou mais vozes mais agudas trabalham seus próprios textos.

E é aí que começa a graça: os textos de um mesmo moteto divergem entre si e um passatempo interessantíssimo – pelo menos pra gente como eu, sem nada melhor pra fazer – é procurar conexões entre tais textos. Estes podem combinar, em alegorias e paródias, elementos da poesia secular e da liturgia católica (na forma de textos bíblicos ou a música mesmo do canto gregoriano).

A coisa toda fica ainda mais interessante quando se percebe que os artistas combinavam textos poéticos em latim e em francês com as alusões musicais a um canto que tinha um lugar específico na liturgia (ou seja, a posição que ele originalmente tinha na missa ou no ofício).

Vou te dar um exemplo. Um moteto podia explorar tanto o contexto bíblico quanto o litúrgico do texto da voz mais grave (chamada de tenor). Também podia haver uma adaptação do texto sacro para uma linguagem vernácula, com um tom alegórico ou de paródia.

Textos seculares também era usados. Um texto que se referisse ao amor entre um homem e uma mulher, por exemplo, podia trazer uma correspondência com Cristo como amante e a Igreja como noiva. Ou uma conexão entre a Virgem como objeto de adoração ou noiva de Deus e uma donzela vista como objeto de desejo erótico.

Escandaloso? De jeito nenhum. Lembre-se de que a Bíblia traz uma alegoria do amor erótico na poesia dos Cânticos dos Cânticos.

E quem ouvia estes motetos no século XIII conseguia captar estas sutilezas todas? Bom, isso é assunto pra outra conversa porque envolve muito mais gente.

Talvez você tenha ficado curioso pra saber como soa um moteto, se ainda não conhece um. Isso se você foi um dos valentes que chegou até aqui.

Neste link aqui tem a gravação de um moteto de um músico-poeta genial chamado Guillaume de Machaut que nasceu no século XIV. Falo dele outra hora, porque ele também dá pano pra manga.

Quem está cantando é o Hilliard Ensemble, um grupo de cantores que é muito bom nessa especialidade de cantar música tão velha e tão difícil assim – e que pouca gente gosta de ouvir.

É possível que ao ouvir essa música pela primeira vez você a ache monótona e repetitiva. Coisa que não temos mais na música popular do século XXI, não é?

Mas será dá pra chamar de monótona uma música tão complexa assim? Afinal, eu só te falei do texto. Nem comentei sobre a arquitetura dessa música.

Clique no “play”, feche os olhos e escute com a atenção que essa música merece. Depois me diz o que você achou.





você foi enganado

17 07 2008

Se você veio atrás de um moleskine, baseado neste post aqui, lhe informo que você foi enganado.

Isso não se faz, não é? Coisa mais desonesta mentir pra gente tão ocupada que nem tradutor.

Por que você não aproveita que está aqui e deixa um desaforo nesse post aqui (ou em qualquer outro) falando pra dona do blog que ficar oferecendo moleskine pras pessoas em troca de ibope no blog é uma coisa muito, muito feia e que isso não se faz?

Ou você pode aproveitar e dar uma olhada neste post aqui, que por acaso fala de um artigo muito bom sobre tradução. Tem esse aqui também falando da tradução para o português do Harry Potter que alguns adolescentes fizeram. E esse sobre tradução literária. E mais esse, onde um autor estrangeiro fala sobre tradução. Ou este com um trecho da nova tradução de “Os Maias” pro inglês.

E aqui deixo, muito desaforadamente, um link para o catálogo completo destes malditos caderninhos, que eu prometi e não vou te dar.

Volte outras vezes. Amanhã estarei distribuindo IPhones.





uma visita ao sebo

16 07 2008

Passei a tarde de ontem no Sebo do Messias na Sé. E pra quem gosta de livros, o lugar é um paraíso. Tá certo que tinha um violinista tocando sem parar lá. E como música me distrai incrivelmente, saí de lá esgotada. Aliás, música ao vivo num sebo? Pra quê mesmo?

Uma coisa que eles certamente podiam fazer é colocar umas cadeiras lá. Tudo bem, admito que uso a Cultura descaradamente como biblioteca, mas sebo é diferente porque a gente sempre sai com um livrinho. É impossível ir num sebo bom como aquele e não sair com alguma coisa.

O que eu comprei? Bom, apenas coisas pra minha pesquisa sobre música e pentecostalismo em São Paulo. Mas como eu gosto do que estou estudando, fiquei felicíssima.

Eu defini que iria estudar o Brasil há bem pouco tempo – coisa de dois anos, a mesma época que decidi mudar de teoria pra etnomusicologia. Então, minhas leituras dos pensadores brasileiros estão todas defasadas. Algumas coisas li quando estava na faculdade de economia (que nunca terminei), mas não me lembro de quase nada. Por isso estou voltando aos clássicos.

De imediato, vou atacar os três principais: “Raízes do Brazil” de Sérgio Buarque de Holanda, “Formação do Brasil Contemporâneo” de Caio Prado Júnior e “Casa Grande & Senzala” de Gilberto Freyre.  

Agora, olha que legal: achei edições ótimas dos dois primeiros em excelente estado e bem mais em conta que as edições novas. O do Freyre vou comprar de uma amiga que comprou recentemente.

Estes livros até que são procurados – acho que estão na lista da bibliografia básica para o concurso de diplomatas do Instituto Rio Branco – então fiquei surpresa em encontrar estas edições (embora, fossem as únicas). Livro bom quando vende aos montes no Brasil é porque está listado em bibliografia de concurso.

Também tem gente que não gosta de livros usados de jeito nenhum, principalmente quem tem rinite. Compreensível. O problema é que se o assunto é Brasil, não há como não recorrer a sebos porque há livros excelentes que não são mais publicados.  

Andar pelos corredores de um sebo sentindo cheiro de livro velho, ficar com as mãos sujas de manuseá-los, passar horas torcendo o pescoço pra direita e pra esquerda pra ler as lombadas – que nunca estão do mesmo lado – lendo tudo em pé. . . E pra quê?

Pra encontrar um livro que pouca gente tem, oras. Este é o fascínio dos sebos. É como uma caça ao tesouro.

Meus outros tesouros, cavados no Sebo do Messias foram os livros “O Messianismo no Brasil e no Mundo” de Maria Isaura Pereira de Queiroz e “Bandeirantes e Pioneiros” de Vianna Moog, que pretendo devorar logo.

Agora com licença que eu vou ter uma conversa com o falecido Sérgio Buarque.

 





meu texto sem alma

15 07 2008

Um comentário sobre o que disse Vonnegut, que eu citei no post anterior.

Parece que na frente de uma página em branco, eu incorporo o espírito de jornalista ou professor e começo a escrever de um jeito tão impessoal e sem personalidade que nem eu agüento ler. Que coisa mais aborrecida!

Cada tentativa de pôr idéias no papel é uma briga contra essa tendência – que eu não sei de onde vem. O que eu venho me perguntando há um tempo é se esse tom professoral – não é “didática” a palavra certa porque pode-se ser didático e divertido ao mesmo tempo – não corresponde ao verdadeiro eu. Credo! Espero que não. Será que sou tão chata assim?

Talvez tenha a ver com os quase 30 anos de escola e treinamento em como escrever textos sem alma. Nessas horas, fico feliz de não ter feito jornalismo.

Aliás, tenho encontrado cada vez mais vantagens em ter feito faculdade de música. Ninguém me cobra nada, por exemplo. Pelo contrário, quando digo que sou formada em música, as pessoas me olham com uma cara de dó. “Tocar violão não pode ser tão bom assim…” – devem pensar. Ou “Coitada, não conseguiu entrar em direito”.

Outra vantagem: jamais vou conseguir um emprego numa estatal. Nem que num dia de desânimo diante da perspectiva de uma carreira acadêmica, sem dinheiro, eu me sinta levemente tentada – God forbid – a prestar um concurso num órgão qualquer do governo, meu diploma é inadequado para a maioria dos cargos oferecidos.

Mas estou divagando. Eu acho que sou uma tradutora mais competente exatamente porque nunca estudei tradução numa faculdade. E o amor por literatura e meu vocabulário pra discutir os livros que eu gosto (que não é lá grande coisa, admito) não foi contaminado pelo jargão da faculdade de Letras.

Mas como eu disse lá no início, a briga contra esse tom impessoal é constante porque o que eu mais leio é artigo acadêmico.

Há quem consiga facilmente assumir outras personalidades quando escreve. É como aquele tipo de pessoa que imita todo mundo mudando a voz ou fazendo uns trejeitos. Os textos soam diferentes um do outro, como se tivessem sido escritos por várias pessoas.

Li outro dia, aqui, pra ser mais precisa, que a capacidade de ver as coisas de maneiras diferentes é um aspecto importante da criatividade e da inteligência.
Acho que esse é um critério fundamental de juízo de valor em literatura – a capacidade de incorporar vozes diferentes no seu texto – e fazê-lo de forma convincente.

Faz sentido pois um romance é composto por personagens que diferem entre si,  cada um com um jeito próprio de falar. E é uma só mente que dá vida a todos eles.

Conheço poucas pessoas que conseguem escapar desse tom impessoal. Mesmo gente que sabe escrever bem. E conheço ainda menos pessoas capazes de variar o tom, escrevendo em vários registros diferentes.





mostre, em seu texto, quem você é de verdade

13 07 2008

Olha que interessante esse texto de Kurt Vonnegut sobre estilo. Ele diz coisas que você, provavelmente, já sabe, mas o início tem uma grande sacada.

Newspaper reporters and technical writers are trained to reveal almost nothing about themselves in their writings. This makes them freaks in the world of writers, since almost all of the other ink-stained wretches in that world reveal a lot about themselves to readers. We call these revelations, accidental and intentional, elements of style.

These revelations tell us as readers what sort of person it is with whom we are spending time. Does the writer sound ignorant or informed, stupid or bright, crooked or honest, humorless or playful– ? And on and on.

Why should you examine your writing style with the idea of improving it? Do so as a mark of respect for your readers, whatever you’re writing. If you scribble your thoughts any which way, your readers will surely feel that you care nothing about them. They will mark you down as an egomaniac or a chowderhead — or, worse, they will stop reading you.

The most damning revelation you can make about yourself is that you do not know what is interesting and what is not. Don’t you yourself like or dislike writers mainly for what they choose to show you or make you think about? Did you ever admire an emptyheaded writer for his or her mastery of the language? No.