minha aventura num hospital no Japão

11 07 2008

Eu passei um mês na ala ortópedica do hospital universitário de Niigata no Japão por causa do rompimento de um ligamento. Foi meu mergulho mais profundo – e mais divertido também – na cultura japonesa.

Quando cheguei lá, a coisa que me causou mais espanto foi a limpeza do lugar. Um dos meus lugares favoritos era o banheiro: eu não imaginava que um vaso sanitário pudesse envolver tanta tecnologia. Meus amigos americanos e outros colegas bolsistas também gostavam de usar o banheiro lá de tão legal que era.

Assim que me instalei no quarto (que tinha outras três pacientes), fui recebida por uma mocinha simpática e muito nervosa porque tinha que falar inglês comigo. Ela trouxe um papel sufite com uma letra de mão impecável explicando o medicamento que eu ia usar, quando eu tinha que tomá-lo, a função de cada pílula e uma legenda que incluía um desenhinho de cada comprimido. Tudo traduzido pra um inglês cheio de erros ortográficos. Achei isso uma coisa das coisas mais simpáticas que já me fizeram.

Mas o uso do inglês ficou só nisso. Foi um mês falando praticamente só japonês pois só o meu médico arriscava inglês comigo. E o vocabulário dele era um pouco diferente: era como conversar com um artigo de medicina de um periódico especializado.

Ele era bem famoso por lá; era o médico do time de futebol da cidade, que tinha, inclusive, alguns brasileiros. Tinha realizado umas 600 operações do mesmo tipo da minha. Sabia tudo de joelho. Vinha me visitar todo dia e uma vez por semana vinha acompanhado de um grupo de uns dez estudantes de medicina. Eu era a novidade da ala: a brasileira com o joelho remendado e um japonês sofrível, que ria de tudo.

Eu comia só comida japonesa. Mas tinha meus privilégios. No café da manhã, por exemplo, eu era a única a não comer arroz – havia duas fatias de pão pra mim. Mas eu tinha que comer ao lado dos meus companheiros de hospital que gostavam de natô logo de manhazinha. Natô é feijão fermentado e tem um cheiro fortíssimo de chulé. Como resultado, depois de um mês, eu estava cinco quilos mais magra. Ainda tento repetir aquela dieta pra voltar àquele peso, mas nunca deu certo nos EU. Aqui em São Paulo também não está dando (não conheço ninguém que goste de natô).

As enfermeiras eram muito gentis, como é o povo japonês em geral. Uma das enfermeiras mais jovens, acostumada a lidar com pacientes mais idosos, que não ouviam direito, tinha um jeito peculiar de lidar comigo. Quando eu não entendia o que ela estava falando em japonês, ela falava mais alto. Simplesmente repetia o que tinha dito num volume mais alto e ia aumentando diante da minha expressão cada vez mais confusa. Com o tempo, eu fazia a careta só pra ver ela gritar. E me segurava pra não rir – o que era muito difícil. Outras enfermeiras falavam beeeeem de-va-gar. Era hilário me comunicar com elas. Eu achava engraçado e, brasileira que sou, ria muito do jeito delas (ainda que não na frente delas). Elas, japonesas que eram, jamais riram do meu japonês ridículo (pelo menos, não na minha frente).

Eu fui operada na véspera de natal, que é uma coisa que não muda a rotina de ninguém lá. Todo mundo vai trabalhar normalmente. Aliás, não dar bola pro natal foi outra coisa que aprendi com eles. Então passei o natal de 2003 meio grogue, voltando da anestesia. Com uma sede terrível – que eles disseram que não podiam saciar porque meu estômago ainda não estava pronto pra receber líquido; com a anestesia geral eu acordei ainda não sentindo nada da barriga pra baixo. Eu reclamei muito de sede e as enfermeiras me deram uma pedra de gelo pra ir aliviando. Elas estranhavam porque japonês não reclama. Eles dizem “gaman” e agüentam quietinhos. Acharam estranho também quando, numa outra ocasião, decidiram suturar meu dedo sem anestesia. Não entenderam porque eu quis acordar o hospital inteiro com meus berros. Nesse dia da sutura, eu me arrependi de não ter aprendido a xingar em japonês. Aquele médico ia saber o que eu pensava da mãe dele. Mas voltando à ala ortopédica, quando o efeito da anestesia passou, eu quis chorar. Mas tinha gente com mais dor que eu no quarto. Então, “gaman”.

Minhas colegas de quarto eram casos bem mais tristes que o meu. Quando alguém perguntava, eu até ficava sem graça de explicar que só tinha um ligamento rompido e que fizera a cirurgia só pra poder voltar a correr. Muita gente ali que jamais pode andar.  Tinha uma moça nos seus vinte e poucos anos, mãe de um casalzinho de crianças, que o marido trazia todo fim de semana, que passava dois terços do ano no hospital. Ela tinha uma doença degenerativa nos ossos e já tinha tido várias cirurgias. A senhora que ficava na minha frente era doida por maçãs. E adorava me dar uma todo dia. Eu nunca fui muito fã da fruta – coisinha mais sem graça -, mas não sabia como recusar. Acho que naquele mês comi minha quota de maçã pra essa vida.

A maioria do pessoal do hospital – com exceção das enfermeiras – acabou esquecendo que eu era estrangeira e muitas passaram até a me tratar como confidente. Nem desconfiavam – ou simplesmente ignoravam – que eu não entendia boa parte do que me diziam. Fiz amizade com a faxineira, que falava um dialeto, que, descobri depois, nem minhas amigas de quarto entendiam. No Japão, aperfeiçoei a arte de escutar sem ouvir. E, é claro, sem deixar seu interlocutor perceber o quanto você está perdida.

O hospital era um lugar agradável; o que acabou chateando foi a falta do que fazer. Já no final da minha estadia lá, contava os dias pra poder voltar pra casa e me ocupei com a tarefa – nada fácil – de aprender a usar meu joelho de novo. A sensação de poder andar de muletas depois de três semanas na cadeira de rodas foi indescrítivel.

Aquele mês no hospital de Niigata foi uma das minhas experiências mais interessantes no Japão.


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