Mainardi e você

13 07 2008

Me enchi das coisas de escola e fui dar uma olhada na estante, cheia de livros, da minha anfitriã. Achei “A Tapas e Pontapés” do Diogo Mainardi. Abri pra folhear e acabei lendo ele todinho em algumas horas.

Eu tinha uma idéia errada sobre o projeto do homem. Seu saco de pancadas não é Lula; é o brasileiro. Gostei muito sim, apesar de pertencer ao saco.

Bom, não pertenço ao saco exatamente. Na verdade, o Brasil no qual ele desce o sarrafo é o dos (políticos) brasileiros ladrões, dos (governos) brasileiros incompetentes, do (presidente) brasileiro desonesto, mentiroso e deslumbrado com o poder, do (povão) brasileiro analfabeto, rude e sem cultura, da (literatura e cultura) brasileira aguada e pretensiosa.

É um retrato do Brasil. Feio, não por culpa do retratista – que, de fato, não quis dar nem uma maquiadinha no retratado –, mas porque o Brasil é feio por si só.

Mas, mesmo sendo brasileira, não me senti na linha de tiro. Não achei que era de mim que ele falava. “Para” mim, mas não “de” mim. E acho que esse livro é outro daqueles que mergulha na cabeça do brasileiro que mais abunda essa terra aqui (sim, porque de acordo com o que eu disse, há outros tipos de brasileiros). Pra ser lido junto com Freyre, DaMatta e Buarque de Holanda.

Por isso, não entendo o ódio com que suas crônicas são recebidas. Logicamente, só deveria ficar ofendido quem se identifica com o Brasil perdedor e desonesto que ele descreve – aqueles sujeitos que eu coloquei entre parênteses um parágrafo antes.

Ah, mas e o seu lado patriótico? Não se sente ofendido? Quando me perguntam isso, tenho vontade de discorrer sobre as coisas nada bonitas que penso sobre essa turma – a dos patriotas.  Além disso, meu lado patriótico sempre perdeu para o meu lado pragmático. E sempre perdeu feio.

O fato é que meu lado patriótico fica todo alvoroçado quando estou fora do Brasil. Mas com já um mês de São Paulo, ele minguou de vez.

Ah, e o seu senso de responsabilidade social? Esse eu perdi há oito anos. Tenho quase certeza de que deixei no avião, quando desci em Narita.

Recomendo o livro? Bom, depende. De qual Brasil você faz parte? Ninguém gosta de ser xingado não é? Principalmente quando você sabe que o que te falam é a verdade.


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3 responses

16 07 2008
Marco Aurélio Antunes

Olá.
Concordo com o que você escreveu sobre Mainardi. Ao lê-lo, dou razão a Millôr Fernandes quando este diz que todo grande pensador, sobretudo grande pensador social, é um humorista. Não sei se cabe o rótulo de “grande pensador” a Mainardi, mas penso que ele é um dos jornalistas que mais sabem escrever sobre o Brasil atual. Além de tudo, é engraçado…
Um abraço.

31 08 2008
Cristina Futuro

Isso é um blog, acho. Mas não sei quem é você. Não queria falar sobre esse texto, mas sobre o artigo de Taruskin, citado em 2007, “Defending classical music against its devotees”. Como você o obteve? Depois de ler alguns trechos citados em seu blog, mais seus comentários, procurei-o, hélas, sem nada conseguir.

1 09 2008
Ieda

Sim, Cristina, isso é um blog.
O artigo em questão pode ser encontrado pelo google. Coloque o título lá que ele te dá o link.
Mas mais fácil (e óbvio) é seguir o link que eu coloquei no próprio post.

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