meu texto sem alma

15 07 2008

Um comentário sobre o que disse Vonnegut, que eu citei no post anterior.

Parece que na frente de uma página em branco, eu incorporo o espírito de jornalista ou professor e começo a escrever de um jeito tão impessoal e sem personalidade que nem eu agüento ler. Que coisa mais aborrecida!

Cada tentativa de pôr idéias no papel é uma briga contra essa tendência – que eu não sei de onde vem. O que eu venho me perguntando há um tempo é se esse tom professoral – não é “didática” a palavra certa porque pode-se ser didático e divertido ao mesmo tempo – não corresponde ao verdadeiro eu. Credo! Espero que não. Será que sou tão chata assim?

Talvez tenha a ver com os quase 30 anos de escola e treinamento em como escrever textos sem alma. Nessas horas, fico feliz de não ter feito jornalismo.

Aliás, tenho encontrado cada vez mais vantagens em ter feito faculdade de música. Ninguém me cobra nada, por exemplo. Pelo contrário, quando digo que sou formada em música, as pessoas me olham com uma cara de dó. “Tocar violão não pode ser tão bom assim…” – devem pensar. Ou “Coitada, não conseguiu entrar em direito”.

Outra vantagem: jamais vou conseguir um emprego numa estatal. Nem que num dia de desânimo diante da perspectiva de uma carreira acadêmica, sem dinheiro, eu me sinta levemente tentada – God forbid – a prestar um concurso num órgão qualquer do governo, meu diploma é inadequado para a maioria dos cargos oferecidos.

Mas estou divagando. Eu acho que sou uma tradutora mais competente exatamente porque nunca estudei tradução numa faculdade. E o amor por literatura e meu vocabulário pra discutir os livros que eu gosto (que não é lá grande coisa, admito) não foi contaminado pelo jargão da faculdade de Letras.

Mas como eu disse lá no início, a briga contra esse tom impessoal é constante porque o que eu mais leio é artigo acadêmico.

Há quem consiga facilmente assumir outras personalidades quando escreve. É como aquele tipo de pessoa que imita todo mundo mudando a voz ou fazendo uns trejeitos. Os textos soam diferentes um do outro, como se tivessem sido escritos por várias pessoas.

Li outro dia, aqui, pra ser mais precisa, que a capacidade de ver as coisas de maneiras diferentes é um aspecto importante da criatividade e da inteligência.
Acho que esse é um critério fundamental de juízo de valor em literatura – a capacidade de incorporar vozes diferentes no seu texto – e fazê-lo de forma convincente.

Faz sentido pois um romance é composto por personagens que diferem entre si,  cada um com um jeito próprio de falar. E é uma só mente que dá vida a todos eles.

Conheço poucas pessoas que conseguem escapar desse tom impessoal. Mesmo gente que sabe escrever bem. E conheço ainda menos pessoas capazes de variar o tom, escrevendo em vários registros diferentes.


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