um papo sobre o moteto

17 07 2008

Música e literatura são freqüentemente discutidas como artes distintas, e às vezes até antagônicas. Mas lá pelo século XIII, as duas eram pensadas como aspectos de um mesmo tipo de arte. Sim, porque a voz que carregava a letra era considerada o instrumento perfeito. Música era uma arte essencialmente vocal.

Num certo momento, os compositores passaram a pensar as duas como formas distintas de expressão. Pegaram gosto pelas formas instrumentais e não largaram mais. Um músico medieval, no entanto, era primeiramente um poeta.

E como começou a coisa toda? Olha, não dá pra saber com certeza porque descobrir as fontes do que restou dessa música e reconstruí-la – lembre-se que não há gravações – é um trabalho arqueológico complicadíssimo, especializado, caro, demorado, blá, blá, blá.

O que se sabe com certeza é que a música vocal usada na liturgia católica, o canto gregoriano, começou a evoluir já a partir do século IX. Os cantores, encarregados de incrementar o culto católico com música, começaram a acrescentar firulas às melodias originais, que originalmente eram cantadas em uníssono (ou seja, todo mundo cantando exatamente a mesma coisa).

A mudança mais significativa foi um negócio chamado polifonia, que é quando se tem várias melodias independentes soando ao mesmo tempo, mas ainda mantendo certa coerência entre si. Essa coerência é importante porque se não pareceria que alguém ligou, ao mesmo tempo, vários rádios em estações diferentes.

Numa região ali perto de Paris, esse processo floresceu e culminou num gênero que é a combinação mais sofisticada de música e poesia: o moteto. Este tipo de composição elaboradíssima tem uma característica interessante que eu queria te apresentar: a justaposição do discurso sacro e do profano.

Tá aí ainda ou já foi embora?

Bom, um moteto é composto por duas ou mais partes que são cantadas simultaneamente. Uma voz mais grave elabora melodias sobre uma sílaba, palavra ou frase, ela é chamada de tenor. Enquanto isso, uma ou mais vozes mais agudas trabalham seus próprios textos.

E é aí que começa a graça: os textos de um mesmo moteto divergem entre si e um passatempo interessantíssimo – pelo menos pra gente como eu, sem nada melhor pra fazer – é procurar conexões entre tais textos. Estes podem combinar, em alegorias e paródias, elementos da poesia secular e da liturgia católica (na forma de textos bíblicos ou a música mesmo do canto gregoriano).

A coisa toda fica ainda mais interessante quando se percebe que os artistas combinavam textos poéticos em latim e em francês com as alusões musicais a um canto que tinha um lugar específico na liturgia (ou seja, a posição que ele originalmente tinha na missa ou no ofício).

Vou te dar um exemplo. Um moteto podia explorar tanto o contexto bíblico quanto o litúrgico do texto da voz mais grave (chamada de tenor). Também podia haver uma adaptação do texto sacro para uma linguagem vernácula, com um tom alegórico ou de paródia.

Textos seculares também era usados. Um texto que se referisse ao amor entre um homem e uma mulher, por exemplo, podia trazer uma correspondência com Cristo como amante e a Igreja como noiva. Ou uma conexão entre a Virgem como objeto de adoração ou noiva de Deus e uma donzela vista como objeto de desejo erótico.

Escandaloso? De jeito nenhum. Lembre-se de que a Bíblia traz uma alegoria do amor erótico na poesia dos Cânticos dos Cânticos.

E quem ouvia estes motetos no século XIII conseguia captar estas sutilezas todas? Bom, isso é assunto pra outra conversa porque envolve muito mais gente.

Talvez você tenha ficado curioso pra saber como soa um moteto, se ainda não conhece um. Isso se você foi um dos valentes que chegou até aqui.

Neste link aqui tem a gravação de um moteto de um músico-poeta genial chamado Guillaume de Machaut que nasceu no século XIV. Falo dele outra hora, porque ele também dá pano pra manga.

Quem está cantando é o Hilliard Ensemble, um grupo de cantores que é muito bom nessa especialidade de cantar música tão velha e tão difícil assim – e que pouca gente gosta de ouvir.

É possível que ao ouvir essa música pela primeira vez você a ache monótona e repetitiva. Coisa que não temos mais na música popular do século XXI, não é?

Mas será dá pra chamar de monótona uma música tão complexa assim? Afinal, eu só te falei do texto. Nem comentei sobre a arquitetura dessa música.

Clique no “play”, feche os olhos e escute com a atenção que essa música merece. Depois me diz o que você achou.


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