músicos? bah!

30 10 2008

“Quem sabe faz. Quem não sabe, ensina.”

“If a composer could say what he had to say in words he would not bother trying to say it in music.” (Mahler)

Já te aviso que este é um texto mal-humorado. Então talvez seja melhor você pegar suas idéias politicamente corretas sobre música e ir ler blogs mais cordiais porque hoje eu vou dizer dos músicos, o que Mafoma não disse do toucinho.

Eu acho que competência musical é um negócio super valorizado. É, estou implicando com músicos, mesmo sendo uma deles. Não posso me excluir completamente dessa categoria, já que durante um bom tempo, eu ganhei a vida fazendo música. Mas tem um tipo específico de músico que me irrita e o que segue baseia-se principalmente nos meus aborrecimentos com esse tipo.

Eu trabalhei com vários músicos excelentes cujo ego só perdia, em tamanho, para o talento musical. E uma coisa especialmente aborrecida é a mania de achar que a capacidade de fazer boa música substitui coisas como elegância, bom gosto, gentileza, boas maneiras e leitura.

Vou falar só dessa última. Se você já leu alguma coisa nesse blog, já deve saber o que eu penso de gente que não gosta de ler. Quem não lê, não tem o hábito de ser contrariado e ser contrariado é uma coisa muito, muito saudável. Como resultado, tende a achar que tem o direito de sair por aí falando besteira. Em outras palavras, quem não lê, perde o senso de ridículo.

Já ouvi várias vezes, por exemplo, músicos dizendo que, em se tratando de música, não há nada a ser aprendido em livros.

Muita gente sofre desse mal, a ignorância. Nada de novo nisso. Mas músicos exercem um certo fascínio no imaginário das pessoas e, por isso, todo mundo quer ouvi-los falar. O que nem todo mundo percebe, porém, é que boa parte dos músicos não sabe falar de música. A maioria dos músicos que eu conheço não é capaz de articular, de maneira interessante (ou inteligível), uma idéia relevante sobre música.

Acha que eu estou sendo cruel? Essa opinião não é nova e nem exclusivamente minha. Gente reclamando da preguiça mental dos músicos é a coisa mais comum entre quem tem que trabalhar com essa turma. Guido D’Arezzo, um monge da Idade Média, cujo trabalho era ensinar cantores, referiu-se a músicos em termos bem menos elogiosos. Ele respeitava o musicus (o sujeito que filosofa sobre música), mas achava que o cantor (o sujeito que faz música) não valia muita coisa.

Convenhamos, a rotina do músico, que envolve basicamente, se aprimorar na execução de um instrumento, não contribui para fazer dele um pensador. Tocar escalas o dia todo não te ajuda a melhorar a percepção de coisas que não sejam escalas.

Tocar um instrumento exige exatamente que tipo de esforço intelectual? Não, sério, quais são os processos cognitivos envolvidos na tarefa de aperfeiçoar, vamos dizer, a execução de uma sonata no piano? Claro, envolve um trabalho meticuloso de coordenação motora, controle de movimentos, de assimilação de um número razoável de convenções (que é a leitura de uma partitura), de um certo exercício de criatividade no que diz respeito à expressão. Mas que mais?

Professores de música estão sempre martelando na cabeça do aluno aquela recomendação para jamais tocar mecanicamente. Por que? Porque tocar um instrumento é uma atividade principalmente mecânica, onde é muito fácil fazer as coisas automaticamente, sem pensar. O músico se acostuma com o instrumento, com o repertório, com o estilo e deixa de usar a cabeça.

Quanto mais pensar sobre outras músicas, sobre as implicações da sua música num contexto social maior, sobre a relação da música com outras artes, sobre o seu lugar na vida das pessoas! Não, não dá tempo de pensar nessas coisas todas.

Isso não quer dizer que músicos sejam pessoas desinteressantes. Conversa de músico, sim, é geralmente entediante. Porque, com freqüência, eles falam de música sob o ponto de vista da interpretação, o que é um jeito bem limitado de ver as coisas. Raramente, por exemplo, conseguem avaliar música fora dos seus respectivos instrumentos. Já conversou com aquele pianista que fica mexendo os dedos no ar quando pensa num trecho de música, como se o único modo de lembrar fosse pela ação dos dedos? Em muitos casos, eles não conseguem se interessar, apreciar e, menos ainda, entender tradições musicais muito diferentes das suas. Ouvem o mundo através dos seus ouvidos exclusivamente tonais.

Mas costumam se meter em situações engraçadíssimas, simplesmente porque isso é o que costuma acontecer com gente que só consegue olhar para o próprio umbigo. O que os torna tão divertidos é precisamente o fato de que tamanho talento é freqüentemente acompanhado por um ego igualmente agigantado e uma total falta de sensibilidade para com outras pessoas.

Mas há músicos que não são nada disso, me diz você, de olho na sua guitarra vermelha encostada no canto do quarto. Então eu te digo que tocar um instrumento não faz de você esse tipo de músico a que eu me refiro. Sim, sim, há exceções. É claro que o que eu disse antes é uma generalização. Me deixa que o blog é meu!

Estou falando de um tipo específico. Aquele sujeito que não faz outra coisa que não seja música e que não fala de outra coisa também. Quem alterna aulas de piano com a leitura de livros sobre história política do Brasil, por exemplo, não é bem esse tipo que eu estou falando porque o músico a que eu me refiro não vai tirar tempo do seu estudo pra gastar lendo um livro.

É uma atitude. Uma arrogância que coloca o ato de tocar acima de tudo. A própria frase que abre este texto já me foi repetida ad nauseam por gente que toca.

Acho isso é mais sério num país como o Brasil. Aí, educação musical é luxo; tocar bem um instrumento não é pra quem quer. Então o músico se vê como pertencendo a uma elite. Em países onde todo mundo aprende um instrumento na escola não dá pra manter essa atitude porque há excelentes músicos que não tocam profissionalmente. Há mais pessoas que se dedicam seriamente à música, mas têm outra profissão.

Queria fechar o post dizendo alguma coisa inteligente sobre a frase do Mahler que eu coloquei lá em cima. Mas fiquei com preguiça.

Tchau. Vou tocar violão.

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no aeroporto

28 10 2008

Estou aqui no aeroporto de Hartford, CT, que é diferente dos aeroportos que eu conheço: tem internet wireless de graça, mas falta tomada. Mas achei uma aqui e estou blogando ao invés de trabalhar.

Meu vôo vai atrasar por causa da chuva então a companhia me arrumou uma conexão pra Charlotte, North Carolina. Vou chegar em Chicago só à noite e com uma hora de atraso.

Odeio viajar. Sinceramente, não consigo entender quem diz que gosta. Acho detestável. Tenho dor de cabeça e de estômago quando vôo e não consigo comer. Além disso, é caro, cansativo e me tira da minha rotina. Uma porcaria.





the society for ethnomusicology conference

26 10 2008

Uma folguinha na correria que está sendo essa conferência. Depois de uma manhã de painéis (quatro papers diferentes), todo mundo teve acesso a comida – com direito a cookies de sobremesa – e bebida de graça.

A conferência está acontecendo na Wesleyan University em Middletown. Uma paisagem que fica ainda mais linda com a troca da folhagem das árvores neste início de outono. É um lugar lindíssimo que eu te mostraria se minhas habilidades fotográficas fossem melhores. O tempo está ajudando: ontem choveu como eu não via há muito tempo. Teve gente que se aventurou na chuva e ficou encharcada em segundos. Mas hoje abriu um sol maravilhoso, embora esteja friozinho.

Hoje, a tarde é livre. Como recreação, estão oferecendo aulas de ioga e taichi (!) que eu dispensei. Olha, tais aulas só poderiams ser oferecidas numa conferência de etnomusicólogos mesmo. Aliás a comida ontem era toda oriental (tailandesa e algumas outras que eu nem tive tempo de provar). Há concertos de gamelão, música indiana, africana, e uma porção de outras culturas diferentes; danças e recepções à noite. Como a conferência é no campus, há internet de graça pra todos os participantes (foi distribuída uma senha pra quem se inscreveu na conferência).

Então aproveitei essa folga e vim me refugiar no meu laptop, que funciona meio que como um oásis pra quem já cansou de ser social. Não é muito fácil conversar por tanto tempo com tanta gente diferente.

Aproveitar bem uma conferência gigantesca como essa exige um pouco de planejamento. O pior erro é tentar acompanhar demais do que é oferecido. Há um limite para o que se pode absorver intelectualmente e o meu deve ser bem baixo. Não adianta tentar ultrapassar. Mas chato mesmo é quando há vários papers interessantes sendo apresentados ao mesmo tempo e você tem o azar de acabar escolhendo o pior deles.

É legal ver tanta gente estudando músicas não ocidentais – ou músicas que não são tão presentes na mídia. Ou ainda gente estudando essas músicas mais presentes, mas trazendo uma nova perspectiva para o modo como nós podemos vê-las.

Boa parte dos etnomusicólogos que eu conheço são músicos além de acadêmicos – pelo menos os melhores são sempre excelentes instrumetistas. E há muita gente andando por aqui com seus instrumentos. Uma das minhas roommates na verdade é uma citarista e hoje acordei com o som do instrumento. Ela estava praticando para o concerto de logo mais à noite. Lindo o som e muito agradável de ouvir. Ela parece ser uma instrumentista bem experiente. É uma etnomusicóloga formada que não conseguiu emprego numa universidade norte-americana.

Conheci várias pessoas. Revi algumas outras. Gente pesquisando tópicos tão diferentes do que o que me atrai no momento e também gente interessada em exatamente a mesma coisa – mas em outros lugares do mundo. Não encontrei ninguém trabalhando com música evangélica em São Paulo. Vi muita gente estudando, sim, coisas brasileiras, mas interessada em outros tipos de música. Aliás, hoje assisti um paper sobre bossa nova, apresentado por uma moça bem estressada e com uma certa indisposição para ouvir opiniões diferentes da sua.

Academia é uma carreira solitária e uma conferência da SEM consegue a proeza de reunir esse bando de pesquisadores solitários que trabalham em diferentes partes do mundo. É uma sensação boa ver tanto etnomusicólogo junto. Pelo menos durante cinco dias, você não está mais tão só. Também é muito bom ver os rostos por trás dos textos em livros e papers.

Por outro lado, assusta um pouco saber que há tanta gente por aí competindo por um emprego – há muitos estudantes aqui também. Muita gente terminando suas dissertações e tentando entrar no mercado.

Estou gostando muito e aproveitando. Apesar de algumas figurinhas esquisitas de ego inflado demais. Mas tenho certeza de que não são exclusividade da etnomusicologia.





conferência SEM

24 10 2008

Estou indo, daqui a pouco, pra Middletown em Connecticut para a conferência anual da SEM. O programa completo com todos os papers pode ser baixado aqui.





a funny map of U of C

22 10 2008

u of c funny map, originally uploaded by iedabispo.

Hoje dei um pulo em outro departamento pra resolver um negócio e vi esse mapa na parede. Daí tirei uma foto. Clique nela pra ver os detalhes. No flickr tem um com uma resolução melhor.

O mapa deve ser de 1933 e muita coisa mudou por aqui desde então. Muitos prédios novos e muita gente nova também. Mas é um retrato da época e tem coisas engraçadas também (John Rockefeller, fundador da universidade aparece com um saquinho de dinheiro — em cima, do lado esquerdo, abaixo da fogueira). A expressão “The City Gray shall ne’er die” seria hoje “U of C, where fun comes to die”, o motto não oficial da escola.

E o candidato a Ph.D nos seus exames (no lado direito do mapa) é um menininho no meio dos velhotes. E com as perninhas tremendo.

Com o tempo que se leva para sair daqui, eu desenhava o candidato como velhinho também.





música maravilhosa, músico desprezível

21 10 2008

Ontem eu falei que ia postar a entrevista de Taruskin falando da experiência de escrever os cinco volumes (o sexto é o índice e bibliografia) de Oxford History of Western Music. Quase nada muito interessante na conversa.

Eu quero te mostrar um trechinho só:

Q. You once said after another epic project, your two-volume book ”Stravinsky and the Traditions,” that you came out of it disliking Stravinsky, or at least liking Stravinsky less. How do you feel now about Western music?

A. Oh, but it wasn’t Stravinsky’s music that I liked less. I liked the man less. But who cares what you think about the man? I was interested in the music, and the man only insofar as it helped to explain the music. The more I know about his music, the more interesting it gets. And that goes double, triple — sextuple, I guess — for Western music as a whole.

Acho que essa resposta resume a diferença entre estudar a música e estudar a vida do compositor. São coisas tão distintas que, pela proximidade, acabam se confundindo. Mas é possível odiar o compositor e amar a música.

Um dos meus compositores favoritos é Debussy. Mas parei de ler sobre a vida pessoal dele porque em todos os livros ele aparece como um sujeito mesquinho e mulherengo. Acho que a ex-mulher até acabou se suicidando por causa do distinto.

Mas isso é realmente importante? Em tempos de consumer activism, vale a pena protestar contra a música de um ser humano realmente desprezível? Ou o prazer de ouvir a música que gosto vem em primeiro lugar? Quem vai perder se eu deixar de ouvir a música que eu gosto?

Olha, eu não quero saber. Separo a música do homem. Como Taruskin disse, quem liga pra quem é o homem? Não me interessa. Fecho os olhos e esqueço que o sujeito é um maníaco.

Mesmo quando o músico é também o performer, também faço isso. Às vezes é mais difícil, como no caso desse tonto aqui, que adora ficar dando gritinhos bestas enquanto toca piano. ODEIO ISSO. Mas adoro o piano desse imbecil. Viu o que ele fez na Itália? Não te lembra um violonista brasileiro famoso?

O que fazer?

Uma coisa que essas estrelas não percebem é que a música, se boa, sobrevive ao músico. E isso, por mais que ele se esforce por sabotá-la com a sua reputação. Gosto muito da música de João Gilberto, por exemplo (embora já esteja me saindo pelos poros). Mas não vou ver nenhum show dele. Não ligo nem um pouco de assisti-lo na TV. Sinceramente, não vale o esforço ir a um show, só pra ver de perto a personalidade horrorosa de alguém assim.

A DVD will definitely do.

Já Debussy, é um decomposing composer mesmo.

Aliás, fica aí com a letra dessa obra prima do Monthy Python, que, ouvi falar, é um pessoal muito gente boa.

Beethoven’s gone but his music lives on,
And Mozart don’t go shoppin’ no more,
You’ll never meet Liszt or Brahms again,
And Elgar doesn’t answer the door.

Schübert and Chopin used to chuckle and laugh,
Whilst composing a long symphony,
But one hundred and fifty years later,
There’s very little of them left to see.

They’re decomposing composers,
There’s nothing much anyone can do,
You can still hear Beethoven,
But Beethoven cannot hear you.

Händel and Haydn and Rachmaninov,
Enjoyed a nice drink with their meal,
But nowadays no-one will serve them,
And their gravy is left to congeal.

Verdi and Wagner delighted the crowds,
With their highly original sound,
The pianos they played are still working,
But they’re both six feet underground.

They’re decomposing composers,
There’s less of them every year,
You can say what you like to Debussy,
But there’s not much of him left to hear.

Claude Achille Debussy, died 1918.
Christophe Willebaud Gluck, died 1787.
Carl Maria von Weber, not at all well
1825, died 1826. Giacomo Meyerbeer,
still alive 1863, not still alive 1864.
Modeste Mussorgsky, 1880
going to parties,
no fun anymore 1881. Johan Nepomuck
Hummel, chatting away nineteen to the
dozen with his mates down the pub every
evening 1836, 1837 nothing.





música dos séculos XIX e XX: algumas leituras

20 10 2008

Há coisa de dois anos, levei pau na prova de single-sheets* do curso “Música dos séculos XIX e XX” e por isso, o professor sugeriu que eu fizesse nova prova quando o curso fosse oferecido novamente.

O curso está sendo oferecido este trimestre e eu estou fazendo as leituras todas, me preparando para a prova que dessa vez inclui questões abertas. Então estou relendo os volumes 4 e 5 de “Oxford History of Western Music: Music from the Earliest Notations to the Sixteenth Century”, de Richard Taruskin.

É curioso reler uma obra tão densa como essa. Estou impressionada com a quantidade de coisas que eu simplesmente não me lembro de ter lido.

E é interessante ver como ele escolheu discorrer sobre assunto tão complexo. Já falei aqui que ele é um escritor fantástico. O que eu gosto mesmo nesses textos é o modo como ele fala da música, mais do que o assunto em si. Nem sempre estou interessada nos fatos, mas acho fascinante ver como ele discorre sobre a música, que aspectos escolhe descrever, como analisa a música, o que ele menciona da vida do compositor, quais fatos históricos cita.

Enfim, pra mim, estes dois volumes dizem muito sobre como escrever sobre música sem soar como um artigo da Wikipédia.

Também fazem parte da bibliografia, o livro “The Rest is Noise” de Alex Ross e o “Cambridge History of 20th-Century Music”, editado por Nicholas Cook. Também tem “Twentieth-Century Music” de Robert P.  Morgan e “Musical Composition in the Twentieth Century” de Arnold Whittall. Mas desses falo outra hora, se tiver tempo (o curso requer 200 páginas de leitura por semana e eu estou lendo bem devagar porque é muita coisa pra assimilar).

Vou ver se posto trechos de uma entrevista que eu achei, onde Taruskin fala desse projeto. Outra hora.

*Single-sheets é o seguinte: você tem, nesse caso, vinte folhas de partituras, que deve identificar, dizer quem escreveu e quando. É claro que, para a prova, eles tiram o título da composição e o nome do autor das fotocópias. Na verdade, eles podem muito bem escolher uma folha que não seja o início da peça. Se você não consegue identificar, tem que pelo menos fazer um educated guess e explicar por quê. No caso dessa prova, todas as partituras eram dos séculos XIX e XX.