Coutinho e a histeria

15 10 2008

Gosto muito dos textos do João Coutinho, que leio sempre. Mas como ninguém está imune a falar besteiras, ele também teve seu dia de (des)inspiração.

Inconsistente o argumento contra o casamento “gay”. Não esperava que ele necessariamente concordasse com isso, mas, dele, esperava um motivo bem mais sólido pra se posicionar contra o que ele chama de histeria.

Se do lado dos defensores do casamento gay há histeria, e não nego que haja, do que se pode chamar o outro lado, gritando aos berros que o casamento gay é uma ameaça à instituição base da sociedade? Eu ouço barulho dos dois lados – principalmente aqui onde moro. Um exemplo, no início das aulas, fomos recepcionados no campus com panfletagem contra o casamento gay. O Sr. Coutinho só escuta o barulho do lado do qual discorda. Talvez porque este último, de fato, apareça mais na mídia.

Agora, existe uma distinção a ser feita: esse é um assunto controverso que atrai discussão. Ou seja, prato cheio para a mídia, que explora o assunto a torto e a direito. E, claro, “gays militantes” cientes disso, também tentam usar tal exposição a seu favor e saem às ruas.

Particularmente, detesto militantes. Sejam eles quem forem, defendam o que defenderem. Detesto barulho de qualquer natureza. Mas, você pode se chocar com o que vou falar, nem todo gay é barulhento. E mais chocante ainda: nem toda pessoa a favor do casamento gay é necessariamente gay ou histérica.

Mas não importa, para o Sr. Coutinho, mesmo que você não se vista de pink e saia em desfile beijando seu parceiro na boca em público, se achar que gays podem se casar, você é histérico e ponto.

“É justo que duas pessoas do mesmo sexo que partilham uma vida em comum possam assegurar certos direitos sucessórios ou fiscais.” E é isso o que assegura um contrato de casamento, Sr. Coutinho. Existe um lado prático nessa questão. Não se trata apenas de formalidades; reivindicam-se que direitos básicos sejam assegurados pela lei.

“Não é justo desmontar o casamento tradicional para acomodar o capricho de uns quantos.” Isso é o que eu chamo de histeria: argumentar que o casamento gay “desmonta” o casamento tradicional. Sempre escuto isso de quem se posiciona contra o casamento gay. Mas nunca vi alguém responder convincentemente como isso vai passar a acontecer. O casamento hétero vai deixar de existir? Aumentará, por acaso, o número de gays?

Outra coisa, chamar essa solicitação de “capricho” também é significativo e mostra o que ele, de fato, pensa sobre a condição gay. Agora, falar em justiça para defender o casamento heterossexual? O que é que essa conversa toda tem a ver com justiça? Não é exatamente esse o argumento dos “histéricos”?

A cereja – de chuchu – do sundae vem no final: ele coloca no mesmo saco poligamia de vários tipos, incestos e homossexualismo. Abrir a porta para este último significa abrir a porta para os outros. Que coisa!

O texto revela uma visão simplista — focada num só lado — de um problema bem mais complexo do que a aparente histeria que ele descreve.

Um dia ruim, de fato, Sr. Coutinho.

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