uma resolução musical

8 01 2009

Resolução de ano novo é mais ou menos como fazer um desejo soprando as velinhas do bolo de aniversário: se contar pra outra pessoa, a coisa desanda. Mas mais honesto que culpar a superstição é admitir que é por negligência nossa que boa parte delas sai do papel para uma existência curta e atropelada.

“Como é que fui pensar que daria conta de mais esse compromisso?”, admitimos depois de uma semana. E então  o novo plano logo murcha para cair de vez no esquecimento. Quer dizer, até o ano que vem. Ele vai voltar à vida lá pelo fim de dezembro quando, com o novo ano, você se sentir capaz de abraçar o mundo mais uma vez.

Mas eu fiquei empolgada com uma ideia que tive pra este ano e queria te contar.

Como é sempre o caso, minha resolução é mais do que eu dou conta, que é onde está a graça da coisa. O plano, no entanto, é bem simples: estou lendo o livro de Tom Moon “1000 Recordings to Hear Before You Die” como uma forma de ampliar meu “menu musical”. Cada dia baixo um ou dois álbuns da lista e ouço com toda atenção.

A idéia parece mais fácil do que realmente é porque estou me propondo a parar o que quer que esteja fazendo e ouvir a música. E estou sendo obrigada a ouvir coisas para as quais nunca dei bola e outras das quais sempre fugi. Agora dá pra entender de onde veio o AC/DC do outro post, não?

E vou te dizer, com uma ponta de orgulho, que estou me descobrindo mais tolerante do que imaginava. Claro, com esses anos todos ouvindo e lendo sobre música, já ouvi muita coisa que não gostava; ouvir o que não me agrada é meio que rotina. Mas ouvia porque tinha que escrever a respeito e pronto.

Agora é diferente. Estou tentando deixar de lado meu nariz empinado e me abrindo à música. E estou surpresa porque descobri algumas coisas novas que gostei muito.

Claro, trata-se de uma lista bem escolhida e a maioria do que está lá tem seu mérito. Lembre-se que é a escolha de um moribundo; o autor vende a ideia de que realmente vale a pena ouvir tudo isso antes de ir embora. Coisa séria, tá pensando o quê?

Então escuto cada álbum  com respeito, com a garantia do autor, que todos têm razões especialíssimas para entrar na lista, enquanto vários milhares ficaram de fora.

Sim, sim, há um bocado de pretensão por trás da idéia de se escrever um livro com um título – e objetivo – pomposo desses. Mas acho que pode funcionar se você não levar a coisa tão a sério. (Agora me diz se não é engraçado ouvir isso de uma etnomusicóloga).

Aliás, como não poderia ser diferente, já saquei do meu estetoscópio etnomusicológico (sim, existe esse treco) e me pus a auscultar minhas reais intenções pra embarcar num projeto desses. O que estou fazendo?

Pra ser bem sincera, é uma coisa bem despretensiosa. Estou mesmo a fim de conhecer coisas novas. E o livro ajuda a organizar as coisas. Por mim mesma, acabo sempre voltando às coisas que mais gosto; estava um pouco enjoada.

Cheguei também à conclusão que o livro meio que assumiu a função da obsoleta capinha do CD com informações sobre a gravação. Embora seja um pouco diferente porque inclui também uma ou outra fofoquinha sobre os músicos, além dos tracks preferidos do autor. Ele também sugere outros álbuns que poderiam te agradar se você gostou do que ouviu.

A Wikipédia tem muito do que está no livro. Mas, veja bem, é diferente “folhear” a informação. Todo mundo sabe que por mais que o nosso cérebro passe batido por uma informação que lê online, há grande chance de que não faça o mesmo se ler a mesmíssima frase num livro impresso.

Ler os comentários do autor não deixa também de ser uma maneira de “possuir” a música, já que um arquivo no laptop está longe de me fazer sentir que a música me pertence. Você também tem essa sensação? E ouvir o álbum todo também tem um pouco disso: ouvindo, me aproprio da música. “Pronto, acabei”, digo no final. E decido se vou ouvir de novo coisas daquele tipo ou se já deu. Em outras palavras, outra ilusãozinha minha meu poder sobre a música.

Mesmo assim, só leio os comentários de Moon depois de ouvir: não precisamos que alguém nos diga do que gostar, não é? Mas a idéia dele nem parece ser essa.

Nem se trata de “estudar” a música. Mas expandir meu universo musical, seja pelo maior contato com coisas que não conheço direito ou me aprofundando em conhecer aquilo que eu só ouvi de raspão.

Enfim, uma brincadeira leve – pelo menos, até os compromissos acadêmicos voltarem com tudo – e divertida. Vamos ver se consigo levar a coisa adiante. Te falo.


Ações

Information

12 responses

8 01 2009
Rap

Pô bem que a lista poderia ser disponibilizada né? Mas aí o livro perderia o sentido… libertar-nos de preconceitos é realmente uma atitude necessária

8 01 2009
Ieda

Rap.

A lista completa está no site do livro: http://www.1000recordings.com/

9 01 2009
Fabricio Modesto Dolci

Ufa, acabei de dar uma geral no site…
Gostei de ver um número razoável de artistas brasileiros, como Tom Zé e Hermeto Pascoal, que eu adoro!!!
Quanto aos internacionais (excessão Sepultura) achei muitas coisas que sinto falta de ouvir ou que acho bom demais como Fugazi, Cypress Hill, Beastie Boys, Café Tacuba, Jane’s Addiction, Ministry (uma das melhores bandas que já existiu – na minha opinião claro), N.W.A., Nine Inch Nails (sensacional – tenho até tattoo do NIN), Nirvana, Pantera, Pink Floyd (podia ter mais algum album lá, gosto muito do the division bell ), Ramones, The Roots, Sepultura (uma das minhas favoritas, apesar de hoje em dia não ouvir muito), Slayer, Sonic Youth, Frank Zappa (não podia faltar, com o excelente The Best Band You Never Heard in Your Life)…

Enfim….quero esse livro!!!!!!!!!

9 01 2009
Fabricio Modesto Dolci

Ahhh, bem que você poderia postar os discos que você for ouvindo do livro!!!🙂

9 01 2009
Ieda

Fabricio,

Estou fazendo isso na parte “Estou ouvindo” do blog. Dá uma conferida.

Abraço.

10 01 2009
Rap

Agora vendo a lista vou fazer alguns destaques hehe

Back to Black – AC/DC me arrisco em dizer que foi o melhor álbum de 2008. Os caras conseguiram manter o som oitentista sem serem enjoativos como outras bandas do mesmo período que lançaram álbum no ano passado

Prokofiev é o compositor

4 álbuns com obras de Bach? Temos de ver quais são as obras apesar de que o cara é fantástico…

Chet Baker e Armstrong o cara colocou realmente clássicos do jazz, lendas mesmo…

Pensei que não ia encontrar rap mas Afrika Bambataa tá lá, muito bom saber…

Putz essa lista me deu vontade de continuar com um blog que tenho mas que já tá parado há anos… http://musicanalisando.wordpress.com . Como a idéia de falar de cada álbum é sua gostaria de perguntar se você permite “copiar” a ideia, pode? hehe

Abraço

10 01 2009
Ieda

Rap,

Fique à vontade pra comentar os álbuns. Ia ser legal saber sua opinião. Não pretendo fazer isso aqui. Só vou fazer uma lista do que for ouvindo.

Boa sorte e, sim, reative o blog.

14 01 2009
helder

Olá,

Acompanho seu blog há alguns meses e ele é muito inspirador. Sou formado em Comunicação Social (Jornalismo) e estudante de Música (estou me preparando para prestar vestibular; no momento estudo na Fundação das Artes de São Caetano do Sul, conhece?).

Encontrei o blog quando fiz uma busca para “The rest is noise”, do Alex Ross. Tinha acabado de folhear na Livraria Cultura, em SP, e corri pesquisar alguma coisa. Depois que li seu post sobre ele, tentei resistir mas voltei à livraria e comprei, rs.

Gosto de suas idéias e depois desse último post resolvi fazer contato. Me interesso muitíssimo pela etnomusicologia e pelas outras discussões que você propõe por aqui. Parabéns pelo trabalho!

abraço!

15 01 2009
Ieda

Helder, muito obrigada pelas palavras. Me deixaram muito feliz.
Espero que você volte e diga o que acha das coisas que lê.
Abraço,

Ieda

22 01 2009
TALITA

Oi Ieda, estava andando pelos sites da vida e encontrei vc, ou melhor, o seu blog. Gostei muito, realmente muito do que encontrei aqui. Sou estudante de ciencias sociais da unioeste de toledo-pr e tenho os dois pés na antropologia e sse ano (hhaaa desculpe, o ano passado) descobri a etnomusicologia. Como uma boa amante, esposa e namorada da musica, considerei esta a descoberta da minha vida. Estou com um progeto (ainda mais na cabeça do que no papel) sobre uma tribo urbana bastante forte na minha cidade os “thrash metal” e gostaria de saber se nós podemos trocar informações…nao tenho ideia de onde encontrar literaturas sobre o assunto e por isso estou ainda perdida em meus papéis sem saber por onde começar…estou deixando meu email e se vc puder entrar em contato comigo ficaria muito feliz…

um grande abraço…e parabens pelo seu blog…

22 01 2009
TALITA

nao sei se aparece meu email…por isso vou deixar ele aqui…
talita.boaretto@yahoo.com.br

abraços!!!

7 02 2009
McFly

Que delícia de dica… Visitei.

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