música maravilhosa, músico desprezível

21 10 2008

Ontem eu falei que ia postar a entrevista de Taruskin falando da experiência de escrever os cinco volumes (o sexto é o índice e bibliografia) de Oxford History of Western Music. Quase nada muito interessante na conversa.

Eu quero te mostrar um trechinho só:

Q. You once said after another epic project, your two-volume book ”Stravinsky and the Traditions,” that you came out of it disliking Stravinsky, or at least liking Stravinsky less. How do you feel now about Western music?

A. Oh, but it wasn’t Stravinsky’s music that I liked less. I liked the man less. But who cares what you think about the man? I was interested in the music, and the man only insofar as it helped to explain the music. The more I know about his music, the more interesting it gets. And that goes double, triple — sextuple, I guess — for Western music as a whole.

Acho que essa resposta resume a diferença entre estudar a música e estudar a vida do compositor. São coisas tão distintas que, pela proximidade, acabam se confundindo. Mas é possível odiar o compositor e amar a música.

Um dos meus compositores favoritos é Debussy. Mas parei de ler sobre a vida pessoal dele porque em todos os livros ele aparece como um sujeito mesquinho e mulherengo. Acho que a ex-mulher até acabou se suicidando por causa do distinto.

Mas isso é realmente importante? Em tempos de consumer activism, vale a pena protestar contra a música de um ser humano realmente desprezível? Ou o prazer de ouvir a música que gosto vem em primeiro lugar? Quem vai perder se eu deixar de ouvir a música que eu gosto?

Olha, eu não quero saber. Separo a música do homem. Como Taruskin disse, quem liga pra quem é o homem? Não me interessa. Fecho os olhos e esqueço que o sujeito é um maníaco.

Mesmo quando o músico é também o performer, também faço isso. Às vezes é mais difícil, como no caso desse tonto aqui, que adora ficar dando gritinhos bestas enquanto toca piano. ODEIO ISSO. Mas adoro o piano desse imbecil. Viu o que ele fez na Itália? Não te lembra um violonista brasileiro famoso?

O que fazer?

Uma coisa que essas estrelas não percebem é que a música, se boa, sobrevive ao músico. E isso, por mais que ele se esforce por sabotá-la com a sua reputação. Gosto muito da música de João Gilberto, por exemplo (embora já esteja me saindo pelos poros). Mas não vou ver nenhum show dele. Não ligo nem um pouco de assisti-lo na TV. Sinceramente, não vale o esforço ir a um show, só pra ver de perto a personalidade horrorosa de alguém assim.

A DVD will definitely do.

Já Debussy, é um decomposing composer mesmo.

Aliás, fica aí com a letra dessa obra prima do Monthy Python, que, ouvi falar, é um pessoal muito gente boa.

Beethoven’s gone but his music lives on,
And Mozart don’t go shoppin’ no more,
You’ll never meet Liszt or Brahms again,
And Elgar doesn’t answer the door.

Schübert and Chopin used to chuckle and laugh,
Whilst composing a long symphony,
But one hundred and fifty years later,
There’s very little of them left to see.

They’re decomposing composers,
There’s nothing much anyone can do,
You can still hear Beethoven,
But Beethoven cannot hear you.

Händel and Haydn and Rachmaninov,
Enjoyed a nice drink with their meal,
But nowadays no-one will serve them,
And their gravy is left to congeal.

Verdi and Wagner delighted the crowds,
With their highly original sound,
The pianos they played are still working,
But they’re both six feet underground.

They’re decomposing composers,
There’s less of them every year,
You can say what you like to Debussy,
But there’s not much of him left to hear.

Claude Achille Debussy, died 1918.
Christophe Willebaud Gluck, died 1787.
Carl Maria von Weber, not at all well
1825, died 1826. Giacomo Meyerbeer,
still alive 1863, not still alive 1864.
Modeste Mussorgsky, 1880
going to parties,
no fun anymore 1881. Johan Nepomuck
Hummel, chatting away nineteen to the
dozen with his mates down the pub every
evening 1836, 1837 nothing.

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mais Palin

19 10 2008

Mais sobre a escolha de Palin no New Yorker de hoje. Olha que absurdo (falando de como McCain conhecia Palin antes de escolhê-la):

By the time he announced her as his choice, the next day, he had spent less than three hours in her company.

Isso é a coisa mais irresponsável do mundo.

The selection of Palin thrilled the Republican base, and the pundits who met with her in Juneau have remained unflagging in their support. But a surprising number of conservative thinkers have declared her unfit for the Vice-Presidency. Peggy Noonan, the Wall Street Journal columnist, recently wrote, “The Palin candidacy is a symptom and expression of a new vulgarization in American politics. It’s no good, not for conservatism and not for the country. And yes, it is a mark against John McCain.” David Brooks, the Times columnist, has called Palin “a fatal cancer to the Republican Party.” Christopher Buckley, the son of National Reviews late founder, defected to the Obama camp two weeks ago, in part because of his dismay over Palin. Matthew Dowd, the former Bush campaign strategist turned critic of the President, said recently that McCain “knows in his gut” that Palin isn’t qualified for the job, “and when this race is over, that is something he will have to live with. . . . He put the country at risk.

[grifo meu]

Decisões idiotas como essa marcam a carreira de um político. Do mesmo jeito que Marta nunca mais vai se livrar do estigma de homofóbica pela sua estratégia covarde pra vencer Kassab.

Algumas pessoas condenam o vale-tudo-pra-granhar-a-eleição de Marta. Mas endossam o de McCain. Por quê?

Aliás recebi um email criticando as críticas à petista. Olha, se tem uma coisa que os “sem-noção” que adoram forward email não esperam é que você responda ao que eles mandaram ou reclame de ter recebido o lixo. Experimente fazer isso.

O que eu fiquei com vontade de fazer foi responder usando o reply all. Mas era um amigo, então me contive.





Mainardi e você

13 07 2008

Me enchi das coisas de escola e fui dar uma olhada na estante, cheia de livros, da minha anfitriã. Achei “A Tapas e Pontapés” do Diogo Mainardi. Abri pra folhear e acabei lendo ele todinho em algumas horas.

Eu tinha uma idéia errada sobre o projeto do homem. Seu saco de pancadas não é Lula; é o brasileiro. Gostei muito sim, apesar de pertencer ao saco.

Bom, não pertenço ao saco exatamente. Na verdade, o Brasil no qual ele desce o sarrafo é o dos (políticos) brasileiros ladrões, dos (governos) brasileiros incompetentes, do (presidente) brasileiro desonesto, mentiroso e deslumbrado com o poder, do (povão) brasileiro analfabeto, rude e sem cultura, da (literatura e cultura) brasileira aguada e pretensiosa.

É um retrato do Brasil. Feio, não por culpa do retratista – que, de fato, não quis dar nem uma maquiadinha no retratado –, mas porque o Brasil é feio por si só.

Mas, mesmo sendo brasileira, não me senti na linha de tiro. Não achei que era de mim que ele falava. “Para” mim, mas não “de” mim. E acho que esse livro é outro daqueles que mergulha na cabeça do brasileiro que mais abunda essa terra aqui (sim, porque de acordo com o que eu disse, há outros tipos de brasileiros). Pra ser lido junto com Freyre, DaMatta e Buarque de Holanda.

Por isso, não entendo o ódio com que suas crônicas são recebidas. Logicamente, só deveria ficar ofendido quem se identifica com o Brasil perdedor e desonesto que ele descreve – aqueles sujeitos que eu coloquei entre parênteses um parágrafo antes.

Ah, mas e o seu lado patriótico? Não se sente ofendido? Quando me perguntam isso, tenho vontade de discorrer sobre as coisas nada bonitas que penso sobre essa turma – a dos patriotas.  Além disso, meu lado patriótico sempre perdeu para o meu lado pragmático. E sempre perdeu feio.

O fato é que meu lado patriótico fica todo alvoroçado quando estou fora do Brasil. Mas com já um mês de São Paulo, ele minguou de vez.

Ah, e o seu senso de responsabilidade social? Esse eu perdi há oito anos. Tenho quase certeza de que deixei no avião, quando desci em Narita.

Recomendo o livro? Bom, depende. De qual Brasil você faz parte? Ninguém gosta de ser xingado não é? Principalmente quando você sabe que o que te falam é a verdade.





o lado fascista do Japão

21 12 2007

Eu tenho grande respeito e admiração pelo Japão, que eu conheço relativamente bem por ter morado lá por quase cinco anos. Mas há algumas coisas naquele país – e que não existem em nenhum outro lugar – que eu desprezo. E algumas que eu realmente abomino. Este artigo trata de uma delas.

O texto trata das escravas sexuais dos japoneses na guerra contra a Coréia e a China. E como o governo japonês se recusa a reconhecer a existência desse crime ou qualquer compensação financeira às vítimas.

In Japan, meanwhile, there are many determined and courageous scholars, journalists, lawyers and ordinary citizens who have fought for decades to persuade their own government to take responsibility for wartime wrongs. Their efforts deserve particular praise because they are carried on in difficult and often discouraging circumstances. Public intellectuals in Japan who raise issues of historical responsibility face a regular barrage of abusive messages, interspersed with threats of violence, which the police rarely bother to treat as criminal offenses. (…)

The story is depressingly familiar. Historical truth is being sacrificed to short-term political expediency. The victims this time are first and foremost the surviving “comfort women” themselves, who are once again being insulted and denied justice by the morally bankrupt hair-splitting rhetoric of politicians. But the other group of victims is the Japanese people themselves, whose relationship with neighbouring countries is being damaged by the short-sighted and inept behaviour of their political leaders. Reading the news over the past few days, I have been remembering Matsui Yayori, who to the day of her death fought so courageously for truth and justice, and thinking of historians like Yoshimi Yoshiaki and journalists like Honda Masakazu. Both the former “comfort women” and Japanese people like these surely deserve better.