the society for ethnomusicology conference

26 10 2008

Uma folguinha na correria que está sendo essa conferência. Depois de uma manhã de painéis (quatro papers diferentes), todo mundo teve acesso a comida – com direito a cookies de sobremesa – e bebida de graça.

A conferência está acontecendo na Wesleyan University em Middletown. Uma paisagem que fica ainda mais linda com a troca da folhagem das árvores neste início de outono. É um lugar lindíssimo que eu te mostraria se minhas habilidades fotográficas fossem melhores. O tempo está ajudando: ontem choveu como eu não via há muito tempo. Teve gente que se aventurou na chuva e ficou encharcada em segundos. Mas hoje abriu um sol maravilhoso, embora esteja friozinho.

Hoje, a tarde é livre. Como recreação, estão oferecendo aulas de ioga e taichi (!) que eu dispensei. Olha, tais aulas só poderiams ser oferecidas numa conferência de etnomusicólogos mesmo. Aliás a comida ontem era toda oriental (tailandesa e algumas outras que eu nem tive tempo de provar). Há concertos de gamelão, música indiana, africana, e uma porção de outras culturas diferentes; danças e recepções à noite. Como a conferência é no campus, há internet de graça pra todos os participantes (foi distribuída uma senha pra quem se inscreveu na conferência).

Então aproveitei essa folga e vim me refugiar no meu laptop, que funciona meio que como um oásis pra quem já cansou de ser social. Não é muito fácil conversar por tanto tempo com tanta gente diferente.

Aproveitar bem uma conferência gigantesca como essa exige um pouco de planejamento. O pior erro é tentar acompanhar demais do que é oferecido. Há um limite para o que se pode absorver intelectualmente e o meu deve ser bem baixo. Não adianta tentar ultrapassar. Mas chato mesmo é quando há vários papers interessantes sendo apresentados ao mesmo tempo e você tem o azar de acabar escolhendo o pior deles.

É legal ver tanta gente estudando músicas não ocidentais – ou músicas que não são tão presentes na mídia. Ou ainda gente estudando essas músicas mais presentes, mas trazendo uma nova perspectiva para o modo como nós podemos vê-las.

Boa parte dos etnomusicólogos que eu conheço são músicos além de acadêmicos – pelo menos os melhores são sempre excelentes instrumetistas. E há muita gente andando por aqui com seus instrumentos. Uma das minhas roommates na verdade é uma citarista e hoje acordei com o som do instrumento. Ela estava praticando para o concerto de logo mais à noite. Lindo o som e muito agradável de ouvir. Ela parece ser uma instrumentista bem experiente. É uma etnomusicóloga formada que não conseguiu emprego numa universidade norte-americana.

Conheci várias pessoas. Revi algumas outras. Gente pesquisando tópicos tão diferentes do que o que me atrai no momento e também gente interessada em exatamente a mesma coisa – mas em outros lugares do mundo. Não encontrei ninguém trabalhando com música evangélica em São Paulo. Vi muita gente estudando, sim, coisas brasileiras, mas interessada em outros tipos de música. Aliás, hoje assisti um paper sobre bossa nova, apresentado por uma moça bem estressada e com uma certa indisposição para ouvir opiniões diferentes da sua.

Academia é uma carreira solitária e uma conferência da SEM consegue a proeza de reunir esse bando de pesquisadores solitários que trabalham em diferentes partes do mundo. É uma sensação boa ver tanto etnomusicólogo junto. Pelo menos durante cinco dias, você não está mais tão só. Também é muito bom ver os rostos por trás dos textos em livros e papers.

Por outro lado, assusta um pouco saber que há tanta gente por aí competindo por um emprego – há muitos estudantes aqui também. Muita gente terminando suas dissertações e tentando entrar no mercado.

Estou gostando muito e aproveitando. Apesar de algumas figurinhas esquisitas de ego inflado demais. Mas tenho certeza de que não são exclusividade da etnomusicologia.





conferência SEM

24 10 2008

Estou indo, daqui a pouco, pra Middletown em Connecticut para a conferência anual da SEM. O programa completo com todos os papers pode ser baixado aqui.





música dos séculos XIX e XX: algumas leituras

20 10 2008

Há coisa de dois anos, levei pau na prova de single-sheets* do curso “Música dos séculos XIX e XX” e por isso, o professor sugeriu que eu fizesse nova prova quando o curso fosse oferecido novamente.

O curso está sendo oferecido este trimestre e eu estou fazendo as leituras todas, me preparando para a prova que dessa vez inclui questões abertas. Então estou relendo os volumes 4 e 5 de “Oxford History of Western Music: Music from the Earliest Notations to the Sixteenth Century”, de Richard Taruskin.

É curioso reler uma obra tão densa como essa. Estou impressionada com a quantidade de coisas que eu simplesmente não me lembro de ter lido.

E é interessante ver como ele escolheu discorrer sobre assunto tão complexo. Já falei aqui que ele é um escritor fantástico. O que eu gosto mesmo nesses textos é o modo como ele fala da música, mais do que o assunto em si. Nem sempre estou interessada nos fatos, mas acho fascinante ver como ele discorre sobre a música, que aspectos escolhe descrever, como analisa a música, o que ele menciona da vida do compositor, quais fatos históricos cita.

Enfim, pra mim, estes dois volumes dizem muito sobre como escrever sobre música sem soar como um artigo da Wikipédia.

Também fazem parte da bibliografia, o livro “The Rest is Noise” de Alex Ross e o “Cambridge History of 20th-Century Music”, editado por Nicholas Cook. Também tem “Twentieth-Century Music” de Robert P.  Morgan e “Musical Composition in the Twentieth Century” de Arnold Whittall. Mas desses falo outra hora, se tiver tempo (o curso requer 200 páginas de leitura por semana e eu estou lendo bem devagar porque é muita coisa pra assimilar).

Vou ver se posto trechos de uma entrevista que eu achei, onde Taruskin fala desse projeto. Outra hora.

*Single-sheets é o seguinte: você tem, nesse caso, vinte folhas de partituras, que deve identificar, dizer quem escreveu e quando. É claro que, para a prova, eles tiram o título da composição e o nome do autor das fotocópias. Na verdade, eles podem muito bem escolher uma folha que não seja o início da peça. Se você não consegue identificar, tem que pelo menos fazer um educated guess e explicar por quê. No caso dessa prova, todas as partituras eram dos séculos XIX e XX.




explicações e um site pra quem tem que decorar coisas

1 10 2008

Sumi, mas por boas razões. Pelo menos, eu acho.

Voltei pra Chicago e tive que encarar uma prova de história (música até o século XVI). Isso me manteve ocupada por uma semana inteira. Não fui tão bem quanto precisa, mas também não foi um vexame. Não sabia a resposta para a pergunta sobre manifestações populares e vernaculares no século XVI. O querido que elaborou a prova, disse que servia qualquer assunto, menos madrigal e chanson. Agora, adivinha quais eram as únicas formas que eu sabia? Enfim, enrolei lá. Mas é possível que me chamem de volta – quando eles não têm certeza se devem te passar, chamam você pra uma prova oral a respeito das perguntas que você respondeu.

Depois da prova, me ocupei de outra coisa: eu trouxe um violão maravilhoso comigo, então comecei a fazer aula de clássico. Que é uma coisa que eu sempre quis, mas que nunca tive chance. Meu professor é um peruano formado no Canadá com mestrado aqui nos EUA. Muito querido e muito competente também.

Agora estou estudando pra prova de alemão do programa. Estou usando esse site aqui, que está me poupando um tempo enorme. Eu sei, flashcard é a coisa mais nerd do mundo. Mas não tem jeito. A prova é a tradução de um texto sobre música em alemão. Eu tenho duas horas e meia pra verter a coisa toda pro inglês.

Também estou escrevendo e cuidando de papers pendentes. Outra hora eu falo sobre isso. Prometo ser mais freqüente [a nova reforma idiota derrubou a trema também?] nas postagens a partir de agora.





mostre, em seu texto, quem você é de verdade

13 07 2008

Olha que interessante esse texto de Kurt Vonnegut sobre estilo. Ele diz coisas que você, provavelmente, já sabe, mas o início tem uma grande sacada.

Newspaper reporters and technical writers are trained to reveal almost nothing about themselves in their writings. This makes them freaks in the world of writers, since almost all of the other ink-stained wretches in that world reveal a lot about themselves to readers. We call these revelations, accidental and intentional, elements of style.

These revelations tell us as readers what sort of person it is with whom we are spending time. Does the writer sound ignorant or informed, stupid or bright, crooked or honest, humorless or playful– ? And on and on.

Why should you examine your writing style with the idea of improving it? Do so as a mark of respect for your readers, whatever you’re writing. If you scribble your thoughts any which way, your readers will surely feel that you care nothing about them. They will mark you down as an egomaniac or a chowderhead — or, worse, they will stop reading you.

The most damning revelation you can make about yourself is that you do not know what is interesting and what is not. Don’t you yourself like or dislike writers mainly for what they choose to show you or make you think about? Did you ever admire an emptyheaded writer for his or her mastery of the language? No.





aprenda a pensar

26 03 2008

Continuando com a série auto-ajuda do blog, algumas dicas legais pra quem quer melhorar. O autor é Ed Boyden.

Traduzi pra você:

1. Procure sintetizar suas idéias constantemente. Jamais leia de forma passiva. Anote, molde, pense e sintetize enquanto lê, até mesmo quando estiver lendo o que você considera algo introdutório. Desta forma, você sempre concentrará esforços no sentido de compreender coisas numa determinação precisa o suficiente para permitir que você seja criativo.

2. Aprenda a aprender (rapidamente). Um dos talentos mais importantes para o século XXI é a capacidade de aprender quase qualquer coisa imediatamente. Seja capaz de conceber modelos preliminares de idéias. Saiba como seu cérebro funciona.

3. Trabalhe na ordem inversa, a partir do seu objetivo. De outro modo, você talvez nunca o alcance. Se você trabalha voltado para o futuro, poderá eventualmente criar algo significativo – ou não. Se trabalhar na ordem inversa, então pelo menos direcionou seu esforço para alguma coisa que era importante pra você.

4. Sempre tenha um plano a longo prazo. Mesmo que você o modifique todos os dias. O simples ato de traçar um plano já é válido. E mesmo que você o corrija com freqüência, pode ter certeza de que terá aprendido algo.

5. Faça mapas de eventualidades. Faça um diagrama de todas as coisas que você precisa fazer numa folha grande de papel e descubra quais delas dependem de outras coisas. Então procure aquelas que não dependem de nenhuma outra, mas que possuem o maior número de dependentes; termine estas primeiro.

6. Trabalhe em conjunto.

7. Cometa erros de forma rápida. Você pode se atrapalhar todo na primeira tentativa, mas seja rápido e avance. Anote o que o induziu ao erro para que você aprenda a reconhecê-lo e mexa-se. Tire os erros do caminho.

8. À medida que desenvolve suas habilidades, anote os protocolos com melhores resultados. Dessa forma, você pode repetir o que fez e fazer disso uma rotina. Torne instintivo o que é um controle consciente.

9. Documente tudo de maneira obsessiva. Se você não registrar, talvez nunca chegue a causar impacto no mundo. Boa parte do processo criativo é aprender a ver as coisas de maneira apropriada. A maioria das descobertas cientificas mais significativas aconteceu de modo inesperado, mas se você não documentar e digerir cada observação e aprender a confiar no que seus olhos vêem, jamais saberá quando está diante de uma surpresa assim.

10. Simplifique. Se a coisa parece difícil de executar, então é porque provavelmente é mesmo. Se você tem como gastar dois dias pensando em como fazê-la 10 vezes mais simples, faça isso. Vai funcionar melhor, será mais confiável e terá um impacto maior no mundo. E aprenda; ainda que seja para descobrir o que deu errado.





pra que estudar humanidades?

9 01 2008

O melhor desta discussão sobre a utilidade do ensino das ciências humanas vem depois, nas reações ao texto. Os comentários – numerosos – mostram pontos de vista interessantíssimos a respeito do assunto e são escritos por gente que ensina na área de humanas.

Mas critico este comentário do autor:

Teachers of literature and philosophy are competent in a subject, not in a ministry. It is not the business of the humanities to save us, no more than it is their business to bring revenue to a state or a university. What then do they do? They don’t do anything, if by “do” is meant bring about effects in the world. And if they don’t bring about effects in the world they cannot be justified except in relation to the pleasure they give to those who enjoy them.

Ele diz que o ensino de literatura e filosofia não traz conseqüências ao mundo além do prazer pessoal de usufruí-los? Será que eu entendi errado? Que idéia estapafúrdia.

Muitos dos comentários também rebatem essa idéia do autor. Algumas respostas dos comentários:

“The correct response when someone condescendingly asks you about the value of the humanities is simply to say to them “If you need to ask that question, then you obviously don’t understand enough to be discussing the topic in the first place.”

“The most unique features of being human are the ability to form sound judgments in our conduct and our ability to communicate effectively. To a very large extent, study of the humanities is indispensable to the development of those abilities.

Perhaps, if some of our national leaders had done their humanities homework, our present situation would be substantially better than it is.”

“The essay is devoted to the idea that the humanities have intrinsic rather than instrumental good, but if they are valued because of the pleasure they bring to those who practice them, that is treating them as an instrumental good – a means to pleasure. It is the difference between the aesthetic approach – beauty for beauty’s sake, and the utilitarian approach – beauty for the sake of pleasure.

For myself, some of the pleasure that comes from engaging in the study and teaching of humanities comes from the thought that what I am studying and teaching is intrinsically worthwhile: if it were good as a means to my pleasure, it would not be quite so pleasant.”