como escreve Miguel Esteves Cardoso

8 11 2008

Quando eu leio um texto bem escrito, tenho a impressão que o autor escreve sem esforço algum. Que as palavras fluem naturalmente e o texto vai tomando forma quase como se a coisa toda independesse da vontade de quem escreveu.

E talvez isso se dê exatamente assim com alguns autores.

Mas não com Miguel Esteves Cardoso.

Quando começas a escrever, tens um plano concreto do que será a crónica?
Tenho. Passo pelo menos um dia inteiro a pensar no que vou dizer, mas a pensar mesmo, entre dicionários e apontamentos. Muitos apontamentos. Um moleskine dá-me só para duas crónicas. E aproveito apenas uma pequeníssima percentagem dessas ideias. Uma vez em cada mil, quando faço menos apontamentos, consigo pôr tudo o que pensei dentro da crónica. Mas essas não são as que ficam melhor.

É óbvio que te preocupas muito com o estilo e essa preocupação pode ser um martírio, como explicava o Flaubert.
É um martírio, sim. Toda a gente que escreve crónicas para jornais aprende a aceitar o facto de que muitas vezes o que se entrega é uma merda.

Tens algum mecanismo de auto-avaliação para dizer “isto não presta”?
Sim, sim. Toda a gente tem. Mesmo no seu auge, uma pessoa entrega, no máximo dos máximos, uma crónica boa, sabendo que a seguinte vai ser uma merda, e a seguinte também, e a seguinte também. Ou seja, uma crónica boa em cada quatro. Estou a falar a sério. Já cheguei a pensar que a sequência média era: crónica boa, merda, crónica boa, merda. Mas não é. E se por acaso fizeres duas crónica boas, intervaladas com uma de merda, logo a seguir tens merda, merda, merda, merda, merda.

Daqui.

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meu texto sem alma

15 07 2008

Um comentário sobre o que disse Vonnegut, que eu citei no post anterior.

Parece que na frente de uma página em branco, eu incorporo o espírito de jornalista ou professor e começo a escrever de um jeito tão impessoal e sem personalidade que nem eu agüento ler. Que coisa mais aborrecida!

Cada tentativa de pôr idéias no papel é uma briga contra essa tendência – que eu não sei de onde vem. O que eu venho me perguntando há um tempo é se esse tom professoral – não é “didática” a palavra certa porque pode-se ser didático e divertido ao mesmo tempo – não corresponde ao verdadeiro eu. Credo! Espero que não. Será que sou tão chata assim?

Talvez tenha a ver com os quase 30 anos de escola e treinamento em como escrever textos sem alma. Nessas horas, fico feliz de não ter feito jornalismo.

Aliás, tenho encontrado cada vez mais vantagens em ter feito faculdade de música. Ninguém me cobra nada, por exemplo. Pelo contrário, quando digo que sou formada em música, as pessoas me olham com uma cara de dó. “Tocar violão não pode ser tão bom assim…” – devem pensar. Ou “Coitada, não conseguiu entrar em direito”.

Outra vantagem: jamais vou conseguir um emprego numa estatal. Nem que num dia de desânimo diante da perspectiva de uma carreira acadêmica, sem dinheiro, eu me sinta levemente tentada – God forbid – a prestar um concurso num órgão qualquer do governo, meu diploma é inadequado para a maioria dos cargos oferecidos.

Mas estou divagando. Eu acho que sou uma tradutora mais competente exatamente porque nunca estudei tradução numa faculdade. E o amor por literatura e meu vocabulário pra discutir os livros que eu gosto (que não é lá grande coisa, admito) não foi contaminado pelo jargão da faculdade de Letras.

Mas como eu disse lá no início, a briga contra esse tom impessoal é constante porque o que eu mais leio é artigo acadêmico.

Há quem consiga facilmente assumir outras personalidades quando escreve. É como aquele tipo de pessoa que imita todo mundo mudando a voz ou fazendo uns trejeitos. Os textos soam diferentes um do outro, como se tivessem sido escritos por várias pessoas.

Li outro dia, aqui, pra ser mais precisa, que a capacidade de ver as coisas de maneiras diferentes é um aspecto importante da criatividade e da inteligência.
Acho que esse é um critério fundamental de juízo de valor em literatura – a capacidade de incorporar vozes diferentes no seu texto – e fazê-lo de forma convincente.

Faz sentido pois um romance é composto por personagens que diferem entre si,  cada um com um jeito próprio de falar. E é uma só mente que dá vida a todos eles.

Conheço poucas pessoas que conseguem escapar desse tom impessoal. Mesmo gente que sabe escrever bem. E conheço ainda menos pessoas capazes de variar o tom, escrevendo em vários registros diferentes.





mostre, em seu texto, quem você é de verdade

13 07 2008

Olha que interessante esse texto de Kurt Vonnegut sobre estilo. Ele diz coisas que você, provavelmente, já sabe, mas o início tem uma grande sacada.

Newspaper reporters and technical writers are trained to reveal almost nothing about themselves in their writings. This makes them freaks in the world of writers, since almost all of the other ink-stained wretches in that world reveal a lot about themselves to readers. We call these revelations, accidental and intentional, elements of style.

These revelations tell us as readers what sort of person it is with whom we are spending time. Does the writer sound ignorant or informed, stupid or bright, crooked or honest, humorless or playful– ? And on and on.

Why should you examine your writing style with the idea of improving it? Do so as a mark of respect for your readers, whatever you’re writing. If you scribble your thoughts any which way, your readers will surely feel that you care nothing about them. They will mark you down as an egomaniac or a chowderhead — or, worse, they will stop reading you.

The most damning revelation you can make about yourself is that you do not know what is interesting and what is not. Don’t you yourself like or dislike writers mainly for what they choose to show you or make you think about? Did you ever admire an emptyheaded writer for his or her mastery of the language? No.





Dicta & Contradicta

10 07 2008

Estou lendo “Dicta & Contradicta”, uma revista que foi lançada agora em junho no Brasil.
Comprei o primeiro volume ontem e gostei do que li até agora (são 210 páginas). Tive que pedir em outras lojas da Cultura porque está se esgotando rápido.

Estou lendo aos poucos, saboreando os textos bem escritos (com colaboradores também de Portugal), entre as minhas leituras pra pesquisa e pro exame em setembro.

Trata-se de uma publicação sobre filosofia, literatura, arte, essas coisas. A idéia é lançar o segundo volume em seis meses, o que já mostra cuidado da parte dos editores.

Não sei quanto a vocês, mas me cansei de abrir uma revista desse tipo, publicada no Brasil, e ler de novo sobre Marx, sobre Cuba, sobre Guevara (estômago embrulhando…).
Foi um alívio não ver nada disso até agora.

Dê uma olhada no blog da revista.

Recomendo.





viajar…

8 05 2008

To know what to leave out and what to put in; just where and just how, ah, that is to have been educated in the knowledge of simplicity.

Frank Lloyd Wright





erros tipográficos que você nem sabia que cometia

19 04 2008

Esta é pra quem escreve em inglês ou traduz. Sobre dashes eu sabia porque fui corrigida por um professor. Mas o resto… Não passei nem na metade do teste. E você?

Coisa de nerd? Não. Coisa de profissional.





a guide to writing well

16 03 2008

um link utilíssimo