uma resolução musical

8 01 2009

Resolução de ano novo é mais ou menos como fazer um desejo soprando as velinhas do bolo de aniversário: se contar pra outra pessoa, a coisa desanda. Mas mais honesto que culpar a superstição é admitir que é por negligência nossa que boa parte delas sai do papel para uma existência curta e atropelada.

“Como é que fui pensar que daria conta de mais esse compromisso?”, admitimos depois de uma semana. E então  o novo plano logo murcha para cair de vez no esquecimento. Quer dizer, até o ano que vem. Ele vai voltar à vida lá pelo fim de dezembro quando, com o novo ano, você se sentir capaz de abraçar o mundo mais uma vez.

Mas eu fiquei empolgada com uma ideia que tive pra este ano e queria te contar.

Como é sempre o caso, minha resolução é mais do que eu dou conta, que é onde está a graça da coisa. O plano, no entanto, é bem simples: estou lendo o livro de Tom Moon “1000 Recordings to Hear Before You Die” como uma forma de ampliar meu “menu musical”. Cada dia baixo um ou dois álbuns da lista e ouço com toda atenção.

A idéia parece mais fácil do que realmente é porque estou me propondo a parar o que quer que esteja fazendo e ouvir a música. E estou sendo obrigada a ouvir coisas para as quais nunca dei bola e outras das quais sempre fugi. Agora dá pra entender de onde veio o AC/DC do outro post, não?

E vou te dizer, com uma ponta de orgulho, que estou me descobrindo mais tolerante do que imaginava. Claro, com esses anos todos ouvindo e lendo sobre música, já ouvi muita coisa que não gostava; ouvir o que não me agrada é meio que rotina. Mas ouvia porque tinha que escrever a respeito e pronto.

Agora é diferente. Estou tentando deixar de lado meu nariz empinado e me abrindo à música. E estou surpresa porque descobri algumas coisas novas que gostei muito.

Claro, trata-se de uma lista bem escolhida e a maioria do que está lá tem seu mérito. Lembre-se que é a escolha de um moribundo; o autor vende a ideia de que realmente vale a pena ouvir tudo isso antes de ir embora. Coisa séria, tá pensando o quê?

Então escuto cada álbum  com respeito, com a garantia do autor, que todos têm razões especialíssimas para entrar na lista, enquanto vários milhares ficaram de fora.

Sim, sim, há um bocado de pretensão por trás da idéia de se escrever um livro com um título – e objetivo – pomposo desses. Mas acho que pode funcionar se você não levar a coisa tão a sério. (Agora me diz se não é engraçado ouvir isso de uma etnomusicóloga).

Aliás, como não poderia ser diferente, já saquei do meu estetoscópio etnomusicológico (sim, existe esse treco) e me pus a auscultar minhas reais intenções pra embarcar num projeto desses. O que estou fazendo?

Pra ser bem sincera, é uma coisa bem despretensiosa. Estou mesmo a fim de conhecer coisas novas. E o livro ajuda a organizar as coisas. Por mim mesma, acabo sempre voltando às coisas que mais gosto; estava um pouco enjoada.

Cheguei também à conclusão que o livro meio que assumiu a função da obsoleta capinha do CD com informações sobre a gravação. Embora seja um pouco diferente porque inclui também uma ou outra fofoquinha sobre os músicos, além dos tracks preferidos do autor. Ele também sugere outros álbuns que poderiam te agradar se você gostou do que ouviu.

A Wikipédia tem muito do que está no livro. Mas, veja bem, é diferente “folhear” a informação. Todo mundo sabe que por mais que o nosso cérebro passe batido por uma informação que lê online, há grande chance de que não faça o mesmo se ler a mesmíssima frase num livro impresso.

Ler os comentários do autor não deixa também de ser uma maneira de “possuir” a música, já que um arquivo no laptop está longe de me fazer sentir que a música me pertence. Você também tem essa sensação? E ouvir o álbum todo também tem um pouco disso: ouvindo, me aproprio da música. “Pronto, acabei”, digo no final. E decido se vou ouvir de novo coisas daquele tipo ou se já deu. Em outras palavras, outra ilusãozinha minha meu poder sobre a música.

Mesmo assim, só leio os comentários de Moon depois de ouvir: não precisamos que alguém nos diga do que gostar, não é? Mas a idéia dele nem parece ser essa.

Nem se trata de “estudar” a música. Mas expandir meu universo musical, seja pelo maior contato com coisas que não conheço direito ou me aprofundando em conhecer aquilo que eu só ouvi de raspão.

Enfim, uma brincadeira leve – pelo menos, até os compromissos acadêmicos voltarem com tudo – e divertida. Vamos ver se consigo levar a coisa adiante. Te falo.





AC/DC, Provérbios 22:6 e uma confissão

6 01 2009

“Ensina a criança no caminho em que deve andar e quando for velho não se desviará dele”

Provérbios 22: 6

Escrevo ao som de “Hell’s Bells” de AC/DC. Eu, que venho de uma família evangélica, cujo pai proibia os filhos, não só de ouvir, mas de ter em casa, qualquer som que não falasse de Jesus. Então, faça uma ideia  de como isso é libertador.

Na verdade, sempre achei irônico que eu tenha escolhido por profissão a musicologia, que me obriga a escutar de tudo. Quem sabe essa escolha não foi um ato inconsciente de rebeldia?

Voltando à minha (des)educação musical, me lembro de ter lido na adolescência um artigo onde o autor alertava – horrorizado e horrorizando – para o poder destrutivo da música de AC/DC. Analisou a letra de “Hell’s Bells”, levou tudo ao pé da letra e disse que aquilo tinha nascido no inferno, uma inspiração do diabo, da qual deveríamos manter distância.

É grande o poder de convencimento das coisas que nos falam quando ainda somos crianças. Terá sido esse o motivo porque nunca parei pra ouvir AC/DC? Ouvir, ouvi. Mas nunca por vontade própria.

“Não gosto”, sempre repeti. Agora, estou achando mesmo é que me convenci que meu gosto musical não comporta AC/DC. Que a música é simples demais e destoa da minha inclinação pelas harmonias requintadas do jazz , pelas melodias modais de Bártok ou de alguma outra coisa complicada que eu achei em Brahms, Beethoven, ou qualquer coisa que não seja hard rock.

Ou talvez essa seja uma mentira conveniente que eu venha contando pra mim mesma durante tantos anos. A verdade é que ando mantendo distância de hard rock porque desde bem pequena ouço que é musica do capeta.

Nossa identidade musical é definida mais pelo que detestamos do que pelo que gostamos de ouvir. E não gostar de rock é o que eu escolhi pra me definir, um tipo de “avatar musical”.

E olha, admito que arrastei o arquivo para o iTunes com um tiquinho de desconforto. Assim, um poucochinho, ainda que irrelevante, de hesitação.

Mas meu desassossego durou pouco. Parei tudo o que estava fazendo e ouvi o álbum todo, prestando muita atenção em cada detalhe. Em alguns momentos, me remexi, impaciente, na cadeira com as letras na voz esganiçada e sensacional de Brian Johnson.

E para desgosto do meu pai, que nem faz ideia dos caminhos musicais tortuosos que eu ando percorrendo, gostei muito do álbum todo.

Não é que a guitarra de Angus Young é uma coisa espantosa? Ou eu deveria dizer “diabolicamente” espantosa?

Ou seja, acho que essa minha experiência de hoje é um exemplo de que sempre é possível encontrar a luz (ou se afastar dela, na opinião de muitos).

Agora tente adivinhar de qual música eu gostei mais.





música e rótulos

18 11 2008

It’s an obvious fact that the world is teeming with different kinds of music: traditional, folk, classical, jazz, rock, pop, world, just to name a few. This has always been the case, but modern communications and sound reproduction technology have made musical pluralism part of everyday life. (You can hear this every time you walk through a shopping mall.) And yet, the ways we think about music don’t reflect this. Each type of music comes with its own way of thinking about music, as if it were the only way of thinking about music (and the only music to think about). In particular, the way of thinking about music that is built into schools and universities—and most books about music, for that matter—reflects the way music was in nineteenth-century Europe rather than the way it is today, anywhere. The result is a kind of credibility gap between music and how we think about it.

do livro “Music: a Very Short Introduction” de Nicholas Cook,

“Cada tipo de música traz consigo uma maneira própria de se pensar sobre música, como se esta fosse a única maneira de se pensar sobre música (e esta, a única música a ser examinada)”.

E traz também um modo peculiar de escuta. E também um jeito de se conversar sobre essa música. E uma atitude estética com relação a tudo.

É por isso que você odeia sertanejo com todas as suas forças. A música pode não ser grande coisa, mas o que você odeia mesmo – talvez mais que a música em si – é o contexto, a cultura que cerca aquele estilo, o jeito de falar da música, os valores de quem gosta daquilo.

Nós não somos capazes de isolar a música desses contextos. Na nossa mente, é tudo uma coisa só.
E acho que Cook vê isso como um tipo de prisão, o que eu concordo. No caso do sertanejo, você pode achar que faz sentido colocar tudo num saco só e pensar que quem está envolvido na produção daquela música é igual a quem consome: tudo horroroso.

Não é isso que eu estou discutindo aqui. Principalmente porque o argumento de Nicholas Cook independe do gênero musical: ele se aplica a todo tipo de música. Em outras palavras, alguém está te enquadrando num tipo específico de “tribo” por causa do tipo de música que você ouve. Mesmo que você esperneie e diga que ouve heavy metal mas toma banho todo dia.

Nicholas Cook está dizendo que nós aplicamos formas fixas de pensamento a outros gêneros e passamos a pensar música naqueles termos somente. Se você só ouve música clássica, acaba criando resistência a ouvir outros estilos porque seus hábitos de escuta e a linguagem que você usa pra falar daquela música treinaram a sua percepção e seu gosto. Mas mais importante que isso, a cultura da música clássica pode impedir que você entenda e aprecie uma cultura musical diferente como jazz, por exemplo.

Isso porque você já associou música clássica a sofisticação, erudição, refinamento, introspecção, sobriedade, sisudez, melancolia e maturidade. E rock você já associou a rebeldia, energia, imaturidade, emoção, juventude, inconseqüência e liberdade. Não é capaz de aplicar as características de um estilo no outro.

Esses adjetivos são, na verdade, elementos extra-musicais, atitudes que aparecem principalmente na biografia dos músicos. Aparecem também nas letras das músicas, claro, o que não deixa de ser importante. No entanto, tais palavras passam a ser a própria definição daquele gênero musical e são adotadas como filosofia de vida pelos ouvintes. E tornam-se a própria definição de música.

“Rock é rebeldia”! “Beethoven é melancólico”, diz você.

E só aprendemos a ouvir música sem tais rótulos depois de algum treino. A maioria não aprende.

E precisa aprender a fazer isso pra poder curtir a música? pergunta você.

Não. Mas é meu trabalho ficar perguntando essas coisas.





entrevista com Simon Frith (ii)

16 11 2008

(continuação da minha tradução comentada da entrevista de Simon Frith, etnomusicólogo e crítico de rock, à revista online “Perfect Sound Forever”. A primeira parte está aqui).

O entrevistador pergunta se Frith acha que a integração das mídias vai tornar mais difícil para os músicos desenvolverem um estilo único e pessoal. Frith é otimista com relação a isso porque acha que as pessoas ainda se interessam por música ao vivo.

Não importa o quanto um álbum de sucesso venda e o quanto a indústria domine isso, eles nunca conseguirão acabar com a necessidade das pessoas de assistir música por si mesmas. Uma das coisas que nós ainda desconhecemos é que, de várias maneiras, a revolução digital permitiu que este tipo de música chegue até o consumidor sem o auxílio de nenhuma estrutura corporativa gigantesca e isto de maneiras que provavelmente não eram possíveis antes. A distribuição tornou-se muito mais fácil. Isto permite que contextos musicais muito pequenos comuniquem-se uns com os outros sem ter que lidar com a AOL-Time-Warner. Se isto vai durar ou se o sistema de música digital vai continuar gratuito ainda não se sabe. É muito cedo pra deduzir.

Particularmente, acho que a busca e necessidade por música ao vivo são coisas que variam muito dependendo do acesso que se tem à música digital. Onde há grande oferta de música digital as pessoas podem não se animar a sair de casa para curtir música ao vivo. Há, claro, situações específicas como música ao vivo acontecendo em igrejas. Ou mesmo o caso de músicos – sempre interessados em música ao vivo – que se reúnem pra tocar ou assistir outro músico.

Há ainda os contextos em que ouvir música não é o objetivo principal do encontro (por exemplo, um som ao vivo num barzinho). Fora estes exemplos, eu me pergunto como é que a resposta dele se encaixaria numa cidade como São Paulo, por exemplo. Como é a cena musical em São Paulo? Eu realmente não sei responder.

De qualquer modo, essas cenas são diferentes em cada lugar, dependendo do país, cidade ou mesmo bairro.

A seguir, Frith fala da experiência dele com jovens, que confirma a idéia de que os rapazes são mais propensos a colecionar álbuns do que as garotas. Ele não tem uma explicação pra isso. Eu acho que talvez os rapazes façam isso com a idéia de usar tal conhecimento para atrair as garotas. Se funciona ou não, é outra conversa.

Frith vê o jornalismo musical funcionando principalmente como um mecanismo de feedback para as gravadoras. Segundo ele, o que as gravadoras conseguem com os críticos é que eles são as primeiras pessoas a reagir a uma gravação com certo grau de independência porque estão tentando alcançar os leitores para os quais escrevem.

Portanto, as gravadoras conseguem ter uma dica sobre o sucesso ou não de uma gravação e se vale a pena promovê-lo ou não. No geral, no entanto, não acredito que os críticos tem muita influência no que as pessoas escolhem comprar. Ouvir um álbum é muito mais importante do que ler a respeito dele.

Taí. Um crítico é mais útil para a gravadora do que para o público. Isso quem está falando é um ex-crítico.

PSF: Nesse contexto, você está falando de resenhas ao invés de textos de reflexão.

Frith: Sim. Boa parte do jornalismo (musical) que se vê diária ou semanalmente é alguém cobrindo a turnê de alguém, algum concerto, ou uma gravação. Textos de reflexão, que ajudam a definir um gênero musical, são desejáveis, mas muito mais raros.

PSF: Então qual seria o objetivo de tais textos de reflexão?

Frith: Eu acho que, em parte, tem a ver com o fato de que é um jeito do jornalista freelancer ganhar algum dinheiro vendendo histórias! (risadas) Tipo, encaixando sua matéria no caderno de artes e tornando-se um tipo de intelectual. Mas falando em termos menos sarcásticos, estes textos podem ser importantes para articular as opiniões de um tipo específico de comunidade musical, de modo que você tem um registro escrito de um gênero em um certo tempo. NME, um dos últimos semanários da Inglaterra ainda expressa mais ou menos o que entende ser as preferências dos seus leitores, o que elas representam para a história do rock e que tipo de banda eles resolveram curtir e porquê. Eles proporcionam à indústria e à audiência um modo de falar. Mas eu não acredito que isto ocorra antes do evento em si (gravação, show, etc.).

PSF: Qual a importância destes textos para o leitor?

Frith: Eu não sei. Quando eu estava no Melody Maker (outro periódico semanal de música britânico), descobrimos que, do ponto de vista dos leitores, eles estavam muito mais interessados em notícias e resenhas e na agenda dos shows do que em textos de reflexão. As pessoas liam sobre os artistas que lhes interessavam. Não estava claro se elas estavam interessadas em ler textos de reflexão sobre o estado da música. Eu acho que textos de reflexão sobre música teriam que ser vistos mais como incluídos entre os textos de reflexão de outras formas de arte e menos no contexto de jornalismo sobre rock. Em outras palavras, se você pegar um bom artigo de um jornalista como Bob Christgau do Voice, ele seria lido junto com outros textos sobre literatura ou arte ou teatro.

PSF: Mas você vê resenhas de discos lá (Voice) também.

Frith: Sim, mas eles têm uma função completamente diferente.

(esta entrevista continua num outro post)





entrevista com Simon Frith (i)

13 11 2008

Simon Frith é um etnomusicólogo que escreve sobre música popular. Ele começou como crítico escrevendo sobre rock e acabou concluindo um doutorado em UCBerkeley.

Ele escreveu “The Sociology of Rock” (1978) e “Performing Rites: On the Value of Popular Music” (1996).

Frith concedeu uma entrevista para a revista online de música “Perfect Sound Forever”, onde ele falou de coisas como indústria cultural, preços de CDs, colecionadores de discos, jornalismo musical, crítica musical, a influência da mídia na vendagem de discos e o que é escrever sobre música.

É sobre alguns trechos dessa conversa que eu queria falar aqui.

Eu gosto de ler entrevistas de pesquisadores que já publicaram bastante sobre determinado assunto porque, neste formato, muitos deles conseguem escapar dos vícios de linguagem e do jargão da academia e colocar suas idéias de modo mais acessível.

Recomendo a leitura da entrevista toda. Se seu inglês não permite isso, minha versão das respostas dele talvez te seja útil (não é uma tradução ipsissima verba). Incluí minhas impressões sobre o que ele diz.

Primeira observação que ele faz sobre a indústria cultural: “um aspecto que é peculiar a este segmento é que paga-se o mesmo por diferentes produções musicais independentemente do custo da produção”. Ele afirma que, na verdade, quanto maior a demanda, mais barato é o produto. E qual a explicação pra essa peculiaridade? Segundo Frith, a indústria fonográfica investe dinheiro em coisas que não trazem lucro (pelo menos não diretamente) e recupera o investimento na venda de produções que geram grande lucro. O negócio é maximizar as vendas de produtos populares e minimizar as vendas dos não tão populares.

Confesso que, a princípio, não entendi muito bem quais seriam esses “produtos não-populares”. Acho que ele está se referindo àquelas produções que não deram certo. De fato, a indústria fonográfica não tem como acertar sempre; produção musical é um negócio de alto risco (ele volta a falar disso mais pra frente).

Acho que isso tem duas implicações. Primeiro, mostra como qualquer avaliação deste mercado é uma coisa imprevisível e até nebulosa – uma falta de transparência que as próprias empresas envolvidas talvez prefiram manter – e ninguém sabe avaliar direito o que acontece direito com os processos de produção musical das grandes gravadoras. Acho que a coisa toda é um tipo de caixa preta, um sistema que segue sua própria lógica.

Segundo, esse lado arriscado das produções musicais explica porque as empresas usam agressivamente todo e qualquer recurso para impedir que seus negócios sejam ameaçados (como o combate à pirataria). Existe muito investimento envolvido.

Outra observação de Frith:

“Sempre se assumiu que, em se tratando de indústria cultural, as pessoas não escolhem as obras por causa do preço. (…) Elas não preferem Eminem a Pink ou a The Streets por causa do preço.

Com os CDs digitais, gravações podem existir para sempre e há um catálogo muito maior de itens antigos; portanto, há menos incentivo para se comprar os novos lançamentos. Então, eu acho que este tipo de custo está começando a ter um efeito. Um catálogo com itens mais antigos é mais barato e as pessoas não estão tão dispostas a comprar algo novo, que elas nunca ouviram e que custa mais. (…) O aumento da oferta e das opções de escolha será enorme e o preço vai acabar sendo um fator mais importante na decisão.”

Faz sentido. Mas eu levaria em consideração o fato de que muitas das novidades são lançamentos atuais de nomes consagrados. Acho que esse é um filão que talvez fuja um pouco dessa análise que ele faz.

Outro aspecto é que para as novas gerações de consumidores, o “clássico” talvez seja tão novidade quanto aquela banda lançada ano passado.

Uma pergunta sobre o “silêncio como um produto a ser comercializado”:

Frith concorda que esta é uma tendência é cita resorts, praias e condomínios fechados como variações dessa idéia: as pessoas pagam para fugir dos ruídos da cidade.

Eu diria que outro exemplo de como isto já está acontecendo é o sucesso de vendas dos fones de neutralizador de ruído (noise cancelling). Caríssimos e que se tornaram um produto extremamente popular (eu também quero um!). Aliás, só eles tornariam viável a idéia dele de uma gravação de silêncio.

“Com o mundo tornando-se cada vez menor, será difícil manter-se as diferenças entre os estilos musicais?

Frith aposta na capacidade criativa dos músicos. E eu concordo. Num mundo de mesmices, há pessoas fazendo coisas incrivelmente originais (enquanto outros, é claro, são virtuoses em copiar).

Outra coisa é que as tradições musicais evoluem – muitas vezes na marra, a contragosto mesmo – e conseguem se diferenciar do que veio antes, mas ainda assim mantendo certa coerência de estilo ao incorporar novos elementos.

(minha “conversa” com Frith continua aqui)





Wisnik sobre Machado

2 11 2008

A Folha online publicou hoje um artigo sobre um livro novo de Zé Miguel Wisnik, um ensaio sobre o conto  “Um Homem Célebre” de Machado de Assis.

Eu já tinha lido o conto e achei interessante a idéia da análise — histórico-etnomusicológica, sim, senhor — da peça de Machado. A idéia é muito boa porque Machado é um maravilhoso comentarista do seu tempo. E embora esta seja uma obra de ficção, é também um relato detalhado de uma prática musical importante daquela época.

Então li o conto de novo porque, até onde me lembrava, não tinha entendido a história nos mesmos termos que Wisnik. Pelo menos no trecho da introdução que a Folha pôs online aqui.

Eu nem li o livro de Wisnik; só esse trecho que a folha publicou. Então é possível que o autor venha a esclarecer (ou retificar) o que escreve nesse início e que eu achei particularmente problemático:

Já a impossibilidade de criar sonatas, sinfonias e réquiens, em Pestana, não se resume na incapacidade de compor, mas corresponde a um deslocamento involuntário do impulso criativo em direção à língua comum das polcas, com espantosa força própria, o que faz do compositor não só uma individualidade em crise mas um índice gritante da cultura, um sinal da vida coletiva, um sintoma exemplar de processos que o conto põe em jogo com grande alcance analítico, e que são muito mais complexos do que a leveza dançante da narrativa faz supor de imediato.

Eu acho que, pelo contrário, a impossibilidade de Pestana de criar sonatas resume-se sim à sua incapacidade de escrever música numa linguagem mais sofisticada. Longe de ser um deslocamento involuntário, é o universo musical que ele conhece e habita. Embora ele seja um compositor bem sucedido de polcas, não consegue compor réquiens, sonatas e sinfonias, que são gêneros que exigem outro grau de competência.

E não consigo ver como Machado o coloca como “sinal da vida coletiva” se ele é um dos poucos privilegiados que têm acesso a estes dois mundos (o popular e o erudito) e é, ao mesmo tempo, o principal responsável pela disseminação do gênero musical que tanto despreza. Ninguém mais pode fazer o que ele faz. Tanto é verdade que ele é um tipo de celebridade, grandemente admirado pela sua obra. As polcas, das quais ele passa o conto inteiro tentando escapar, saem — com incrível facilidade — dos seus próprios dedos e vão alimentar o mercado de venda de partituras.

Outro trecho:

Se somados a essa ilusão os interesses do mercado, que o conto satiriza com precisão hilariante, e que começavam a explorar, no fim do século 19, o futuroso filão da música popular urbana por meio do comércio de partituras, temos, mais refinada, embora ainda insuficiente, uma leitura que identifica no conto uma crítica pioneira da cultura de massas, e pela qual restaria ao artista o papel do peão impotente entre a alienação de uma arte que não descreve o meio em que atua e um mercado que instrumentaliza seus esforços vãos para os fins do lucro.

O viés Adorniano não podia faltar, claro (senão não é academia). Mas eu realmente não consigo ver essa crítica como um aspecto tão crucial do conto. Está lá, sim, mas Pestana não me parece tão impotente assim. Observe que ele fica dois anos sem compor. Volta por necessidade, claro. Mas o representante do mercado parece lhe oferecer condições tão confortáveis de trabalho. E, de novo, vejo sua submissão aos pedidos do editor como a única alternativa que restou a um músico que não tem talento para compor numa linguagem musical mais exigente.

Enfim, análises etnomusicológicas à parte, o conto é uma obra-prima. O que li nessa introdução me deixou curiosa, apesar de não fazer a mesma leitura da história.

E posso sugerir um livro muito bom que trata da música no Rio de Janeiro nesse período? Trata-se de “Music in Imperial Rio de Janeiro: European Culture in a Tropical Milieu” de Cristina Magaldi, que eu não sei se tem tradução para o português.

Termino esse comentário meu sobre o livro de Wisnik — que espero pedir que alguém me mande daí — com um trecho do conto. Que é de uma beleza única, marca desse brasileiro que eu adoro:

Poucos dias depois — uma clara e fresca manhã de maio de 1876 — eram seis horas, Pestana sentiu nos dedos um frêmito particular e conhecido. Ergueu-se devagarinho, para não acordar Maria, que tossira toda a noite, e agora dormia profundamente. Foi para a sala dos retratos, abriu o piano, e, o mais surdamente que pôde, extraiu uma polca. Fê-la publicar com um pseudônimo; nos dois meses seguintes compôs e publicou mais duas. Maria não soube nada; ia tossindo e morrendo, até que expirou, uma noite, nos braços do marido, apavorado e desesperado.

Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acréscimo, porque na vizinhança havia um baile, em que se tocaram várias de suas melhores polcas. Já o baile era duro de sofrer; as suas composições davam-lhe um ar de ironia e perversidade. Ele sentia a cadência dos passos, adivinhava os movimentos, porventura lúbricos, a que obrigava alguma daquelas composições: tudo isso ao pé do cadáver pálido, um molho de ossos, estendido na cama… Todas as horas da noite passaram assim, vagarosas ou rápidas, úmidas de lágrimas e de suor, de águas-da-colônia e de fg(213,’Labarraque,’)Labarraque, saltando sem parar, como ao som da polca de um grande Pestana invisível.

Enterrada a mulher, o viúvo teve uma única preocupação: deixar a música, depois de compor um Réquiem, que faria executar no primeiro aniversário da morte de Maria. Escolheria outro emprego, escrevente, carteiro, mascate, qualquer coisa que lhe fizesse esquecer a arte assassina e surda.

Começou a obra; empregou tudo, arrojo, paciência, meditação, e até os caprichos do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e estudou o Réquiem deste autor. Passaram-se semanas e meses. A obra, célere a princípio, afrouxou o andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava-a incompleta, não lhe sentia a alma sacra, nem idéia, nem inspiração, nem método; ora elevava-se-lhe o coração e trabalhava com vigor. Oito meses, nove, dez, onze, e o Réquiem não estava concluído. Redobrou de esforços; esqueceu lições e amizades. Tinha refeito muitas vezes a obra; mas agora queria concluí-la, fosse como fosse. Quinze dias, oito, cinco… A aurora do aniversário veio achá-lo trabalhando.

Contentou-se da missa rezada e simples, para ele só. Não se pode dizer se todas as lágrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos, foram do marido, ou se algumas eram do compositor. Certo é que nunca mais tornou ao Réquiem.





the society for ethnomusicology conference

26 10 2008

Uma folguinha na correria que está sendo essa conferência. Depois de uma manhã de painéis (quatro papers diferentes), todo mundo teve acesso a comida – com direito a cookies de sobremesa – e bebida de graça.

A conferência está acontecendo na Wesleyan University em Middletown. Uma paisagem que fica ainda mais linda com a troca da folhagem das árvores neste início de outono. É um lugar lindíssimo que eu te mostraria se minhas habilidades fotográficas fossem melhores. O tempo está ajudando: ontem choveu como eu não via há muito tempo. Teve gente que se aventurou na chuva e ficou encharcada em segundos. Mas hoje abriu um sol maravilhoso, embora esteja friozinho.

Hoje, a tarde é livre. Como recreação, estão oferecendo aulas de ioga e taichi (!) que eu dispensei. Olha, tais aulas só poderiams ser oferecidas numa conferência de etnomusicólogos mesmo. Aliás a comida ontem era toda oriental (tailandesa e algumas outras que eu nem tive tempo de provar). Há concertos de gamelão, música indiana, africana, e uma porção de outras culturas diferentes; danças e recepções à noite. Como a conferência é no campus, há internet de graça pra todos os participantes (foi distribuída uma senha pra quem se inscreveu na conferência).

Então aproveitei essa folga e vim me refugiar no meu laptop, que funciona meio que como um oásis pra quem já cansou de ser social. Não é muito fácil conversar por tanto tempo com tanta gente diferente.

Aproveitar bem uma conferência gigantesca como essa exige um pouco de planejamento. O pior erro é tentar acompanhar demais do que é oferecido. Há um limite para o que se pode absorver intelectualmente e o meu deve ser bem baixo. Não adianta tentar ultrapassar. Mas chato mesmo é quando há vários papers interessantes sendo apresentados ao mesmo tempo e você tem o azar de acabar escolhendo o pior deles.

É legal ver tanta gente estudando músicas não ocidentais – ou músicas que não são tão presentes na mídia. Ou ainda gente estudando essas músicas mais presentes, mas trazendo uma nova perspectiva para o modo como nós podemos vê-las.

Boa parte dos etnomusicólogos que eu conheço são músicos além de acadêmicos – pelo menos os melhores são sempre excelentes instrumetistas. E há muita gente andando por aqui com seus instrumentos. Uma das minhas roommates na verdade é uma citarista e hoje acordei com o som do instrumento. Ela estava praticando para o concerto de logo mais à noite. Lindo o som e muito agradável de ouvir. Ela parece ser uma instrumentista bem experiente. É uma etnomusicóloga formada que não conseguiu emprego numa universidade norte-americana.

Conheci várias pessoas. Revi algumas outras. Gente pesquisando tópicos tão diferentes do que o que me atrai no momento e também gente interessada em exatamente a mesma coisa – mas em outros lugares do mundo. Não encontrei ninguém trabalhando com música evangélica em São Paulo. Vi muita gente estudando, sim, coisas brasileiras, mas interessada em outros tipos de música. Aliás, hoje assisti um paper sobre bossa nova, apresentado por uma moça bem estressada e com uma certa indisposição para ouvir opiniões diferentes da sua.

Academia é uma carreira solitária e uma conferência da SEM consegue a proeza de reunir esse bando de pesquisadores solitários que trabalham em diferentes partes do mundo. É uma sensação boa ver tanto etnomusicólogo junto. Pelo menos durante cinco dias, você não está mais tão só. Também é muito bom ver os rostos por trás dos textos em livros e papers.

Por outro lado, assusta um pouco saber que há tanta gente por aí competindo por um emprego – há muitos estudantes aqui também. Muita gente terminando suas dissertações e tentando entrar no mercado.

Estou gostando muito e aproveitando. Apesar de algumas figurinhas esquisitas de ego inflado demais. Mas tenho certeza de que não são exclusividade da etnomusicologia.