AC/DC, Provérbios 22:6 e uma confissão

6 01 2009

“Ensina a criança no caminho em que deve andar e quando for velho não se desviará dele”

Provérbios 22: 6

Escrevo ao som de “Hell’s Bells” de AC/DC. Eu, que venho de uma família evangélica, cujo pai proibia os filhos, não só de ouvir, mas de ter em casa, qualquer som que não falasse de Jesus. Então, faça uma ideia  de como isso é libertador.

Na verdade, sempre achei irônico que eu tenha escolhido por profissão a musicologia, que me obriga a escutar de tudo. Quem sabe essa escolha não foi um ato inconsciente de rebeldia?

Voltando à minha (des)educação musical, me lembro de ter lido na adolescência um artigo onde o autor alertava – horrorizado e horrorizando – para o poder destrutivo da música de AC/DC. Analisou a letra de “Hell’s Bells”, levou tudo ao pé da letra e disse que aquilo tinha nascido no inferno, uma inspiração do diabo, da qual deveríamos manter distância.

É grande o poder de convencimento das coisas que nos falam quando ainda somos crianças. Terá sido esse o motivo porque nunca parei pra ouvir AC/DC? Ouvir, ouvi. Mas nunca por vontade própria.

“Não gosto”, sempre repeti. Agora, estou achando mesmo é que me convenci que meu gosto musical não comporta AC/DC. Que a música é simples demais e destoa da minha inclinação pelas harmonias requintadas do jazz , pelas melodias modais de Bártok ou de alguma outra coisa complicada que eu achei em Brahms, Beethoven, ou qualquer coisa que não seja hard rock.

Ou talvez essa seja uma mentira conveniente que eu venha contando pra mim mesma durante tantos anos. A verdade é que ando mantendo distância de hard rock porque desde bem pequena ouço que é musica do capeta.

Nossa identidade musical é definida mais pelo que detestamos do que pelo que gostamos de ouvir. E não gostar de rock é o que eu escolhi pra me definir, um tipo de “avatar musical”.

E olha, admito que arrastei o arquivo para o iTunes com um tiquinho de desconforto. Assim, um poucochinho, ainda que irrelevante, de hesitação.

Mas meu desassossego durou pouco. Parei tudo o que estava fazendo e ouvi o álbum todo, prestando muita atenção em cada detalhe. Em alguns momentos, me remexi, impaciente, na cadeira com as letras na voz esganiçada e sensacional de Brian Johnson.

E para desgosto do meu pai, que nem faz ideia dos caminhos musicais tortuosos que eu ando percorrendo, gostei muito do álbum todo.

Não é que a guitarra de Angus Young é uma coisa espantosa? Ou eu deveria dizer “diabolicamente” espantosa?

Ou seja, acho que essa minha experiência de hoje é um exemplo de que sempre é possível encontrar a luz (ou se afastar dela, na opinião de muitos).

Agora tente adivinhar de qual música eu gostei mais.

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forced to take with shame our own opinion from another

4 12 2008

“In every work of genius we recognize our own rejected thoughts: they come back to us with a certain alienated majesty. Great works of art have no more affecting lesson for us than this. They teach us to abide by our spontaneous impression with good-humored inflexibility then most when the whole cry of voices is on the other side. Else, tomorrow a stranger will say with masterly good sense precisely what we have thought and felt all the time, and we shall be forced to take with shame our own opinion from another.”

Ralph Waldo Emerson, “Self-Reliance” (1841)

Mas o mérito não está em ter a idéia mas sim ter imaginação suficiente para visualizar o pensamento transformado em realidade, coragem para encarar o risco de um possível vexame e disciplina e talento para colocá-la em prática.





Lobão, Nelson Motta e algumas verdades

21 11 2008

Li algumas reações à uma entrevista de Nelson Motta e Lobão há uns dias. Gente revoltadíssima com críticas a São Chico Buarque e São João Gilberto.

No Brasil, não pode falar mal desses caras.

Lobão fala muita besteira e tem um tom irritante e usa muito palavrão. Daí acaba alienando muita gente. Mas achei que falaram umas verdades também. Umas coisinhas que ninguém gosta de ouvir.

“No Brasil quem faz sucesso fica deprimido porque não é pobre”, disparou Lobão. “O Tom Jobim foi chamado de lacaio do capitalismo porque fez sucesso nos Estados Unidos. No Brasil se cultua o voto de pobreza.”

Concordo. Só não vê isso quem não quer. Isso está em todo lugar: da música à literatura, passando pela política.

Nelson Motta foi além:

“É uma mentalidade pobrista. Ninguém assume responsabilidade por nada. Se um cara mata, a culpa é da sociedade. Ora, existem fracassos e escolhas individuais. Temos que mudar essa atitude e passar a celebrar a vitória.”

(…)

“As pessoas acham que quem fazia sucesso na década de 70 era Chico Buarque e Caetano Veloso. Errado, eles só eram ouvidos pela classe média alta. Quem vendia e fazia shows eram Waldick Soriano, Odair José, Antonio Marcos… E eram músicos muito corajosos. Em plena ditadura, o Agnaldo Timóteo teve a coragem de gravar uma música chamada Galeria do amor, sobre a Galeria Alaska, em Copacabana, um ponto de encontro gay.

“Isso foi mais subversivo que 10 discos de Geraldo Vandré”, continuou Nelson. “E Odair José foi censurado porque lançou a música Pare de tomar a pílula em plena campanha de controle da natalidade.”

O Brasil não quer saber de outros nomes que não a trilogia Tom, Chico e Caetano. Estes nomes que Motta mencionou não são interessantes. Não se escreve sobre eles e nem se comenta a sua obra. Parece que não houve mais nada além da bossa nova.

A obsessão brasileira com a bossa nova é das coisas mais irritantes da cultura musical no Brasil.





Dora Kramer e a eleição americana para os brasileiros

13 11 2008

Agora que a empolgação com a eleição de Obama diminuiu um pouco (ou não?), eu queria postar um texto (na verdade, dois textos) que li, onde a autora comenta esse momento.

Minha ficha demorou a cair, mas finalmente parei de ler Reinaldo Azevedo. Cansei daquele tom amargo e do humor sem-graça para explicar o que deu errado com seu candidato republicano. Na verdade, para explicar o que há de errado com o novo presidente. Não leio mais nada do que ele escreve sobre os EU.

Esta eleição me abriu os olhos.

Também me renovou a admiração por uma colunista do Estadão: Dora Kramer. Um dos textos mais lúcidos sobre a recepção da eleição de Obama aqui no Brasil veio dela. E uma comparação entre Obama e Lula, que vai te deixar desolado por te mostrar um outro lado hopeless dessa figura patética que é o nosso presidente. Dora Kramer tem sido bem crítica do governo Lula, — coisa fácil de fazer, eu sei — mas sendo capaz de mostrar como é nociva a sua incompetência e falta de ação para arbitrar assuntos importantes para o país.

Reproduzo aqui porque só é acessível a assinantes e também porque quero voltar aqui pra ler isso mais vezes. O segundo texto é uma mensagem a todos os anti-americanos do Brasil e do mundo. Os textos são do dia 6.

Dora Kramer – Artimanhas da esperança

Diante de tão farta e variada oferta de interpretações sobre os simbolismos da eleição de Barack Obama, mais fácil é saber o que não terá significado algum no decorrer do mandato do presidente eleito dos Estados Unidos.

A explicação ele mesmo forneceu quando teve desde o início da jornada o tirocínio de dar à cor da pele o molde de uma quase irrelevância. Na saudação pós-vitória, seguiu indiferente enquanto o mundo insistia em lhe pregar ao peito a divisa de “primeiro presidente negro dos Estados Unidos”.

É dele, evidente, o título: o senador democrata é negro, foi eleito presidente e, antes dele, apenas americanos de pele branca tinham chegado à Casa Branca.

Ponto, parágrafo e encerra-se aí a questão, cuja importância objetiva é parecida com a influência concreta que a profissão de torneiro mecânico exerce sobre as atividades de Luiz Inácio da Silva como presidente da República do Brasil.

Sim, há toda a carga histórica do segregacionismo nos Estados Unidos, situação só por ligeireza absoluta comparável à ascensão de um operário que ao se eleger presidente havia militado por 30 anos no sindicalismo e na política. Lula foi uma novidade, não uma surpresa.

Entretanto, há quem – começando pelo presidente brasileiro – os iguale no terreno da representação simbólica da luta do bem contra o mal, exemplos de que o triunfo dos oprimidos sobre os opressores é possível, como se a evolução dos costumes, as mudanças do mundo não fossem parte de um processo natural da civilização.

Mas se a humanidade necessita de emoldurar como fenômeno os episódios marcantes dessas etapas, se carece de dar um valor específico à mobilização de suas expectativas, muito bem. Com esperança não se brinca.

Daí a dizer que o mundo vira do avesso e assume sua melhor face por causa da genética de um presidente já é querer fazer pouco da realidade.

Esta, em seu bom senso e modernidade, Barack Obama descreveu numa frase do discurso de Chicago ao listar os desafios à sua frente: “Duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira do século”.

Citou o “caminho longo”, a “subida íngreme”, os “atrasos e falsos inícios” que esperam a todos, aos quais acrescentou as discordâncias às “decisões políticas” que tomará como presidente, a fim de estabelecer um contraponto futuro com o clima de comemoração daquela noite de frisson universal.

Nem a cor da pele de Obama nem o manejo do torno do metalúrgico Lula são capazes de administrar, muito menos de atender, expectativas. A diferença é que aqui o presidente cede ao vezo do personalismo e alimenta a mística para confundi-la com o ato de governar, e lá o eleito desidrata o mito.

Quando ganhou a primeira vez, Lula discursou na Avenida Paulista manifestando a certeza de que a vitória mostrava que, para o brasileiro, “só nós poderemos fazer pelo Brasil o que o Brasil precisa que seja feito”.

Barack Obama falou sobre os valores compartilhados por toda a sociedade à qual pediu permissão para exigir “um novo espírito de serviço, um novo espírito de sacrifício” para que a esperança se materialize como obra coletiva, “bloco por bloco, tijolo por tijolo por tijolo, mão calejada por mão calejada, do jeito que tem sido feito na América há 221 anos”. Sem anular o passado do país nem atribuir a um grupo político partidário o poder de fazer acontecer.

Dever cumprido

O destaque da eleição americana foram as filas monumentais de gente esperando a hora de votar; sem obrigatoriedade, sem feriado, sem revoltas à deriva contra a falta de agilidade do Estado – no caso, de cada Estado individualmente – para organizar a votação.

A “competência” eleitoral, ausente de forma geral na mente do eleitor dos EUA, é uma preocupação muito mais do brasileiro ávido por padrões comparativos que o permitam ressaltar os defeitos de uma nação que pode não contar votos com perfeição, mas funciona perfeitamente nas regras da democracia.

Nas filas dobrando quarteirões, pessoas motivadas para exercer por livre iniciativa um direito com noção de dever cívico e vontade de acertar.

Pode-se não apreciar, mas jamais depreciar atos e escolhas desse (ou de qualquer outro) povo por uma hipotética natureza eivada de arrogância, ignorância, auto-referência, racismo, atraso, moralismo, intolerância.

Americanos são assim, mas não são só assim, bem como brasileiros, noruegueses, portugueses, italianos, moçambicanos, irlandeses, suecos, australianos, islandeses e todos os demais.

A respeito deles raros se arriscam a fazer avaliações pejorativas de caráter tão genérico. Como se imprecações dirigidas a cidadãos de um país todo-poderoso não traduzissem arrogância, ignorância, auto-referência, racismo, atraso, moralismo, em duas palavras: insidiosa intolerância.





that idiotic thing called a perfect triad

5 11 2008

Eu falei que diatonicismo enche o saco. Veja o que disse meu compositor favorito, também se sentindo sufocado por clichés tonais.

Agora, entre você, — que vive em tempos de tv, radio, internet e ipod — e ele, que morreu em 1918, quem você acha que ouviu mais música tonal?

Debussy’s letters, especially those written in 1894, are full of anguish and raillery against what he saw as the limits that his training had placed on his fantasy. “I’ve spent days trying to capture that ‘nothing’ that Mélisande is made of,” he wrote to one friend. To another he wondered whether there was anything left for a composer to do anymore but recycle clichés: “Impossible to count how often since Gluck people have died to the chord of the [Neapolitan] sixth, and now, from [Massenet’s] Manon to Isolde, they do it to the diminished seventh! And as for that idiotic thing called a perfect triad, it’s only habit, like going in a cafe! As for old Arkel, he “comes from beyond the grave and has that objective prophetic gentleness of those who are soon to die–all of which has to be expressed with do-re-mi-fa-sol-la-ti-do!!! What a profession!

Takuskin citando Debussy (The Oxford History of Western Music, vol. 4, p.89)





Obaaa, McCain está fora!

5 11 2008

Acho tão furado o argumento de Reinaldo Azevedo e outros dizendo que McCain teria sido uma escolha melhor porque Obama não tem experiência. Eu entenderia se ele tivesse dito que sua escolha é ideológica, que sua visão é mais afinada com o conservadorismo republicano. Mas não é isso o que ele diz. Vem falar de falta de experiência e defender uma Sarah Palin?

Acho irônico que tenha sido exatamente o fator experiência que levou tanta gente a decidir apoiar Obama. Conservadores (em sua maioria) que largaram McCain falando sozinho depois que ele fez a coisa mais estúpida que um candidato podia fazer: escolheu a pessoa mais despreparada para ser sua vice.

Mas foi uma estupidez muito reveladora porque mostrou que ele estava disposto a fazer qualquer coisa para chegar à presidência. Ele abriu mão de princípios que sempre defendeu pra agradar um segmento do partido — e da população — que, achava, podia virar o jogo. O que adianta ser um herói de guerra se você vende seus princípios para agradar os radicais do partido?

Obama mereceu a vitória, sim. Mas muito mais que isso, McCain mereceu perder. Sua escolha mostrou seu caráter.

E o que eu li de muita gente comentando essa eleição no Brasil me mostrou que eu ando gastando muito tempo lendo textos de gente que não deve ser levada tão a sério, que não sabe muito bem o que diz.





ainda não decidi…

1 11 2008

se esta é uma boa idéia ou se é uma coisa totalmente idiota.

Estou pendendo pra última. Mas achei irresistível.

Em todo caso, começa hoje. Então se te interessa, corra pra se inscrever.