uma crítica a James Wood

12 11 2008

Já comentei várias vezes aqui sobre minha admiração pelos textos de James Wood. Eu acho que ele escreve lindamente. Mais importante que isso, me mostra um tipo de leitura possível que eu não imaginava existir.

Wood consegue me convencer das razões para suas ranzinzices estéticas contra autores contemporâneos e me mostra o que admirar nos clássicos.

Mas eu confesso que não tenho tanta experiência assim com literatura. Alguém como Daniel Green, que é o autor do blog The Reading Experience, do qual eu falei dia desses, acha que James Wood não tem tanto assim a dizer sobre literatura.

Bom, Green também é um escritor convincente e de um estilo tão elegante e claro quanto Wood. De fato, alguns minutos no blog dele logo viram horas e quando você vê está viciado. Ele é muito claro na maneira como coloca seus argumentos (como Wood) e fica difícil não concordar com o que ele diz.

Eles concordam em algumas coisas, mas, de modo geral, Green parece ter mais restrições que elogios ao criticismo de Wood.

Green resenhou o livro de Wood que eu estou lendo “How Fiction Works”.

Um trecho:

But for those of us who think that Wood’s description of “how fiction works” is but one possible (and highly tendentious) description, that despite Wood’s occasional citation of a still-living writer and his lip service to the notion that the novel “always wriggles out of the rules thrown around it,” his account is mostly backward-looking, an examination of what has been done, rather than forward-looking, a discussion of fiction that emphasizes what still might be done. The message that “any kind of common reader” is likely to take from his book is that the art of fiction is now settled, all of the possible aesthetic innovations the form might offer already achieved. If you want to read the best that fiction has to offer, Wood’s book clearly enough implies, stick with the line of Anglo-European fiction extending from Henry James to Henry Green. If you want to be an esteemed writer, do what Dostoevsky does, what D.H. Lawrence does, what Virginia Woolf and Saul Bellow do.

E eu concordo com Green. Wood olha para o passado e praticamente nenhum autor vivo, escrevendo hoje, merece sua aprovação. Ele analisa uma arte “congelada no tempo” e como diz Green, nao admite qualquer espécie de evolução.

Outra passagem:

Ultimately the most disconcerting thing about How Fiction Works, and about James Wood’s criticism in general, is that while Wood on the one hand expresses near-reverence for the virtues of fiction, the terms in which he judges the value of fiction as a literary form implicitly disparages it. He doesn’t want to let fiction be fiction. Instead, he asks that it provide some combination of psychological analysis, metaphysics, and moral instruction, and assumes that novelists are in some way qualified to offer these services. He abjures them to avoid “aestheticism” (too much art) and to instead be respectful of “life.”

Wood está pedindo demais do autor. E boa parte dos escritores não está disposta a seguir “suas” regras, que não admitem qualquer tipo de experimento  com a noção tradicional que ele tem do que vem a ser boa literatura. Por isso, a literatura que ele descreve jamais vai se renovar.

Green resume seu argumento final contra Wood:

There is another view of what fiction can accomplish, one that does not make it subservient to an agenda of fidelity to “the real.” In this view, what continues to elude the novel as a form is the limit of its own potential for innovation. In this view, life is always already conventional, and a novel exists not as a reproduction of reality but as an addition to it, a supplement. And in this view, a work of fiction is measured by the justice it does to the aesthetic possibilities of the form, possibilities that surely exceed the arbitrary boundaries James Wood wants to enforce. Readers of How Fiction Works should keep in mind that, even if it is true that “The house of fiction has many windows, but only two or three doors, the door being opened here is still not the only one available.

Este último ponto, eu vejo como um elogio velado. A crítica é à arrogância de achar que a leitura de Wood é a única possível. Mas no fim de tudo, ela é uma leitura possível. O erro está em vê-la como única.

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como escreve Miguel Esteves Cardoso

8 11 2008

Quando eu leio um texto bem escrito, tenho a impressão que o autor escreve sem esforço algum. Que as palavras fluem naturalmente e o texto vai tomando forma quase como se a coisa toda independesse da vontade de quem escreveu.

E talvez isso se dê exatamente assim com alguns autores.

Mas não com Miguel Esteves Cardoso.

Quando começas a escrever, tens um plano concreto do que será a crónica?
Tenho. Passo pelo menos um dia inteiro a pensar no que vou dizer, mas a pensar mesmo, entre dicionários e apontamentos. Muitos apontamentos. Um moleskine dá-me só para duas crónicas. E aproveito apenas uma pequeníssima percentagem dessas ideias. Uma vez em cada mil, quando faço menos apontamentos, consigo pôr tudo o que pensei dentro da crónica. Mas essas não são as que ficam melhor.

É óbvio que te preocupas muito com o estilo e essa preocupação pode ser um martírio, como explicava o Flaubert.
É um martírio, sim. Toda a gente que escreve crónicas para jornais aprende a aceitar o facto de que muitas vezes o que se entrega é uma merda.

Tens algum mecanismo de auto-avaliação para dizer “isto não presta”?
Sim, sim. Toda a gente tem. Mesmo no seu auge, uma pessoa entrega, no máximo dos máximos, uma crónica boa, sabendo que a seguinte vai ser uma merda, e a seguinte também, e a seguinte também. Ou seja, uma crónica boa em cada quatro. Estou a falar a sério. Já cheguei a pensar que a sequência média era: crónica boa, merda, crónica boa, merda. Mas não é. E se por acaso fizeres duas crónica boas, intervaladas com uma de merda, logo a seguir tens merda, merda, merda, merda, merda.

Daqui.





blog ‘The Reading Experience’

7 11 2008

Estou empolgada com The Reading Experience, um blog sobre literatura.

Daniel Green, o autor, escreve deliciosamente bem sobre o assunto.





podcast com James Wood

6 11 2008

Alguém gravou uma palestra de 30 minutos de James Wood na livraria de Harvard, onde ele falou do seu livro “How Fiction Works”, que eu estou lendo e gostando muito — como acontece com quase tudo o que leio dele.

E o site ThoughCast colocou à disposição aqui pra quem quiser ouvir.





the cover tells it all

18 10 2008

Tentei uma coisa com esse negócio aqui.

Olho as capas dos dois livros e escolho o melhor. Não leio uma palavra do artigo. Daí scrowl down e checo o resultado do jurado.

Sem brincadeira, meu índice de acerto é de 100%.





meu texto sem alma

15 07 2008

Um comentário sobre o que disse Vonnegut, que eu citei no post anterior.

Parece que na frente de uma página em branco, eu incorporo o espírito de jornalista ou professor e começo a escrever de um jeito tão impessoal e sem personalidade que nem eu agüento ler. Que coisa mais aborrecida!

Cada tentativa de pôr idéias no papel é uma briga contra essa tendência – que eu não sei de onde vem. O que eu venho me perguntando há um tempo é se esse tom professoral – não é “didática” a palavra certa porque pode-se ser didático e divertido ao mesmo tempo – não corresponde ao verdadeiro eu. Credo! Espero que não. Será que sou tão chata assim?

Talvez tenha a ver com os quase 30 anos de escola e treinamento em como escrever textos sem alma. Nessas horas, fico feliz de não ter feito jornalismo.

Aliás, tenho encontrado cada vez mais vantagens em ter feito faculdade de música. Ninguém me cobra nada, por exemplo. Pelo contrário, quando digo que sou formada em música, as pessoas me olham com uma cara de dó. “Tocar violão não pode ser tão bom assim…” – devem pensar. Ou “Coitada, não conseguiu entrar em direito”.

Outra vantagem: jamais vou conseguir um emprego numa estatal. Nem que num dia de desânimo diante da perspectiva de uma carreira acadêmica, sem dinheiro, eu me sinta levemente tentada – God forbid – a prestar um concurso num órgão qualquer do governo, meu diploma é inadequado para a maioria dos cargos oferecidos.

Mas estou divagando. Eu acho que sou uma tradutora mais competente exatamente porque nunca estudei tradução numa faculdade. E o amor por literatura e meu vocabulário pra discutir os livros que eu gosto (que não é lá grande coisa, admito) não foi contaminado pelo jargão da faculdade de Letras.

Mas como eu disse lá no início, a briga contra esse tom impessoal é constante porque o que eu mais leio é artigo acadêmico.

Há quem consiga facilmente assumir outras personalidades quando escreve. É como aquele tipo de pessoa que imita todo mundo mudando a voz ou fazendo uns trejeitos. Os textos soam diferentes um do outro, como se tivessem sido escritos por várias pessoas.

Li outro dia, aqui, pra ser mais precisa, que a capacidade de ver as coisas de maneiras diferentes é um aspecto importante da criatividade e da inteligência.
Acho que esse é um critério fundamental de juízo de valor em literatura – a capacidade de incorporar vozes diferentes no seu texto – e fazê-lo de forma convincente.

Faz sentido pois um romance é composto por personagens que diferem entre si,  cada um com um jeito próprio de falar. E é uma só mente que dá vida a todos eles.

Conheço poucas pessoas que conseguem escapar desse tom impessoal. Mesmo gente que sabe escrever bem. E conheço ainda menos pessoas capazes de variar o tom, escrevendo em vários registros diferentes.





Dicta & Contradicta

10 07 2008

Estou lendo “Dicta & Contradicta”, uma revista que foi lançada agora em junho no Brasil.
Comprei o primeiro volume ontem e gostei do que li até agora (são 210 páginas). Tive que pedir em outras lojas da Cultura porque está se esgotando rápido.

Estou lendo aos poucos, saboreando os textos bem escritos (com colaboradores também de Portugal), entre as minhas leituras pra pesquisa e pro exame em setembro.

Trata-se de uma publicação sobre filosofia, literatura, arte, essas coisas. A idéia é lançar o segundo volume em seis meses, o que já mostra cuidado da parte dos editores.

Não sei quanto a vocês, mas me cansei de abrir uma revista desse tipo, publicada no Brasil, e ler de novo sobre Marx, sobre Cuba, sobre Guevara (estômago embrulhando…).
Foi um alívio não ver nada disso até agora.

Dê uma olhada no blog da revista.

Recomendo.