Lobão, Nelson Motta e algumas verdades

21 11 2008

Li algumas reações à uma entrevista de Nelson Motta e Lobão há uns dias. Gente revoltadíssima com críticas a São Chico Buarque e São João Gilberto.

No Brasil, não pode falar mal desses caras.

Lobão fala muita besteira e tem um tom irritante e usa muito palavrão. Daí acaba alienando muita gente. Mas achei que falaram umas verdades também. Umas coisinhas que ninguém gosta de ouvir.

“No Brasil quem faz sucesso fica deprimido porque não é pobre”, disparou Lobão. “O Tom Jobim foi chamado de lacaio do capitalismo porque fez sucesso nos Estados Unidos. No Brasil se cultua o voto de pobreza.”

Concordo. Só não vê isso quem não quer. Isso está em todo lugar: da música à literatura, passando pela política.

Nelson Motta foi além:

“É uma mentalidade pobrista. Ninguém assume responsabilidade por nada. Se um cara mata, a culpa é da sociedade. Ora, existem fracassos e escolhas individuais. Temos que mudar essa atitude e passar a celebrar a vitória.”

(…)

“As pessoas acham que quem fazia sucesso na década de 70 era Chico Buarque e Caetano Veloso. Errado, eles só eram ouvidos pela classe média alta. Quem vendia e fazia shows eram Waldick Soriano, Odair José, Antonio Marcos… E eram músicos muito corajosos. Em plena ditadura, o Agnaldo Timóteo teve a coragem de gravar uma música chamada Galeria do amor, sobre a Galeria Alaska, em Copacabana, um ponto de encontro gay.

“Isso foi mais subversivo que 10 discos de Geraldo Vandré”, continuou Nelson. “E Odair José foi censurado porque lançou a música Pare de tomar a pílula em plena campanha de controle da natalidade.”

O Brasil não quer saber de outros nomes que não a trilogia Tom, Chico e Caetano. Estes nomes que Motta mencionou não são interessantes. Não se escreve sobre eles e nem se comenta a sua obra. Parece que não houve mais nada além da bossa nova.

A obsessão brasileira com a bossa nova é das coisas mais irritantes da cultura musical no Brasil.

Anúncios




entrevista com Simon Frith (i)

13 11 2008

Simon Frith é um etnomusicólogo que escreve sobre música popular. Ele começou como crítico escrevendo sobre rock e acabou concluindo um doutorado em UCBerkeley.

Ele escreveu “The Sociology of Rock” (1978) e “Performing Rites: On the Value of Popular Music” (1996).

Frith concedeu uma entrevista para a revista online de música “Perfect Sound Forever”, onde ele falou de coisas como indústria cultural, preços de CDs, colecionadores de discos, jornalismo musical, crítica musical, a influência da mídia na vendagem de discos e o que é escrever sobre música.

É sobre alguns trechos dessa conversa que eu queria falar aqui.

Eu gosto de ler entrevistas de pesquisadores que já publicaram bastante sobre determinado assunto porque, neste formato, muitos deles conseguem escapar dos vícios de linguagem e do jargão da academia e colocar suas idéias de modo mais acessível.

Recomendo a leitura da entrevista toda. Se seu inglês não permite isso, minha versão das respostas dele talvez te seja útil (não é uma tradução ipsissima verba). Incluí minhas impressões sobre o que ele diz.

Primeira observação que ele faz sobre a indústria cultural: “um aspecto que é peculiar a este segmento é que paga-se o mesmo por diferentes produções musicais independentemente do custo da produção”. Ele afirma que, na verdade, quanto maior a demanda, mais barato é o produto. E qual a explicação pra essa peculiaridade? Segundo Frith, a indústria fonográfica investe dinheiro em coisas que não trazem lucro (pelo menos não diretamente) e recupera o investimento na venda de produções que geram grande lucro. O negócio é maximizar as vendas de produtos populares e minimizar as vendas dos não tão populares.

Confesso que, a princípio, não entendi muito bem quais seriam esses “produtos não-populares”. Acho que ele está se referindo àquelas produções que não deram certo. De fato, a indústria fonográfica não tem como acertar sempre; produção musical é um negócio de alto risco (ele volta a falar disso mais pra frente).

Acho que isso tem duas implicações. Primeiro, mostra como qualquer avaliação deste mercado é uma coisa imprevisível e até nebulosa – uma falta de transparência que as próprias empresas envolvidas talvez prefiram manter – e ninguém sabe avaliar direito o que acontece direito com os processos de produção musical das grandes gravadoras. Acho que a coisa toda é um tipo de caixa preta, um sistema que segue sua própria lógica.

Segundo, esse lado arriscado das produções musicais explica porque as empresas usam agressivamente todo e qualquer recurso para impedir que seus negócios sejam ameaçados (como o combate à pirataria). Existe muito investimento envolvido.

Outra observação de Frith:

“Sempre se assumiu que, em se tratando de indústria cultural, as pessoas não escolhem as obras por causa do preço. (…) Elas não preferem Eminem a Pink ou a The Streets por causa do preço.

Com os CDs digitais, gravações podem existir para sempre e há um catálogo muito maior de itens antigos; portanto, há menos incentivo para se comprar os novos lançamentos. Então, eu acho que este tipo de custo está começando a ter um efeito. Um catálogo com itens mais antigos é mais barato e as pessoas não estão tão dispostas a comprar algo novo, que elas nunca ouviram e que custa mais. (…) O aumento da oferta e das opções de escolha será enorme e o preço vai acabar sendo um fator mais importante na decisão.”

Faz sentido. Mas eu levaria em consideração o fato de que muitas das novidades são lançamentos atuais de nomes consagrados. Acho que esse é um filão que talvez fuja um pouco dessa análise que ele faz.

Outro aspecto é que para as novas gerações de consumidores, o “clássico” talvez seja tão novidade quanto aquela banda lançada ano passado.

Uma pergunta sobre o “silêncio como um produto a ser comercializado”:

Frith concorda que esta é uma tendência é cita resorts, praias e condomínios fechados como variações dessa idéia: as pessoas pagam para fugir dos ruídos da cidade.

Eu diria que outro exemplo de como isto já está acontecendo é o sucesso de vendas dos fones de neutralizador de ruído (noise cancelling). Caríssimos e que se tornaram um produto extremamente popular (eu também quero um!). Aliás, só eles tornariam viável a idéia dele de uma gravação de silêncio.

“Com o mundo tornando-se cada vez menor, será difícil manter-se as diferenças entre os estilos musicais?

Frith aposta na capacidade criativa dos músicos. E eu concordo. Num mundo de mesmices, há pessoas fazendo coisas incrivelmente originais (enquanto outros, é claro, são virtuoses em copiar).

Outra coisa é que as tradições musicais evoluem – muitas vezes na marra, a contragosto mesmo – e conseguem se diferenciar do que veio antes, mas ainda assim mantendo certa coerência de estilo ao incorporar novos elementos.

(minha “conversa” com Frith continua aqui)





that idiotic thing called a perfect triad

5 11 2008

Eu falei que diatonicismo enche o saco. Veja o que disse meu compositor favorito, também se sentindo sufocado por clichés tonais.

Agora, entre você, — que vive em tempos de tv, radio, internet e ipod — e ele, que morreu em 1918, quem você acha que ouviu mais música tonal?

Debussy’s letters, especially those written in 1894, are full of anguish and raillery against what he saw as the limits that his training had placed on his fantasy. “I’ve spent days trying to capture that ‘nothing’ that Mélisande is made of,” he wrote to one friend. To another he wondered whether there was anything left for a composer to do anymore but recycle clichés: “Impossible to count how often since Gluck people have died to the chord of the [Neapolitan] sixth, and now, from [Massenet’s] Manon to Isolde, they do it to the diminished seventh! And as for that idiotic thing called a perfect triad, it’s only habit, like going in a cafe! As for old Arkel, he “comes from beyond the grave and has that objective prophetic gentleness of those who are soon to die–all of which has to be expressed with do-re-mi-fa-sol-la-ti-do!!! What a profession!

Takuskin citando Debussy (The Oxford History of Western Music, vol. 4, p.89)





músicas que eu gosto (I)

1 11 2008

Eu me encho fácil de música puramente tonal. Depois de um tempo, minha atenção começa a se fixar em outras coisas: poesia da letra, estrutura rítmica, textura da música, combinação de timbres (incluo aqui a qualidade da mixagem), forma (seqüência, desenvolvimento e repetições), etc. Quando não encontro alguma coisa interessante nesses aspectos, acho difícil me concentrar e acabo me dispersando. Altura é o que me chama atenção em primeiro lugar. Carrego um bonde por uma melodia bem feita acompanhada por uma boa harmonização.

Isso explica porque eu gosto de coisas tão diferentes, mas só consigo absorver muito de um só tipo de música: jazz, principalmente depois do bebop.

Tenho certeza que a “história de escuta” de cada pessoa influencia, e muito, o gosto. Comigo não é diferente.

Comecei ouvindo jazz porque comecei a tocar sax aos 11 anos. Então me concentrar na linha melódica do solista que improvisa é mais que um hábito, é um vício mesmo.

Eu amo o timbre do sax tenor, então no caso de solistas como Coltrane, Sonny Rollins e outros não tão antigos como Michael Brecker, a música prende minha atenção como poucos gêneros conseguem fazer.

Descobri a música brasileira bem tarde, depois de me acostumar a ouvir jazz. E o que me atraiu foi a letra. Acho que há umas coisas lindíssimas escritas por Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Edu Lobo e alguns outros. Além disso, muitos desses são excelentes melodistas.

Descobrir Tom Jobim foi outro marco. Nele eu gosto de tudo: melodias, letras, harmonias. Ele tem uma jóias que não são assim tão conhecidas. “Chovendo na Roseira” é uma das que eu mais gosto. Aquela interrupção do compasso 6/8 em dois momentos da música é coisa de gênio.

Mas tenho dificuldade em ouvir gente cantando mal. Então nunca curti as gravações de compositores que desafinam; às vezes simplesmente não gosto do timbre. Tom Jobim, Chico Buarque, Ivan Lins, Milton… não gosto de ouvir cantando, não.

Gosto quando boas cantoras regravam os “clássicos” da MPB (ou simplesmente coisas mais velhas). Um exemplo: cantoras como Gal Costa não entendem muito de música, mas contratam um bom produtor que cuida de tudo. O resultado pode ser surpreendentemente bom, como o que fez Morelembaum em “Mina D’Agua do Meu Canto”.

Gosto muito de pianistas de jazz. Acho que é o que eu mais ouço: Bil Evans, Herbie Hancock, Keith Jarrett, Chick Corea, alguma coisa de Gonzalo Rubalcaba e Lyle Mays. E claro, o meu favorito, Brad Mehldau.

E acho que por causa da proximidade com o jazz, gosto da obra pra piano de Debussy e Eric Satie. Gosto também quando o compositor rouba idéias de tradições não ocidentais como Ravel, o próprio Debussy e Bártok. Todos eles brincam com escalas não diatônicas, o que eu gosto muito.

Gosto de outras coisas, mas outra hora eu falo mais disso.





músicos? bah!

30 10 2008

“Quem sabe faz. Quem não sabe, ensina.”

“If a composer could say what he had to say in words he would not bother trying to say it in music.” (Mahler)

Já te aviso que este é um texto mal-humorado. Então talvez seja melhor você pegar suas idéias politicamente corretas sobre música e ir ler blogs mais cordiais porque hoje eu vou dizer dos músicos, o que Mafoma não disse do toucinho.

Eu acho que competência musical é um negócio super valorizado. É, estou implicando com músicos, mesmo sendo uma deles. Não posso me excluir completamente dessa categoria, já que durante um bom tempo, eu ganhei a vida fazendo música. Mas tem um tipo específico de músico que me irrita e o que segue baseia-se principalmente nos meus aborrecimentos com esse tipo.

Eu trabalhei com vários músicos excelentes cujo ego só perdia, em tamanho, para o talento musical. E uma coisa especialmente aborrecida é a mania de achar que a capacidade de fazer boa música substitui coisas como elegância, bom gosto, gentileza, boas maneiras e leitura.

Vou falar só dessa última. Se você já leu alguma coisa nesse blog, já deve saber o que eu penso de gente que não gosta de ler. Quem não lê, não tem o hábito de ser contrariado e ser contrariado é uma coisa muito, muito saudável. Como resultado, tende a achar que tem o direito de sair por aí falando besteira. Em outras palavras, quem não lê, perde o senso de ridículo.

Já ouvi várias vezes, por exemplo, músicos dizendo que, em se tratando de música, não há nada a ser aprendido em livros.

Muita gente sofre desse mal, a ignorância. Nada de novo nisso. Mas músicos exercem um certo fascínio no imaginário das pessoas e, por isso, todo mundo quer ouvi-los falar. O que nem todo mundo percebe, porém, é que boa parte dos músicos não sabe falar de música. A maioria dos músicos que eu conheço não é capaz de articular, de maneira interessante (ou inteligível), uma idéia relevante sobre música.

Acha que eu estou sendo cruel? Essa opinião não é nova e nem exclusivamente minha. Gente reclamando da preguiça mental dos músicos é a coisa mais comum entre quem tem que trabalhar com essa turma. Guido D’Arezzo, um monge da Idade Média, cujo trabalho era ensinar cantores, referiu-se a músicos em termos bem menos elogiosos. Ele respeitava o musicus (o sujeito que filosofa sobre música), mas achava que o cantor (o sujeito que faz música) não valia muita coisa.

Convenhamos, a rotina do músico, que envolve basicamente, se aprimorar na execução de um instrumento, não contribui para fazer dele um pensador. Tocar escalas o dia todo não te ajuda a melhorar a percepção de coisas que não sejam escalas.

Tocar um instrumento exige exatamente que tipo de esforço intelectual? Não, sério, quais são os processos cognitivos envolvidos na tarefa de aperfeiçoar, vamos dizer, a execução de uma sonata no piano? Claro, envolve um trabalho meticuloso de coordenação motora, controle de movimentos, de assimilação de um número razoável de convenções (que é a leitura de uma partitura), de um certo exercício de criatividade no que diz respeito à expressão. Mas que mais?

Professores de música estão sempre martelando na cabeça do aluno aquela recomendação para jamais tocar mecanicamente. Por que? Porque tocar um instrumento é uma atividade principalmente mecânica, onde é muito fácil fazer as coisas automaticamente, sem pensar. O músico se acostuma com o instrumento, com o repertório, com o estilo e deixa de usar a cabeça.

Quanto mais pensar sobre outras músicas, sobre as implicações da sua música num contexto social maior, sobre a relação da música com outras artes, sobre o seu lugar na vida das pessoas! Não, não dá tempo de pensar nessas coisas todas.

Isso não quer dizer que músicos sejam pessoas desinteressantes. Conversa de músico, sim, é geralmente entediante. Porque, com freqüência, eles falam de música sob o ponto de vista da interpretação, o que é um jeito bem limitado de ver as coisas. Raramente, por exemplo, conseguem avaliar música fora dos seus respectivos instrumentos. Já conversou com aquele pianista que fica mexendo os dedos no ar quando pensa num trecho de música, como se o único modo de lembrar fosse pela ação dos dedos? Em muitos casos, eles não conseguem se interessar, apreciar e, menos ainda, entender tradições musicais muito diferentes das suas. Ouvem o mundo através dos seus ouvidos exclusivamente tonais.

Mas costumam se meter em situações engraçadíssimas, simplesmente porque isso é o que costuma acontecer com gente que só consegue olhar para o próprio umbigo. O que os torna tão divertidos é precisamente o fato de que tamanho talento é freqüentemente acompanhado por um ego igualmente agigantado e uma total falta de sensibilidade para com outras pessoas.

Mas há músicos que não são nada disso, me diz você, de olho na sua guitarra vermelha encostada no canto do quarto. Então eu te digo que tocar um instrumento não faz de você esse tipo de músico a que eu me refiro. Sim, sim, há exceções. É claro que o que eu disse antes é uma generalização. Me deixa que o blog é meu!

Estou falando de um tipo específico. Aquele sujeito que não faz outra coisa que não seja música e que não fala de outra coisa também. Quem alterna aulas de piano com a leitura de livros sobre história política do Brasil, por exemplo, não é bem esse tipo que eu estou falando porque o músico a que eu me refiro não vai tirar tempo do seu estudo pra gastar lendo um livro.

É uma atitude. Uma arrogância que coloca o ato de tocar acima de tudo. A própria frase que abre este texto já me foi repetida ad nauseam por gente que toca.

Acho isso é mais sério num país como o Brasil. Aí, educação musical é luxo; tocar bem um instrumento não é pra quem quer. Então o músico se vê como pertencendo a uma elite. Em países onde todo mundo aprende um instrumento na escola não dá pra manter essa atitude porque há excelentes músicos que não tocam profissionalmente. Há mais pessoas que se dedicam seriamente à música, mas têm outra profissão.

Queria fechar o post dizendo alguma coisa inteligente sobre a frase do Mahler que eu coloquei lá em cima. Mas fiquei com preguiça.

Tchau. Vou tocar violão.





música maravilhosa, músico desprezível

21 10 2008

Ontem eu falei que ia postar a entrevista de Taruskin falando da experiência de escrever os cinco volumes (o sexto é o índice e bibliografia) de Oxford History of Western Music. Quase nada muito interessante na conversa.

Eu quero te mostrar um trechinho só:

Q. You once said after another epic project, your two-volume book ”Stravinsky and the Traditions,” that you came out of it disliking Stravinsky, or at least liking Stravinsky less. How do you feel now about Western music?

A. Oh, but it wasn’t Stravinsky’s music that I liked less. I liked the man less. But who cares what you think about the man? I was interested in the music, and the man only insofar as it helped to explain the music. The more I know about his music, the more interesting it gets. And that goes double, triple — sextuple, I guess — for Western music as a whole.

Acho que essa resposta resume a diferença entre estudar a música e estudar a vida do compositor. São coisas tão distintas que, pela proximidade, acabam se confundindo. Mas é possível odiar o compositor e amar a música.

Um dos meus compositores favoritos é Debussy. Mas parei de ler sobre a vida pessoal dele porque em todos os livros ele aparece como um sujeito mesquinho e mulherengo. Acho que a ex-mulher até acabou se suicidando por causa do distinto.

Mas isso é realmente importante? Em tempos de consumer activism, vale a pena protestar contra a música de um ser humano realmente desprezível? Ou o prazer de ouvir a música que gosto vem em primeiro lugar? Quem vai perder se eu deixar de ouvir a música que eu gosto?

Olha, eu não quero saber. Separo a música do homem. Como Taruskin disse, quem liga pra quem é o homem? Não me interessa. Fecho os olhos e esqueço que o sujeito é um maníaco.

Mesmo quando o músico é também o performer, também faço isso. Às vezes é mais difícil, como no caso desse tonto aqui, que adora ficar dando gritinhos bestas enquanto toca piano. ODEIO ISSO. Mas adoro o piano desse imbecil. Viu o que ele fez na Itália? Não te lembra um violonista brasileiro famoso?

O que fazer?

Uma coisa que essas estrelas não percebem é que a música, se boa, sobrevive ao músico. E isso, por mais que ele se esforce por sabotá-la com a sua reputação. Gosto muito da música de João Gilberto, por exemplo (embora já esteja me saindo pelos poros). Mas não vou ver nenhum show dele. Não ligo nem um pouco de assisti-lo na TV. Sinceramente, não vale o esforço ir a um show, só pra ver de perto a personalidade horrorosa de alguém assim.

A DVD will definitely do.

Já Debussy, é um decomposing composer mesmo.

Aliás, fica aí com a letra dessa obra prima do Monthy Python, que, ouvi falar, é um pessoal muito gente boa.

Beethoven’s gone but his music lives on,
And Mozart don’t go shoppin’ no more,
You’ll never meet Liszt or Brahms again,
And Elgar doesn’t answer the door.

Schübert and Chopin used to chuckle and laugh,
Whilst composing a long symphony,
But one hundred and fifty years later,
There’s very little of them left to see.

They’re decomposing composers,
There’s nothing much anyone can do,
You can still hear Beethoven,
But Beethoven cannot hear you.

Händel and Haydn and Rachmaninov,
Enjoyed a nice drink with their meal,
But nowadays no-one will serve them,
And their gravy is left to congeal.

Verdi and Wagner delighted the crowds,
With their highly original sound,
The pianos they played are still working,
But they’re both six feet underground.

They’re decomposing composers,
There’s less of them every year,
You can say what you like to Debussy,
But there’s not much of him left to hear.

Claude Achille Debussy, died 1918.
Christophe Willebaud Gluck, died 1787.
Carl Maria von Weber, not at all well
1825, died 1826. Giacomo Meyerbeer,
still alive 1863, not still alive 1864.
Modeste Mussorgsky, 1880
going to parties,
no fun anymore 1881. Johan Nepomuck
Hummel, chatting away nineteen to the
dozen with his mates down the pub every
evening 1836, 1837 nothing.





o artista/intelectual

24 11 2007

Estava lendo “Cidade Partida” de Zuenir Ventura. O capítulo que fala da amizade de alguns bandidos com intelectuais do Rio de Janeiro no final da década de 50 e início da de 60, e o fascínio de artistas pelo banditismo. Alguns como Clarice Lispector e Helio Oiticica chegaram a lhes dedicar obras.

Parêntese: quem tem um artigo – nada fácil de ler – sobre o culto à criminalidade por artistas britânicos é Theodore Dalrymple: “Trash, Violence, and Versace: But Is It Art?”.

Trechos do livro do Ventura:

A morte de Mineirinho sensibilizou a literatura de Clarice Lispector e de José Carlos (Carlinhos) Oliveira. Clarice dedicou-lhe uma sentida crônica na revista Senhor. “Suponho que é em mim […] que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que seus crimes.”
Ela confessa na crônica que os dois primeiros tiros lhe deram alívio e segurança. O terceiro deixou-a alerta, o quarto, desassossegada. O quinto e o sexto a cobriram de vergonha; o sétimo e o oitavo a encheram de horror; no nono e no décimo a boca ficou trêmula; no décimo primeiro, ela chamou por Deus, no décimo segundo, pelo irmão. “O décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”
Carlinhos Oliveira fez-lhe também um comovido necrológio, considerando-o a personificação da rebeldia: “Assaltava bem, matava com perícia, amotinava presidiários e se punha em fuga com extrema facilidade”. O cronista não escondia sua simpatia por um bandido que arriscava a vida “por um ideal” – o de querer “ser livre para ser criminoso, o louco!”.
Aquela execução despertou no cronista sombrias reflexões: “Fico eu agora pensando em inumeráveis adolescentes que amadurecem no mesmo cenário ignominioso que produziu Mineirinho e me pergunto: onde anda agora o espírito de rebeldia? Onde anda agora o espírito que se evolou de Mineirinho? Quem, com os olhos da demência, com o imenso ranger no coração descerá agora do morro para castigar e envergonhar a cidade?”.

(…)

Cara de Cavalo era um bandido chinfrim. Ladrão, não gostava de roubar. Diariamente cumpria uma rotina segura. À tarde, sempre acompanhado de uma das amantes, em geral a titular Lair Dias da Silva, pegava um táxi, sentava-se no banco de trás e percorria os pontos de jogo do bicho de Vila Isabel e arredores. Não saía do carro. Parava, Lair descia e ia recolher o pagamento compulsório do dia. Ele ficava esperando. Manoel Moreira levava a vida que um bandido preguiçoso pedira a Deus: pouco trabalho, muitas mulheres e um dinheiro certo, sem risco.
(…)
Um de seus grandes amigos, o artista plástico Hélio Oiticica, não se conformava com essa representação. “O que me deixava perplexo era o contraste entre o que eu conhecia dele como amigo e a imagem feita pela sociedade.” Um ano depois da sua morte, Oiticica imortalizou-o numa obra-prima: Homenagem a Cara de Cavalo. É um bólide, ou seja, uma caixa envolta por uma tela e cujas paredes internas estão cobertas com quatro reproduções da foto oficial do bandido assassinado: estirado no chão, perfurado de balas, com os braços estendidos em forma de cruz. No fundo da caixa, num saco com pigmentos vermelhos, aparece escrito como numa lápide: “Aqui está e aqui ficará. Contemplai o seu silêncio heróico”.
Fascinado pela marginalidade, passista da Mangueira, companheiro de malandros e bandidos, freqüentador de favelas, Oiticica “foi o maior inventor de arte brasileira, um dos maiores da arte contemporânea em todo o mundo”, segundo o crítico Frederico de Morais. Radical, ele considerava a arte como revolta e essa revolta era, na opinião de Morais, “semelhante à do bandido que rouba e mata, em busca de felicidade, mas também à do revolucionário político”.
(…)
Em 1968, Hélio Oiticica fez outra homenagem a Cara de Cavalo: a bandeira-poema “Seja marginal, seja herói”. Se o bólide foi parar no valioso acervo do colecionador Gilberto Chateaubriand, a bandeira virou emblema do Tropicalismo e estandarte da facção mais radical da geração de 68. Ambas se inscreveram na história da vanguarda artística brasileira.

Mas minha curiosidade sobre o texto do Ventura foi outra. Sempre ouço falar – com freqüência até – da representação “artística” do bandido na música popular. O que me deixou intrigada foi ver isso tão presente em outras artes.

O que me leva a concluir que a música popular, pela projeção que tem – por causa da exposição na mídia e pelo alcance a um público tão diverso – talvez seja a manifestação artística mais prontamente lembrada como articulando coisas que – hipocritamente – talvez preferíssemos ver fora do âmbito das artes: preferências políticas, escolhas ideológicas, preconceitos, defesa (ou crítica) de tradições religiosas, entre outras coisas.

Mas a música popular é uma vitrine (minha idéia de “música popular” aqui é bem abrangente, e estou pensando também em formas como rap). A literatura pode ser “secretamente” revolucionária porque o seu alcance é bem mais limitado. Mas não há como ignorar a música popular. Talvez por isso ela gere reações tão fortes; de alguns que a endossam sem questionar, e de outros que a odeiam – muitas vezes também sem crítica alguma.

E acho mesmo que é essa projeção que leva a alguns a atribuírem a função de “intelectual” a um sujeito que simplesmente escreveu algumas canções. E falam tanto do “discurso social” do sujeito que ele acaba acreditando que seu comentário é uma análise social aprofundada. Emprestando uma expressão usada por um destes mesmos intelectuais/artistas, o que acaba acontecendo é que “quem brinca de princesa, acaba acostumando na fantasia”.

Atribui-se um papel à música popular que ela originalmente não tem e reage-se com surpresa quando ela passa a ser um espaço para a discussão de temas que deveriam circular nos gabinetes do executivo, no congresso e nas universidades.

Culpa-se a música popular por se meter a comentar a realidade brasileira. Mas o problema talvez não esteja nas discussões em si, mas sim na tentativa de atribuir-lhes uma relevância que elas não têm.

É o problema causado pela projeção que a música tem. O sujeito assina embaixo do que diz o artista porque, muitas vezes, é a primeira vez que alguém lhe faz pensar sobre o assunto. Nunca leu nada sobre o problema da violência no Brasil e, de repente, aparece alguém falando, numa linguagem interessante, sobre assunto tão sério. “Ele deve saber o que diz” – conclui-se.

Na maioria das vezes, não sabe, não. Escrever um rap/canção é bem diferente de elaborar sobre os problemas de um país complexo como o Brasil. Essa diferença aparece, por exemplo, quando a imprensa empresta o microfone ao artista/intelectual – numa entrevista, por exemplo. Em tais situações (exemplos aqui e aqui), o intelectual mostra a que veio.

E a gente vê que queria mesmo era ouvir mais do que o artista tem a dizer, e que preferia que o intelectual calasse a boca.