“a piece of music”

5 01 2009

Gosto muito da expressão “a piece of music” do inglês. Sem equivalente no português porque na língua de Shakespeare, “piece” também significa “pedaço”.

Imagine um “pedaço de música”, uma parte que foi cortada de um todo que nós não somos capazes de compreender. Um pedaço que se junta a outro pedaço para adquirir sentido. Sentido que nunca é obtido completamente, mas que fica mais manejável quando estes pedaços são relacionados a um contexto maior.

Pense em música como algo grande, atemporal, que, vez ou outra, alguém de talento consegue dar forma, fechar numa estrutura com início, meio e fim no que convencionamos chamar de canção, sinfonia, movimento, ópera, vinheta, sonata, cantiga de roda ou outra coisa.

Aquela canção maravilhosa que te emociona e faz você pensar na beleza das coisas não encerra a definição de música. É só um naco dessa experiência tão maior e tão difícil de definir, que chamamos de “curtir” música.

Essa idéia também me deixa feliz porque me faz pensar que o que eu vejo como o melhor da música é, na verdade, somente uma fração, um quinhãozinho do que existe pra ser experimentado e que há uma infinidade de pedaços ainda por serem descobertos.

Não é esta uma visão mais humilde da nossa relação com a música? Eu acho.





um barraco entre Dizzy e Bird

16 10 2008

Olha que bacana isso:

Genial, não? E funciona tão perfeitamente com bebop. Achei a personificação do trumpete mais legal ainda que a do sax. Parece que o timbre “ácido” do Dizzy tem tudo a ver com a cara que o ator faz.

E observe que o ator tem total controle sobre o tom da discussão – embora haja um crescendo no barraco. A expressão dele, o que ele faz com as mãos, se ele sorri ou mostra irritação, parece que tudo isso quase independe da música.

Os gestos me lembraram Charlie Chaplin. Nem eu sei por quê. Aquele jeito meio elétrico, quase espasmódico, de alguém que parece que tá levando um choque. Quando aparece a bateria isso fica mais evidente.

De Dial “M” for Musicology.





Aubade (Philip Larkin)

9 10 2008

Pra te animar um pouco. E observe como ele define religião.

I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what’s really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.
The mind blanks at the glare. Not in remorse
– The good not done, the love not given, time
Torn off unused – nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast, moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear – no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anasthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,
A small, unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can’t escape,
Yet can’t accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.