“a piece of music”

5 01 2009

Gosto muito da expressão “a piece of music” do inglês. Sem equivalente no português porque na língua de Shakespeare, “piece” também significa “pedaço”.

Imagine um “pedaço de música”, uma parte que foi cortada de um todo que nós não somos capazes de compreender. Um pedaço que se junta a outro pedaço para adquirir sentido. Sentido que nunca é obtido completamente, mas que fica mais manejável quando estes pedaços são relacionados a um contexto maior.

Pense em música como algo grande, atemporal, que, vez ou outra, alguém de talento consegue dar forma, fechar numa estrutura com início, meio e fim no que convencionamos chamar de canção, sinfonia, movimento, ópera, vinheta, sonata, cantiga de roda ou outra coisa.

Aquela canção maravilhosa que te emociona e faz você pensar na beleza das coisas não encerra a definição de música. É só um naco dessa experiência tão maior e tão difícil de definir, que chamamos de “curtir” música.

Essa idéia também me deixa feliz porque me faz pensar que o que eu vejo como o melhor da música é, na verdade, somente uma fração, um quinhãozinho do que existe pra ser experimentado e que há uma infinidade de pedaços ainda por serem descobertos.

Não é esta uma visão mais humilde da nossa relação com a música? Eu acho.

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o marqueteiro da música

10 11 2008

It is the producer who has the task of introducing into the recording studio the ear of the public, whose verdict has little to do with technical considerations; it is he who must assess what effect the song will have on audiences at large. It is also he who must try to ‘draw out’ of the singer what the public wants; and conversely to pave the way for the special emotional ties which bring the singer to his public, by himself embodying for the singer an audience which is as yet only potential. It is for him that the singer will try to fashion the right persona. This work of the professionals, which makes possible the operation of a transfer-mechanism between singers and their audiences, goes against the grain of musicological analysis: there is here no such thing as the ‘structure’ of a song. None of the elements which go into its creation, none of the dichotomies which the outside observer can detect, are above the process of negotiation. Their meaning varies, wears out or vanishes. Each song modifies by degrees the basic model, which does not exist as an absolute. The gimmick of yesterday soon becomes the boring tactic of today, as far as public taste is concerned.

(Antoine Hennion em “The Production of Success: an anti-musicology of pop song”)

Hennion escreve sobre mediação em música, um assunto que eu acho fascinante – e crucial – no estudo da música popular. Aqui ele está falando do processo de produção da música pop e descreve o papel do produtor como sendo um tipo de “marqueteiro” do músico, um elo entre o artista e o público. Cada projeto tem uma concepção diferente, que muda de acordo com o que pensa o produtor. E o artista é como um ator, que incorpora um personagem de acordo com a exigência desse diretor.

Qual exatamente a importância do produtor? Ele é uma figura crucial no processo de produção de um álbum, um artista-músico que se coloca entre o artista e o público (que ele precisa conhecer), alguém que compõe, arranja e tem conhecimentos de engenharia de áudio. Não é apenas alguém que documenta a performance de outro, mas um profissional que cria e compõe.

O que eu acho especialmente interessante no texto de Hennion é a idéia de que não existe a “estrutura da canção”, cuja noção a musicologia empresta da música erudita (e o argumento de Hennion é precisamente este: a musicologia não tem as ferramentas para analisar a música popular). O processo de produção da música popular é mais complexo e envolve outros elementos. Na verdade, os elementos da canção – o que se ouve na gravação – vêem em segundo lugar nesse processo de negociação entre o cantor e seu público.

A canção pode ser a mesma mas cada interpretação constitui um projeto musical inédito que varia de intérprete para intérprete. E ainda que o intérprete seja o mesmo, cada regravação é uma concepção musical autônoma, que, por sua vez, traz a marca do produtor.

Eu discordo da idéia de que a decisão do produtor tem pouco a ver com considerações técnicas. Boa parte destes produtores são músicos antes de mais nada. Aliás é daí que podem vir certos conflitos: se ele, por exemplo, priorizar o aspecto técnico da produção em detrimento da concepção artística que caracteriza a carreira do músico com o qual ele está trabalhando.

E quais são os elementos da canção?

A tune, lyrics and a singer: from the musical point of view, a vocal melody with an accompaniment. These elements make up a very limiting configuration as far as the genre is concerned. They exclude the effect of vocal polyphony, as well as pure instrumental composition and its virtuosic possibilities. The music is subordinated in the song to a single main part: a sung melody of a simple type, which must have an accompaniment.

The tunes are tonal, rarely modal. The principal harmonies are familiar; the form depends on the juxtaposition between an insistent chorus and verses which provide progression. But the simplicity of these traditional musical variables is misleading. The song is nothing before the ‘arrangement’, and its creation occurs not really at the moment of its composition but far more at the moment of orchestration, recording and sound mixing. The elements, with their somewhat classical musical grammar, are looked upon chiefly as raw materials to be assembled along with the voice, the sound, the ‘colours’ and the effects of volume and density. The real music of the song hides behind the melody and gives it its meaning. The audience only notices the melody and thinks it is the tune itself which it likes.

“A canção não é nada antes do arranjo e a sua criação ocorre não no momento da composição, mas muito mais no momento da orquestração, gravação e mixagem”. E o único profissional diretamente envolvido em cada uma destas fases é o produtor.

Eu acho fascinante o quanto de marketing envolve a produção de um CD. E estou me referindo à “enganação” que acontece antes de qualquer tentativa de divulgação do material. Estou falando da quantidade enorme de recursos que esse profissional – o produtor – lança mão para criar os efeitos que nós não devemos ouvir ou realçar o que ele quer que percebamos. Me lembra um tipo de “ilusionismo auditivo”. Além disso, ele precisa ter um talento enorme para lidar com artistas melindrosos e com o ego dos músicos e engenheiros; mas mais importante, precisa ser criativo o suficiente para poder mascarar muita coisa na gravação a fim de convencer o ouvinte de que ele está ouvindo “apenas” uma canção gravada pelo grande artista que é seu cantor favorito.





that idiotic thing called a perfect triad

5 11 2008

Eu falei que diatonicismo enche o saco. Veja o que disse meu compositor favorito, também se sentindo sufocado por clichés tonais.

Agora, entre você, — que vive em tempos de tv, radio, internet e ipod — e ele, que morreu em 1918, quem você acha que ouviu mais música tonal?

Debussy’s letters, especially those written in 1894, are full of anguish and raillery against what he saw as the limits that his training had placed on his fantasy. “I’ve spent days trying to capture that ‘nothing’ that Mélisande is made of,” he wrote to one friend. To another he wondered whether there was anything left for a composer to do anymore but recycle clichés: “Impossible to count how often since Gluck people have died to the chord of the [Neapolitan] sixth, and now, from [Massenet’s] Manon to Isolde, they do it to the diminished seventh! And as for that idiotic thing called a perfect triad, it’s only habit, like going in a cafe! As for old Arkel, he “comes from beyond the grave and has that objective prophetic gentleness of those who are soon to die–all of which has to be expressed with do-re-mi-fa-sol-la-ti-do!!! What a profession!

Takuskin citando Debussy (The Oxford History of Western Music, vol. 4, p.89)





músicos? bah!

30 10 2008

“Quem sabe faz. Quem não sabe, ensina.”

“If a composer could say what he had to say in words he would not bother trying to say it in music.” (Mahler)

Já te aviso que este é um texto mal-humorado. Então talvez seja melhor você pegar suas idéias politicamente corretas sobre música e ir ler blogs mais cordiais porque hoje eu vou dizer dos músicos, o que Mafoma não disse do toucinho.

Eu acho que competência musical é um negócio super valorizado. É, estou implicando com músicos, mesmo sendo uma deles. Não posso me excluir completamente dessa categoria, já que durante um bom tempo, eu ganhei a vida fazendo música. Mas tem um tipo específico de músico que me irrita e o que segue baseia-se principalmente nos meus aborrecimentos com esse tipo.

Eu trabalhei com vários músicos excelentes cujo ego só perdia, em tamanho, para o talento musical. E uma coisa especialmente aborrecida é a mania de achar que a capacidade de fazer boa música substitui coisas como elegância, bom gosto, gentileza, boas maneiras e leitura.

Vou falar só dessa última. Se você já leu alguma coisa nesse blog, já deve saber o que eu penso de gente que não gosta de ler. Quem não lê, não tem o hábito de ser contrariado e ser contrariado é uma coisa muito, muito saudável. Como resultado, tende a achar que tem o direito de sair por aí falando besteira. Em outras palavras, quem não lê, perde o senso de ridículo.

Já ouvi várias vezes, por exemplo, músicos dizendo que, em se tratando de música, não há nada a ser aprendido em livros.

Muita gente sofre desse mal, a ignorância. Nada de novo nisso. Mas músicos exercem um certo fascínio no imaginário das pessoas e, por isso, todo mundo quer ouvi-los falar. O que nem todo mundo percebe, porém, é que boa parte dos músicos não sabe falar de música. A maioria dos músicos que eu conheço não é capaz de articular, de maneira interessante (ou inteligível), uma idéia relevante sobre música.

Acha que eu estou sendo cruel? Essa opinião não é nova e nem exclusivamente minha. Gente reclamando da preguiça mental dos músicos é a coisa mais comum entre quem tem que trabalhar com essa turma. Guido D’Arezzo, um monge da Idade Média, cujo trabalho era ensinar cantores, referiu-se a músicos em termos bem menos elogiosos. Ele respeitava o musicus (o sujeito que filosofa sobre música), mas achava que o cantor (o sujeito que faz música) não valia muita coisa.

Convenhamos, a rotina do músico, que envolve basicamente, se aprimorar na execução de um instrumento, não contribui para fazer dele um pensador. Tocar escalas o dia todo não te ajuda a melhorar a percepção de coisas que não sejam escalas.

Tocar um instrumento exige exatamente que tipo de esforço intelectual? Não, sério, quais são os processos cognitivos envolvidos na tarefa de aperfeiçoar, vamos dizer, a execução de uma sonata no piano? Claro, envolve um trabalho meticuloso de coordenação motora, controle de movimentos, de assimilação de um número razoável de convenções (que é a leitura de uma partitura), de um certo exercício de criatividade no que diz respeito à expressão. Mas que mais?

Professores de música estão sempre martelando na cabeça do aluno aquela recomendação para jamais tocar mecanicamente. Por que? Porque tocar um instrumento é uma atividade principalmente mecânica, onde é muito fácil fazer as coisas automaticamente, sem pensar. O músico se acostuma com o instrumento, com o repertório, com o estilo e deixa de usar a cabeça.

Quanto mais pensar sobre outras músicas, sobre as implicações da sua música num contexto social maior, sobre a relação da música com outras artes, sobre o seu lugar na vida das pessoas! Não, não dá tempo de pensar nessas coisas todas.

Isso não quer dizer que músicos sejam pessoas desinteressantes. Conversa de músico, sim, é geralmente entediante. Porque, com freqüência, eles falam de música sob o ponto de vista da interpretação, o que é um jeito bem limitado de ver as coisas. Raramente, por exemplo, conseguem avaliar música fora dos seus respectivos instrumentos. Já conversou com aquele pianista que fica mexendo os dedos no ar quando pensa num trecho de música, como se o único modo de lembrar fosse pela ação dos dedos? Em muitos casos, eles não conseguem se interessar, apreciar e, menos ainda, entender tradições musicais muito diferentes das suas. Ouvem o mundo através dos seus ouvidos exclusivamente tonais.

Mas costumam se meter em situações engraçadíssimas, simplesmente porque isso é o que costuma acontecer com gente que só consegue olhar para o próprio umbigo. O que os torna tão divertidos é precisamente o fato de que tamanho talento é freqüentemente acompanhado por um ego igualmente agigantado e uma total falta de sensibilidade para com outras pessoas.

Mas há músicos que não são nada disso, me diz você, de olho na sua guitarra vermelha encostada no canto do quarto. Então eu te digo que tocar um instrumento não faz de você esse tipo de músico a que eu me refiro. Sim, sim, há exceções. É claro que o que eu disse antes é uma generalização. Me deixa que o blog é meu!

Estou falando de um tipo específico. Aquele sujeito que não faz outra coisa que não seja música e que não fala de outra coisa também. Quem alterna aulas de piano com a leitura de livros sobre história política do Brasil, por exemplo, não é bem esse tipo que eu estou falando porque o músico a que eu me refiro não vai tirar tempo do seu estudo pra gastar lendo um livro.

É uma atitude. Uma arrogância que coloca o ato de tocar acima de tudo. A própria frase que abre este texto já me foi repetida ad nauseam por gente que toca.

Acho isso é mais sério num país como o Brasil. Aí, educação musical é luxo; tocar bem um instrumento não é pra quem quer. Então o músico se vê como pertencendo a uma elite. Em países onde todo mundo aprende um instrumento na escola não dá pra manter essa atitude porque há excelentes músicos que não tocam profissionalmente. Há mais pessoas que se dedicam seriamente à música, mas têm outra profissão.

Queria fechar o post dizendo alguma coisa inteligente sobre a frase do Mahler que eu coloquei lá em cima. Mas fiquei com preguiça.

Tchau. Vou tocar violão.