como escreve Miguel Esteves Cardoso

8 11 2008

Quando eu leio um texto bem escrito, tenho a impressão que o autor escreve sem esforço algum. Que as palavras fluem naturalmente e o texto vai tomando forma quase como se a coisa toda independesse da vontade de quem escreveu.

E talvez isso se dê exatamente assim com alguns autores.

Mas não com Miguel Esteves Cardoso.

Quando começas a escrever, tens um plano concreto do que será a crónica?
Tenho. Passo pelo menos um dia inteiro a pensar no que vou dizer, mas a pensar mesmo, entre dicionários e apontamentos. Muitos apontamentos. Um moleskine dá-me só para duas crónicas. E aproveito apenas uma pequeníssima percentagem dessas ideias. Uma vez em cada mil, quando faço menos apontamentos, consigo pôr tudo o que pensei dentro da crónica. Mas essas não são as que ficam melhor.

É óbvio que te preocupas muito com o estilo e essa preocupação pode ser um martírio, como explicava o Flaubert.
É um martírio, sim. Toda a gente que escreve crónicas para jornais aprende a aceitar o facto de que muitas vezes o que se entrega é uma merda.

Tens algum mecanismo de auto-avaliação para dizer “isto não presta”?
Sim, sim. Toda a gente tem. Mesmo no seu auge, uma pessoa entrega, no máximo dos máximos, uma crónica boa, sabendo que a seguinte vai ser uma merda, e a seguinte também, e a seguinte também. Ou seja, uma crónica boa em cada quatro. Estou a falar a sério. Já cheguei a pensar que a sequência média era: crónica boa, merda, crónica boa, merda. Mas não é. E se por acaso fizeres duas crónica boas, intervaladas com uma de merda, logo a seguir tens merda, merda, merda, merda, merda.

Daqui.





podcast com James Wood

6 11 2008

Alguém gravou uma palestra de 30 minutos de James Wood na livraria de Harvard, onde ele falou do seu livro “How Fiction Works”, que eu estou lendo e gostando muito — como acontece com quase tudo o que leio dele.

E o site ThoughCast colocou à disposição aqui pra quem quiser ouvir.





ainda não decidi…

1 11 2008

se esta é uma boa idéia ou se é uma coisa totalmente idiota.

Estou pendendo pra última. Mas achei irresistível.

Em todo caso, começa hoje. Então se te interessa, corra pra se inscrever.





é matemático

13 10 2008

There is a way in which even complex prose is quite simple — because of that mathematical finality by which a perfect sentence cannot admit of an infinite number of variations, cannot be extended without aesthetic blight: its perfection is the solution to its own puzzle; it could not be done better.

James Wood in “How Fiction Works”





mostre, em seu texto, quem você é de verdade

13 07 2008

Olha que interessante esse texto de Kurt Vonnegut sobre estilo. Ele diz coisas que você, provavelmente, já sabe, mas o início tem uma grande sacada.

Newspaper reporters and technical writers are trained to reveal almost nothing about themselves in their writings. This makes them freaks in the world of writers, since almost all of the other ink-stained wretches in that world reveal a lot about themselves to readers. We call these revelations, accidental and intentional, elements of style.

These revelations tell us as readers what sort of person it is with whom we are spending time. Does the writer sound ignorant or informed, stupid or bright, crooked or honest, humorless or playful– ? And on and on.

Why should you examine your writing style with the idea of improving it? Do so as a mark of respect for your readers, whatever you’re writing. If you scribble your thoughts any which way, your readers will surely feel that you care nothing about them. They will mark you down as an egomaniac or a chowderhead — or, worse, they will stop reading you.

The most damning revelation you can make about yourself is that you do not know what is interesting and what is not. Don’t you yourself like or dislike writers mainly for what they choose to show you or make you think about? Did you ever admire an emptyheaded writer for his or her mastery of the language? No.





degustação na livraria

11 07 2008

Uma volta pela Livraria Cultura no conjunto Nacional é uma aula sobre como o Brasil vai mal das pernas também na área de publicação, embora os negócios, aparentemente, vão muito bem, obrigado. Passei uma noite na seção de filosofia e antropologia e fiquei abismada com a quantidade de porcaria publicada.

A primeira coisa que chama a atenção numa livraria brasileira é o cuidado que as editoras têm com a aparência dos livros. Coisas como o design da capa, a qualidade do papel, o tipo de fonte.

Existem muitos tipos de livros. Há aqueles que existem para serem saboreados com os sentidos. Têm mais fotos e ilustrações que texto. Desenhos, há aos montes. Você sente a textura do papel com a ponta dos dedos. Chega o papel perto do nariz pra sentir  cheiro da combinação tinta e papel. Boa parte do prazer está em folhear estes livros. E há os livros cujo forte são as idéias que apresentam. Nada de ilustrações. Nem um mísero desenhinho. O brasileiro não gosta de livros de jeito nenhum, mas odeia especialmente este tipo. Ainda dá pra encarar os que têm figurinhas. Mas sem elas, aí é pedir muito.

Os livros de filosofia e antropologia se encaixam nessa segunda categoria. A dos chatinhos. Então as editoras, querendo expandir sua clientela para além dos universitários duros – que, todo mundo sabe, vivem mesmo é de xerox -, investem pesadamente na aparência do livro. Os livros são lindos. As capas são magníficas. O cheiro da tinta no papel faz a gente querer lamber a folha (ou talvez eu esteja sozinha nessa). A fonte escolhida é diferente – até distrai a atenção do que está escrito. Mas e as idéias por trás das palavras? Uma frustração a cada frase.

Coisa mais fácil publicar um livro no Brasil. E lembrando de uma conversa na comunidade dos tradutores do Orkut que li hoje mesmo, aqui, onde se publica muita porcaria, publica-se, também, muita coisa traduzida porcamente, viu? Ter um livro publicado não é atestado de competência.

Agora quando vou na Cultura, nem leio mais a orelha do livro pra decidir se compro ou não. Sinto o livro com a ponta dos dedos, dou uma pancadinha e cheiro o papel. Então olho pros dois lados e dou uma lambidinha numa página do meio.





a guide to writing well

16 03 2008

um link utilíssimo