entrevista com Simon Frith (i)

13 11 2008

Simon Frith é um etnomusicólogo que escreve sobre música popular. Ele começou como crítico escrevendo sobre rock e acabou concluindo um doutorado em UCBerkeley.

Ele escreveu “The Sociology of Rock” (1978) e “Performing Rites: On the Value of Popular Music” (1996).

Frith concedeu uma entrevista para a revista online de música “Perfect Sound Forever”, onde ele falou de coisas como indústria cultural, preços de CDs, colecionadores de discos, jornalismo musical, crítica musical, a influência da mídia na vendagem de discos e o que é escrever sobre música.

É sobre alguns trechos dessa conversa que eu queria falar aqui.

Eu gosto de ler entrevistas de pesquisadores que já publicaram bastante sobre determinado assunto porque, neste formato, muitos deles conseguem escapar dos vícios de linguagem e do jargão da academia e colocar suas idéias de modo mais acessível.

Recomendo a leitura da entrevista toda. Se seu inglês não permite isso, minha versão das respostas dele talvez te seja útil (não é uma tradução ipsissima verba). Incluí minhas impressões sobre o que ele diz.

Primeira observação que ele faz sobre a indústria cultural: “um aspecto que é peculiar a este segmento é que paga-se o mesmo por diferentes produções musicais independentemente do custo da produção”. Ele afirma que, na verdade, quanto maior a demanda, mais barato é o produto. E qual a explicação pra essa peculiaridade? Segundo Frith, a indústria fonográfica investe dinheiro em coisas que não trazem lucro (pelo menos não diretamente) e recupera o investimento na venda de produções que geram grande lucro. O negócio é maximizar as vendas de produtos populares e minimizar as vendas dos não tão populares.

Confesso que, a princípio, não entendi muito bem quais seriam esses “produtos não-populares”. Acho que ele está se referindo àquelas produções que não deram certo. De fato, a indústria fonográfica não tem como acertar sempre; produção musical é um negócio de alto risco (ele volta a falar disso mais pra frente).

Acho que isso tem duas implicações. Primeiro, mostra como qualquer avaliação deste mercado é uma coisa imprevisível e até nebulosa – uma falta de transparência que as próprias empresas envolvidas talvez prefiram manter – e ninguém sabe avaliar direito o que acontece direito com os processos de produção musical das grandes gravadoras. Acho que a coisa toda é um tipo de caixa preta, um sistema que segue sua própria lógica.

Segundo, esse lado arriscado das produções musicais explica porque as empresas usam agressivamente todo e qualquer recurso para impedir que seus negócios sejam ameaçados (como o combate à pirataria). Existe muito investimento envolvido.

Outra observação de Frith:

“Sempre se assumiu que, em se tratando de indústria cultural, as pessoas não escolhem as obras por causa do preço. (…) Elas não preferem Eminem a Pink ou a The Streets por causa do preço.

Com os CDs digitais, gravações podem existir para sempre e há um catálogo muito maior de itens antigos; portanto, há menos incentivo para se comprar os novos lançamentos. Então, eu acho que este tipo de custo está começando a ter um efeito. Um catálogo com itens mais antigos é mais barato e as pessoas não estão tão dispostas a comprar algo novo, que elas nunca ouviram e que custa mais. (…) O aumento da oferta e das opções de escolha será enorme e o preço vai acabar sendo um fator mais importante na decisão.”

Faz sentido. Mas eu levaria em consideração o fato de que muitas das novidades são lançamentos atuais de nomes consagrados. Acho que esse é um filão que talvez fuja um pouco dessa análise que ele faz.

Outro aspecto é que para as novas gerações de consumidores, o “clássico” talvez seja tão novidade quanto aquela banda lançada ano passado.

Uma pergunta sobre o “silêncio como um produto a ser comercializado”:

Frith concorda que esta é uma tendência é cita resorts, praias e condomínios fechados como variações dessa idéia: as pessoas pagam para fugir dos ruídos da cidade.

Eu diria que outro exemplo de como isto já está acontecendo é o sucesso de vendas dos fones de neutralizador de ruído (noise cancelling). Caríssimos e que se tornaram um produto extremamente popular (eu também quero um!). Aliás, só eles tornariam viável a idéia dele de uma gravação de silêncio.

“Com o mundo tornando-se cada vez menor, será difícil manter-se as diferenças entre os estilos musicais?

Frith aposta na capacidade criativa dos músicos. E eu concordo. Num mundo de mesmices, há pessoas fazendo coisas incrivelmente originais (enquanto outros, é claro, são virtuoses em copiar).

Outra coisa é que as tradições musicais evoluem – muitas vezes na marra, a contragosto mesmo – e conseguem se diferenciar do que veio antes, mas ainda assim mantendo certa coerência de estilo ao incorporar novos elementos.

(minha “conversa” com Frith continua aqui)

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blogando a tradução de um livro

18 10 2008

Este parece ser um projeto interessante. O tradutor Daniel Hahn resolver blogar sobre a experiência de traduzir um livro. Desde o começo, ele pretende discutir o processo de traduzir o livro Estação das Chuvas de José Eduardo Agualusa, um escritor angolano.

Aqui ele fala das dificuldades que ele vê nesta tradução antes mesmo de iniciar, pelo fato de já ter traduzido material deste autor.

E aqui, como verificar se a tradução está correta:

The first is the question about how you know when something is right, when after a little playing around with alternatives you know you’ve got it. For me, there’s only one way to measure that, and that’s by reading it aloud.

E a preocupação com o som das palavras:

Then I came home and read the same passage aloud in Portuguese. (Which I would never do in public, as my accent is horrible…) And it sounded totally different. Smoother, humming, it felt as though it were all m’s and n’s and l’s. And indeed, look at this first line – even if you know no Portuguese, just look at the letters that constitute it: Naquela noite Lídia sonhou com o mar.

I wonder if I’ve done what I’m always afraid of doing, produced something that reads well but at the cost of forgetting some of its kinship to the original?

Daniel tem recebido emails com sugestões para os problemas de tradução que ele posta no blog. Achei corajoso ele se propor a compartilhar esse processo com os leitores do blog.

Por outro lado, talvez esse blog atrase um bocado a conclusão da tradução. Pelo menos, ele vai contar com gente disposta a dar seus pitacos.

Tradutores gostam (precisam?) mesmo de palpites.





você foi enganado

17 07 2008

Se você veio atrás de um moleskine, baseado neste post aqui, lhe informo que você foi enganado.

Isso não se faz, não é? Coisa mais desonesta mentir pra gente tão ocupada que nem tradutor.

Por que você não aproveita que está aqui e deixa um desaforo nesse post aqui (ou em qualquer outro) falando pra dona do blog que ficar oferecendo moleskine pras pessoas em troca de ibope no blog é uma coisa muito, muito feia e que isso não se faz?

Ou você pode aproveitar e dar uma olhada neste post aqui, que por acaso fala de um artigo muito bom sobre tradução. Tem esse aqui também falando da tradução para o português do Harry Potter que alguns adolescentes fizeram. E esse sobre tradução literária. E mais esse, onde um autor estrangeiro fala sobre tradução. Ou este com um trecho da nova tradução de “Os Maias” pro inglês.

E aqui deixo, muito desaforadamente, um link para o catálogo completo destes malditos caderninhos, que eu prometi e não vou te dar.

Volte outras vezes. Amanhã estarei distribuindo IPhones.





erros tipográficos que você nem sabia que cometia

19 04 2008

Esta é pra quem escreve em inglês ou traduz. Sobre dashes eu sabia porque fui corrigida por um professor. Mas o resto… Não passei nem na metade do teste. E você?

Coisa de nerd? Não. Coisa de profissional.





sobre traduzir… “just do the best you can”

14 03 2008

“An indispensable part of the translator’s craft is the ability to make decisions.”  (Elborg Forster)

Um artigo delicioso e pé-no-chão sobre tradução, escrito por quem sabe o que diz porque fala do que faz.

Trechos…

I suppose most people have no more than a vague idea of what is involved in transferring a text from a “source” to a “target” language. They think that as long as the translator knows both languages, he/she can “just do it,” as if it were a matter of drawing a map. But the fact is that the transferral can only be done by means of rewriting, for no two languages are totally congruent in their structure. And rewriting is a form of writing, which is why different authors will translate the same text in sometimes amazingly different, yet equally “accurate” ways. Translations, I often think, are like musical or theatrical performances: the conductor and the soloist follow a precise score, the actor follows a text, and yet the symphony sounds very different when conducted by Furtwèngler or by Bernstein; Laurence Olivier and Kenneth Branagh gave us very different Henry Vs.

Ou eu muito me engano ou o que ele descreve abaixo é uma abordagem de esquerda neste ofício tão importante? Vade retro! Nesse aspecto estou com Forster.

 In recent years a whole school of Translation Studies scholars has begun to insist that fluency and transparency in a translation are hallmarks of cultural imperialism, particularly if the target language is dominant, as English is in our own time. These theoreticians, people like Douglas Robinson and Laurence Venuti, start with the useful concept of systems-theory. By this they mean that the translator must be familiar with the “representational” and psychological systems in which both languages are embedded. So far so good. But then our theoreticians object to the kind of re-writing that makes the source-text fit into the mental, social, even political patterns of the target culture. (Putting it rather more simply, I keep reminding myself that any expression I use in a translation must “ring a bell” with the reader.) But the modern theorists feel that this would be a “hegemonic” proceeding, and in order to avoid it, they advocate “foreignizing” the translation. This, they claim, will make it sound strange and thereby “enrich” the target language. This may actually be legitimate in high literature, where even the source text often uses techniques of strangeness (Verfremdung) to focus attention, but in the kind of work I do, I believe that “foreignization” only creates awkwardness and confusion.

E, finalmente, uma visão humilde do que é traduzir:

“Just do the best you can.”

This just might be the motto for all translators.





um presente especial: a nova tradução de “Os Maias”

12 12 2007

Ganhei hoje um presente maravilhoso da minha melhor amiga: a última tradução de “Os Maias” de Eça de Queiroz, feita para o inglês por Margaret Jull Costa.

O parágrafo inicial da obra original, seguido da tradução:

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha decerto de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo de Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de uma data.

The house in Lisbon to which the Maias moved in the autumn of 1875 was known in Rua de São Francisco de Paula, and in the surrounding area of Janelas Verdes, as the Casa do Ramalhete, the House of the Bouquet of Flowers, or, more simply, as Ramalhete. Despite that fresh green name worthy of some rural retreat, Ramalhete was a large stern house of sober walls, with a line of narrow wrought iron balconies on the second floor, and, above that, a row of timid little windows sheltering under the eaves, a house which, as befitted a building dating from the reign of Queen Maria I, had the gloomy appearance of an ecclesiastical residence, and indeed, to complete its resemblance to a Jesuit college, it needed only a bell and a cross. The name, Ramalhete, doubtless came from the square panel of decorative tiles placed in the spot intended for a coat of arms that had never materialised, and which depicted a large bunch of sunflowers tied with a ribbon on which one could still just make out the letters and numbers of a date.





Škvorecký e suas duas línguas

9 12 2007

Agora é a vez de Josef Škvorecký falar da experiência de escrever numa língua estrangeira. É dele o terceiro texto do livro “The Genius of Language: Fifteen writers reflect on their mother tongues”.

O primeiro trecho descreve uma experiência que eu também tive com o português, depois que saí do Brasil:

A strange thing and Henry Miller got it right. Surrounded by the sounds of the foreign language—speaking, on a daily basis, my very good English, as friends kindly assured me—my eyes, my ears, my inner receptive organs became attuned to Czech to a much higher degree of precision than back in Bohemia. I awakened to aspects of my mother tongue of which formerly I was unaware, having used them subconsciously, mechanically. The sex appeal of feminine endings, the lure of verbal aspects, the capricious scherzos of prefixes, such things.

A segunda passagem fala do poder da linguagem apesar dos problemas com textos mal-traduzidos. Škvorecký, como ele mesmo diz, também traduziu.

The reviewers never read my novels as I had written them in my “small”—for most American critics, even “obscure”—language. They read only translations. And I thought of my early days, of the Sinclairs and Dickenses, and Dreisers, not to speak of Curwoods and Setons and Edgar Rice Burroughses, all of them enjoyed in dubious—no: bad—no: horrible translations, translations really insulting to sensitive speakers of the obscure language of the westernmost Slavs. And I wondered. What made me enjoy Mr. Babbitt, who constantly used the second person plural in addressing his children, his wife, his closest friends? What made me ignore the shocking impoliteness of characters who addressed their physicians with the disrespectful “Doctor,” not “Mr. Doctor”? What made me so imperceptive of the twisted sentences that slavishly followed the word order of the originals? Did they sound alluringly exotic? Sweetly foreign? What made me not wonder about a military band in Thackeray whose bulky musician played very loudly on the dulcimer? All that?

Surely, there was nothing resembling genius in the language of those translations. Yet the novels spoke to me, with great intensity. So strongly that they decided my future. True, there was Eliot, whom I first read in English, then years later in a supposedly good Czech translation, who, after the true magic of “Because I do not hope. . . ,” was almost torture. Was it Josef Hora’s labor devoted to each word which the translator, paid by that word, obviously neglected? Something else?

For a decade of my life, when my own efforts were banned, I turned translator myself. The experience taught me to appreciate my excellent translators in Canada. I bitterly learned what it was to cleanse your text of the abundance of auxiliary verbs so foreign to Czech, of the prevalence of the passive voice, of possessive pronouns used with parts of the human body, all these and other translators’ errors which so uglified the American magic of Faulkner, the British acrimony of Waugh, the translucency of Hemingway’s diction. Would any American monolingual or even—in the major languages—bilingual or trilingual reviewer dare to say what the late Czech critic said about my sentences?

No, and it wouldn’t be their fault. Although they were unaware of my originals, their reviews were rarely scathing, often favorable. What about language, then? What is it that makes even books that present only a ragged shadow of their model enjoyable, even enthralling? What makes a teenager in a landlocked little country ruled and butchered by foreign invaders and mighty Big Daddies enter the skin of an illiterate boy from Missouri, of a nigger slave—enter a world as far away as the stars?

Yes, language can be of supreme beauty. But there is more to works of fiction than just language. Style in Chandler’s sense, the experience of Dickens but also that of Henry James, of life’s martyrdom or of life’s sweet mellowness, and many other things.

Let’s leave it to the horses, they have bigger heads.

Or perhaps to the elephants.