“a piece of music”

5 01 2009

Gosto muito da expressão “a piece of music” do inglês. Sem equivalente no português porque na língua de Shakespeare, “piece” também significa “pedaço”.

Imagine um “pedaço de música”, uma parte que foi cortada de um todo que nós não somos capazes de compreender. Um pedaço que se junta a outro pedaço para adquirir sentido. Sentido que nunca é obtido completamente, mas que fica mais manejável quando estes pedaços são relacionados a um contexto maior.

Pense em música como algo grande, atemporal, que, vez ou outra, alguém de talento consegue dar forma, fechar numa estrutura com início, meio e fim no que convencionamos chamar de canção, sinfonia, movimento, ópera, vinheta, sonata, cantiga de roda ou outra coisa.

Aquela canção maravilhosa que te emociona e faz você pensar na beleza das coisas não encerra a definição de música. É só um naco dessa experiência tão maior e tão difícil de definir, que chamamos de “curtir” música.

Essa idéia também me deixa feliz porque me faz pensar que o que eu vejo como o melhor da música é, na verdade, somente uma fração, um quinhãozinho do que existe pra ser experimentado e que há uma infinidade de pedaços ainda por serem descobertos.

Não é esta uma visão mais humilde da nossa relação com a música? Eu acho.





entrevista com Simon Frith (ii)

16 11 2008

(continuação da minha tradução comentada da entrevista de Simon Frith, etnomusicólogo e crítico de rock, à revista online “Perfect Sound Forever”. A primeira parte está aqui).

O entrevistador pergunta se Frith acha que a integração das mídias vai tornar mais difícil para os músicos desenvolverem um estilo único e pessoal. Frith é otimista com relação a isso porque acha que as pessoas ainda se interessam por música ao vivo.

Não importa o quanto um álbum de sucesso venda e o quanto a indústria domine isso, eles nunca conseguirão acabar com a necessidade das pessoas de assistir música por si mesmas. Uma das coisas que nós ainda desconhecemos é que, de várias maneiras, a revolução digital permitiu que este tipo de música chegue até o consumidor sem o auxílio de nenhuma estrutura corporativa gigantesca e isto de maneiras que provavelmente não eram possíveis antes. A distribuição tornou-se muito mais fácil. Isto permite que contextos musicais muito pequenos comuniquem-se uns com os outros sem ter que lidar com a AOL-Time-Warner. Se isto vai durar ou se o sistema de música digital vai continuar gratuito ainda não se sabe. É muito cedo pra deduzir.

Particularmente, acho que a busca e necessidade por música ao vivo são coisas que variam muito dependendo do acesso que se tem à música digital. Onde há grande oferta de música digital as pessoas podem não se animar a sair de casa para curtir música ao vivo. Há, claro, situações específicas como música ao vivo acontecendo em igrejas. Ou mesmo o caso de músicos – sempre interessados em música ao vivo – que se reúnem pra tocar ou assistir outro músico.

Há ainda os contextos em que ouvir música não é o objetivo principal do encontro (por exemplo, um som ao vivo num barzinho). Fora estes exemplos, eu me pergunto como é que a resposta dele se encaixaria numa cidade como São Paulo, por exemplo. Como é a cena musical em São Paulo? Eu realmente não sei responder.

De qualquer modo, essas cenas são diferentes em cada lugar, dependendo do país, cidade ou mesmo bairro.

A seguir, Frith fala da experiência dele com jovens, que confirma a idéia de que os rapazes são mais propensos a colecionar álbuns do que as garotas. Ele não tem uma explicação pra isso. Eu acho que talvez os rapazes façam isso com a idéia de usar tal conhecimento para atrair as garotas. Se funciona ou não, é outra conversa.

Frith vê o jornalismo musical funcionando principalmente como um mecanismo de feedback para as gravadoras. Segundo ele, o que as gravadoras conseguem com os críticos é que eles são as primeiras pessoas a reagir a uma gravação com certo grau de independência porque estão tentando alcançar os leitores para os quais escrevem.

Portanto, as gravadoras conseguem ter uma dica sobre o sucesso ou não de uma gravação e se vale a pena promovê-lo ou não. No geral, no entanto, não acredito que os críticos tem muita influência no que as pessoas escolhem comprar. Ouvir um álbum é muito mais importante do que ler a respeito dele.

Taí. Um crítico é mais útil para a gravadora do que para o público. Isso quem está falando é um ex-crítico.

PSF: Nesse contexto, você está falando de resenhas ao invés de textos de reflexão.

Frith: Sim. Boa parte do jornalismo (musical) que se vê diária ou semanalmente é alguém cobrindo a turnê de alguém, algum concerto, ou uma gravação. Textos de reflexão, que ajudam a definir um gênero musical, são desejáveis, mas muito mais raros.

PSF: Então qual seria o objetivo de tais textos de reflexão?

Frith: Eu acho que, em parte, tem a ver com o fato de que é um jeito do jornalista freelancer ganhar algum dinheiro vendendo histórias! (risadas) Tipo, encaixando sua matéria no caderno de artes e tornando-se um tipo de intelectual. Mas falando em termos menos sarcásticos, estes textos podem ser importantes para articular as opiniões de um tipo específico de comunidade musical, de modo que você tem um registro escrito de um gênero em um certo tempo. NME, um dos últimos semanários da Inglaterra ainda expressa mais ou menos o que entende ser as preferências dos seus leitores, o que elas representam para a história do rock e que tipo de banda eles resolveram curtir e porquê. Eles proporcionam à indústria e à audiência um modo de falar. Mas eu não acredito que isto ocorra antes do evento em si (gravação, show, etc.).

PSF: Qual a importância destes textos para o leitor?

Frith: Eu não sei. Quando eu estava no Melody Maker (outro periódico semanal de música britânico), descobrimos que, do ponto de vista dos leitores, eles estavam muito mais interessados em notícias e resenhas e na agenda dos shows do que em textos de reflexão. As pessoas liam sobre os artistas que lhes interessavam. Não estava claro se elas estavam interessadas em ler textos de reflexão sobre o estado da música. Eu acho que textos de reflexão sobre música teriam que ser vistos mais como incluídos entre os textos de reflexão de outras formas de arte e menos no contexto de jornalismo sobre rock. Em outras palavras, se você pegar um bom artigo de um jornalista como Bob Christgau do Voice, ele seria lido junto com outros textos sobre literatura ou arte ou teatro.

PSF: Mas você vê resenhas de discos lá (Voice) também.

Frith: Sim, mas eles têm uma função completamente diferente.

(esta entrevista continua num outro post)